CARNAVAL À LUZ DA CONSCIÊNCIA... MARCELO CAETANO MONTEIRO

CARNAVAL À LUZ DA CONSCIÊNCIA ESPÍRITA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
O carnaval constitui manifestação cultural de raízes antiquíssimas, cuja gênese histórica remonta às festividades agrárias da Antiguidade, notadamente às Saturnais romanas e aos cultos dionisíacos, nos quais a suspensão provisória das hierarquias sociais e a exaltação dos sentidos compunham o núcleo simbólico da celebração. Com o advento do cristianismo e a instituição da Quaresma, consolidou-se o período que antecede os quarenta dias de recolhimento, recebendo o nome de carnaval, termo associado à ideia de "carne vale", expressão que remete à despedida dos prazeres carnais antes do ciclo penitencial. A síntese histórica dessas transformações encontra-se sistematizada em estudos introdutórios sobre a origem da festividade, como os divulgados por plataformas acadêmicas de caráter didático, a exemplo do portal Toda Matéria.
No contexto brasileiro, a festividade adquiriu contornos próprios a partir do século XIX, integrando influências europeias, africanas e indígenas, culminando nos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro e nas manifestações populares de diversas regiões. A Sambódromo da Marquês de Sapucaí tornou-se símbolo dessa expressão cultural, projetando internacionalmente o carnaval como espetáculo artístico de grande envergadura estética e econômica.
Sob o prisma espírita, contudo, a análise não se limita ao fenômeno sociológico ou histórico. A Doutrina codificada por Allan Kardec propõe abordagem moral e psicológica da conduta humana, enfatizando a responsabilidade individual e a lei de causa e efeito. Em "O Livro dos Espíritos", especialmente nas questões 614 a 618, afirma-se que a lei natural é a lei de Deus, inscrita na consciência.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS. LIVRO III.

CAPÍTULO I.
LEI DIVINA OU NATURAL.
Estrutura temática do capítulo.
Caracteres da lei natural. 614 a 618.
Origem e conhecimento da lei natural. 619 a 628.
O bem e o mal. 629 a 646.
Divisão da lei natural. 647 e 648.
O LIVRO DOS ESPÍRITOS.
CARACTERES DA LEI NATURAL.
Que se deve entender por lei natural.
Resposta. A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e ele só é infeliz quando dela se afasta.
É eterna a lei de Deus.
Resposta. Eterna e imutável como o próprio Deus.
Será possível que Deus em certa época haja prescrito aos homens o que noutra época lhes proibiu.
Resposta. Deus não se engana. Os homens é que são obrigados a modificar suas leis por imperfeitas. As de Deus são perfeitas. A harmonia que reina no universo material como no universo moral funda-se em leis estabelecidas por Deus desde toda a eternidade.
As leis divinas compreendem somente o procedimento moral.
Resposta. Todas as leis da Natureza são leis divinas pois Deus é o autor de tudo. O sábio estuda as leis da matéria. O homem de bem estuda e pratica as da alma.
Pergunta complementar. Dado é ao homem aprofundar umas e outras.
Resposta. É, mas uma única existência não lhe basta para isso.
Alguns anos são insuficientes para a aquisição de tudo o de que precisa o ser a fim de se considerar perfeito, ainda que se considere apenas a distância que vai do selvagem ao homem civilizado. Mesmo a existência mais longa seria insuficiente. Com maior razão o será quando curta como é para a maioria dos homens.
Entre as leis divinas, umas regulam o movimento e as relações da matéria bruta. São as leis físicas cujo estudo pertence ao domínio da Ciência. Outras dizem respeito ao homem considerado em si mesmo e em suas relações com Deus e com seus semelhantes. Contêm as regras da vida do corpo e da vida da alma. São as leis morais.
São as mesmas para todos os mundos as leis divinas.
Resposta. Devem ser apropriadas à natureza de cada mundo e adequadas ao grau de progresso dos seres que os habitam.

O LIVRO DOS ESPÍRITOS.
ORIGEM E CONHECIMENTO DA LEI NATURAL.

A todos os homens facultou Deus os meios de conhecerem sua lei.
Resposta. Todos podem conhecê-la, mas nem todos a compreendem. Os homens de bem e os que se decidem a investigá-la são os que melhor a compreendem. Todos entretanto a compreenderão um dia pois o progresso é inevitável.
Comentário doutrinário. A justiça das diversas encarnações do homem decorre deste princípio. Em cada nova existência sua inteligência se desenvolve e ele compreende melhor o que é bem e o que é mal. Se tudo se ultimasse numa única existência qual seria a sorte de milhões que morrem na selvageria ou na ignorância sem que deles tenha dependido instruírem-se.
Antes de unir-se ao corpo a alma compreende melhor a lei de Deus do que depois de encarnada.
Resposta. Compreende-a conforme o grau de perfeição atingido e dela guarda a intuição quando unida ao corpo. Os maus instintos porém fazem ordinariamente que o homem a esqueça.

Pergunta complementar. Se o homem traz na consciência a lei de Deus que necessidade havia de revelação.
Resposta. Ele a esquecera e desprezara. Quis então Deus que lhe fosse lembrada.
Síntese doutrinária.
A lei divina ou natural apresenta-se como princípio eterno, imutável e universal. Governa tanto a ordem física quanto a ordem moral. Está inscrita na consciência e manifesta-se progressivamente pelo desenvolvimento intelectual e ético do Espírito através das existências sucessivas. Sua compreensão plena não se esgota numa única vida, mas realiza-se no curso da evolução espiritual. A fidelidade a essa lei constitui a base da verdadeira felicidade e do equilíbrio entre o homem, Deus e a coletividade.
Assim, qualquer manifestação cultural deve ser examinada à luz da intenção, da finalidade e das consequências morais que dela derivam.
Não há, na Doutrina Espírita, prescrição taxativa que proíba ou recomende a participação nas festividades momescas. O princípio Espiritista da liberdade responsável estabelece que "tudo nos é lícito, mas nem tudo nos convém", advertência paulina constante em 1 Coríntios 10:23. A decisão, portanto, é de foro íntimo, sendo cada indivíduo chamado a avaliar a compatibilidade entre suas escolhas e os valores que professa.
No carnaval tradicional, sobretudo nas cidades interioranas, em que famílias inteiras confraternizam, observa-se ambiente de convivência social, música, dança e alegria sem finalidade dissoluta. Quando a diversão é sadia, desprovida de intenções lesivas, não se identifica, do ponto de vista espírita, elemento intrinsecamente pernicioso. A recreação equilibrada pode constituir válvula de distensão emocional, favorecendo a saúde psíquica.
Todavia, a análise ética torna-se mais complexa quando a festividade assume contornos de exacerbação sensorial, erotização ostensiva, abuso de álcool e substâncias psicoativas, além de práticas sexuais irresponsáveis. Nesses contextos, a psicosfera coletiva, conceito recorrente na literatura mediúnica, adquire relevância. Thereza de Brito, por intermédio das faculdades mediúnicas de Raul Teixeira, adverte em "Vereda Familiar", p. 92, que a sintonização psíquica estabelece-se pelo padrão vibratório predominante. Mesmo a boa intenção individual pode tornar-se ineficaz quando imersa em campo energético densificado por interesses materialistas.
A obra "Nas Fronteiras da Loucura", psicografada por Divaldo Franco, sob a autoria espiritual de Manoel Philomeno de Miranda, descreve quadros de intensa interferência espiritual em ambientes de descontrole coletivo. A narrativa apresenta multidões encarnadas e desencarnadas sintonizadas em vibrações de baixo teor moral, favorecendo processos obsessivos e induções psíquicas perturbadoras. O comentário atribuído a Bezerra de Menezes é emblemático ao afirmar que grande parcela da humanidade transita entre o instinto e os pródromos da razão, mais sedenta de sensações do que de emoções superiores.
Do ponto de vista psicológico, a festividade pode funcionar como mecanismo de fuga. Muitos buscam no excesso a anestesia para conflitos íntimos, frustrações afetivas ou vazio existencial. A embriaguez coletiva, longe de resolver tais conflitos, pode intensificá-los, gerando arrependimentos, traumas, doenças e desajustes morais. A Doutrina Espírita ensina que o Espírito progride pelo esforço consciente de autoaperfeiçoamento, não pela evasão temporária das próprias responsabilidades.
É imperioso frisar os dias atuais. A hipersexualização midiática, a mercantilização do corpo, a banalização das relações afetivas e o consumo exacerbado transformaram parte do carnaval em vitrine de estímulos que favorecem a coisificação do ser humano. A exposição constante a tais estímulos influencia a formação moral de crianças e jovens, contribuindo para distorções na compreensão da afetividade, da dignidade e do respeito mútuo. As consequências manifestam-se em estatísticas de violência, gravidez não planejada, doenças sexualmente transmissíveis e conflitos psíquicos que se estendem muito além do período festivo.
Entretanto, não se trata de condenação moralista. A Doutrina Espírita convida à lucidez, não ao julgamento precipitado. Como sintetizou Divaldo Franco em artigo publicado em 12 de fevereiro, o carnaval não é, em si mesmo, fator de degeneração, mas oportunidade para que muitos exponham suas feridas morais. A festa revela o que já se encontra latente na intimidade. O ambiente apenas amplia disposições internas preexistentes.
A ética espírita fundamenta-se na consciência esclarecida. Cada Espírito, em seu estágio evolutivo, escolhe os ambientes com os quais se afina. A responsabilidade é pessoal e intransferível. Participar ou não participar das folias é decisão íntima, cuja avaliação se dará à luz da própria consciência, esse tribunal silencioso onde a lei divina se inscreve.
Concluir, portanto, implica reconhecer que o carnaval pode ser expressão artística legítima, celebração cultural ou campo de desregramento moral, conforme a intenção e o comportamento dos indivíduos. A Doutrina Espírita não impõe proibições exteriores, mas convoca ao autoconhecimento, à vigilância e à elevação dos propósitos.
Ficar em paz com a consciência exige coerência entre valores professados e atitudes assumidas. Onde houver respeito, equilíbrio e dignidade, a alegria não será inimiga da evolução. Onde prevalecer o excesso e a fuga, as consequências ensinarão, pela experiência, as lições que ainda não foram assimiladas.
A verdadeira liberdade não reside na licença irrestrita dos sentidos, mas na capacidade de escolher o bem mesmo quando o mundo oferece o contrário, porque é nessa escolha silenciosa que o Espírito edifica o próprio destino com serenidade e responsabilidade.