Eu sou um fruto do niilismo? Um buraco... Christie Wingler
Eu sou um fruto do niilismo?
Um buraco de minhocas que ninguém sabe aonde vai dar?
Sabe-se apenas que transporta, mas pra qual tempo, pra qual lugar?
Só sei que, apesar de um tanto torta,
as ondulações do mar,
com toda a sua beleza e forma indefinida,
me confortam.
Porque dá pra ser disforme, enorme,
e, ainda assim, pacífico.
Mas por oposição ao que se espera,
é o alinhado que mais me intriga:
a reta que liga um ponto a outro,
a ideia linear de trajeto percorrido,
de coesão, de equilíbrio.
Então pergunto-me:
como é possível algo ou alguém se manter tão rígido?
Parece fino como linha,
a um sopro de embaraçar-se
em nós miúdos, quase irreversíveis.
E o que se mantém por muito ereto,
não tende ao declive?
Será que é tão ruim ser um abismo?
É obscuro, eu sei.
Mas cabe tudo, inclusive o nada.
Essa vastidão inspira grito que ecoa,
inenarrável
e um silêncio desconhecido,
interminável.
Não há régua que meça
a altura ou a dimensão.
E é nessa incerteza que se arrasta,
que nos tornamos
livres de toda crença,
de todo medo,
de toda razão,
inexoráveis apenas por existir.
