Música THERE THERE - RADIOHEAD... RodrigoP

Música THERE THERE - RADIOHEAD
Interpretações sobre ansiedade.



There There: voltar ao lugar conhecido


“There. There.”


O título não soa como descoberta. Soa como reconhecimento. Como alguém apontando para um lugar onde já se esteve antes. Para quem convive com a ansiedade, esse “lá” não é geográfico. É um estado mental. Um território recorrente. A música não anuncia um perigo novo; ela parece indicar o retorno a um ciclo conhecido.


“In pitch dark, I go walking in your landscape.”


A canção começa no escuro. Não há colisão imediata, não há tempestade declarada. Apenas ausência de luz. A ansiedade raramente nasce de ameaça evidente; ela nasce da incerteza. No breu, a mente procura contornos onde não há forma definida. Caminhar no escuro é avançar sem garantias, e é justamente isso que ativa o alerta.


“Broken branches
Trip me as I speak.”


Os galhos quebrados não são desastres. São pequenas irregularidades. Mas, no escuro, tornam-se obstáculos. Tropeçar enquanto se fala sugere divisão interna: parte da mente participa do mundo; outra parte monitora riscos invisíveis. A hipervigilância não grita, sussurra atenção constante. O tropeço é a interferência do medo na fluidez da experiência.


Então surge o verso que corta essa fusão entre sentir e realidade:


“Just ’cause you feel it doesn’t mean it’s there.”


A ansiedade tende a transformar sensação em evidência. Se sinto perigo, deve haver perigo. Se sinto risco, algo está errado. O verso não nega a emoção, ele questiona sua autoridade. Introduz uma fissura entre experiência interna e fato externo. É uma frase que desarma a equivalência automática entre medo e verdade.


Mas a imagem central da música talvez seja outra:


“There’s always a siren singing you to shipwreck.”


A sereia não ameaça. Ela encanta. O canto não soa como histeria, mas sim como clareza. Há algo profundamente sedutor na ansiedade: a sensação de estar antecipando, de estar sendo prudente, de estar intelectualmente preparado para o pior. O pensamento ansioso se disfarça de responsabilidade. Ele oferece uma promessa: se você imaginar todos os cenários negativos, nada o surpreenderá.
É essa promessa que seduz.


“Always” é a palavra decisiva. A sereia está sempre disponível, sempre pronta a oferecer narrativa e coerência. O canto parece sensato. Parece protetor. Parece inteligência aplicada ao risco. A ansiedade não arrasta, convence.


Mas a direção é clara: “singing you to shipwreck.” O destino do encanto não é preparo, é estreitamento. Não é controle real, é reorganização da vida em torno da antecipação do desastre. O naufrágio não precisa ser um evento espetacular. Pode ser o abandono gradual da experiência em favor do cálculo.


“Steer away from these rocks.”
O aviso parece simples: afaste-se das rochas. Mas talvez as rochas não sejam apenas perigos externos. Talvez sejam decisões tomadas sob domínio do medo — oportunidades evitadas, vínculos não iniciados, caminhos nunca tentados. O desastre não está necessariamente no que acontece. Está no que deixa de acontecer.


Aqui ecoa a imagem de Ulisses na Odisseia. Ele sabe que o canto das sereias é irresistível. Não tenta destruí-lo. Não foge do mar. Amarra-se ao mastro e atravessa. O gesto não é de supressão, mas de contenção. Ele reconhece sua vulnerabilidade e cria estrutura. O canto continua. A travessia também.
Talvez seja essa a alternativa sugerida pela música: não silenciar a ansiedade, mas impedir que ela governe o leme.


“Why so greedy and lonely?”


A pergunta adiciona outra camada. “Greedy” pode ser lido como ambição por controle absoluto — antecipar tudo, eliminar incertezas, dominar variáveis. “Lonely” expõe o custo dessa tentativa. A ansiedade costuma ser enfrentada em silêncio. O pensamento parece íntimo demais, peculiar demais para ser compartilhado. O canto torna-se experiência solitária.


Mas mesmo Ulisses não atravessa completamente só. Ele se amarra, mas há tripulação. A solidão amplifica a sereia. O enfrentamento puramente individual tende ao desgaste. A presença de um outro — um interlocutor, um terapeuta, um amigo — introduz proporção.


A ansiedade prospera na ausência de contraste.


“Heaven sent you to me.”
Esse verso permite outra leitura: a ansiedade como condição recebida, não escolhida. A hipervigilância pode não ser falha moral, mas traço estrutural — temperamento, história, predisposição. Algumas mentes são mais sensíveis ao risco, mais rápidas na detecção de ameaça. Isso não é culpa; é configuração. O desafio não é tornar-se outro, mas não permitir que o traço determine todas as escolhas.


E então a formulação mais crua:


“We are accidents waiting to happen.”
Aqui a ansiedade deixa de prever eventos e passa a definir identidade. Não é apenas algo que pode dar errado; somos nós que estamos prestes a falhar. A repetição de “waiting” transforma a existência em antecipação permanente. Mesmo quando racionalizada, essa hipótese pode continuar ecoando como crença silenciosa: não é o mundo que é frágil, somos nós.


Os sussurros ao longo da execução — “don’t reach out”, “someone on your shoulder” — dramatizam a disputa interna. Há a voz da evitação, que aconselha retraimento. Há também a presença de um observador, uma instância que questiona a fusão entre sentir e ser. A ansiedade fala alto, mas não é a única voz. A música encena essa tensão.


“There. There.”


O título retorna como gesto de
reconhecimento. Lá. De novo. O território familiar do ciclo — o breu, o tropeço, o encanto, a antecipação do acidente. Não é surpresa; é retorno.
O desastre, nessa leitura, não está nas rochas isoladas. Está na entrega silenciosa do leme ao medo. Está em permitir que a sedução da prudência substitua a experiência direta do mundo. Viver em função da ansiedade não implode de uma vez; estreita-se lentamente.


Ouvir “There There” pode ser reconhecer o lugar sem aceitá-lo como destino. A sereia pode continuar cantando. O mar pode permanecer escuro. Mas a travessia — contida, consciente, talvez não solitária — ainda é possível.