O Retrato do Ingrato Existem laços que,... Amanda Tamiris da Maia

O Retrato do Ingrato
Existem laços que, em vez de sustentar, sufocam. É o mistério doloroso daquela mãe que, em nome de um amor incondicional, permite que o próprio filho transforme seu lar em arena e sua alma em banquete. Ele chega como se o mundo lhe devesse tudo, portando o título de "filho" apenas para exercer uma tirania mesquinha. Com o nariz empinado e o coração seco, ele não entra na casa da mãe; ele a invade.
O narrador da vida observa: enquanto ela oferece o pão e o afeto, ele devolve o palavrão, a piada de mau gosto e a encenação barata que visa humilhar quem mais o apoia. Ele sente inveja da felicidade dela, como se cada sorriso da mãe fosse um roubo ao seu próprio ego. Ele tenta mandar nos irmãos, ditar as regras de um teto que não é seu e sugar a energia de um ambiente que deveria ser sagrado.
É o filho que se acha "dono do mundo", mas não consegue sequer dominar a própria má educação. E a mãe? Ela assiste a tudo com os olhos marejados de quem vê um tesouro onde só existe cascalho. Ela silencia, não por falta de voz, mas porque o amor a faz acreditar que, em algum lugar debaixo daquela armadura de arrogância e desrespeito, ainda existe a criança que ela nalgum dia embalou. É o sacrifício silencioso de quem aceita ser ferida para não ter que ferir o fruto do próprio ventre.
Nota do Narrador: "Há filhos que são âncoras, que nos prendem ao chão pelo peso do amor; e há filhos que são tempestades, que nos destroem por dentro enquanto juramos que o céu ainda está azul.