“Eu me lembro” é mais romântico do... Vicky Forgiarini Vargas

“Eu me lembro” é mais romântico do que “eu te amo”.

Eu estive em um relacionamento por algum tempo.
Ele me amou de todas as formas que, teoricamente, alguém deveria ser amado.
Havia esforço.
Paciência.
Constância.

E eu me convenci de que isso precisava ser suficiente.
Mas o que sempre me faltou foi a fluência,
aquela intimidade silenciosa que nasce da atenção.

Ele não se lembrava de mim como eu me lembrava dele.

E eu sei que pode parecer pequeno, quase bobo, mas eu comprava o suco favorito dele porque lembrava do sabor de pêssego que ele gostava.
Eu evitava colocar meu cachorro nos lugares que ele ia, porque sabia que ele tinha alergia.

Eu só não percebi o quanto precisava que isso fosse recíproco até uns dias atrás, quando reencontrei uma pessoa que eu não via há anos.

Não havia absolutamente nenhuma base para um relacionamento.
Nada promissor, nada concreto.
Mas, depois que nos vimos, ela me pegou de surpresa ao dizer:

“Vamos sair para andar.”

E eu respondi, quase automaticamente:
“Só pra te lembrar, eu não posso suar.”

Mesmo depois de um ano sem nos falarmos, ela sorriu e disse:
“Ah, não se preocupa. Eu já comprei seu refresco favorito.”

E eu fiquei parada ali, no meio da cozinha.

Nunca estive apaixonada por aquela pessoa.
E ela nunca esteve apaixonada por mim.

Mas, naquele instante, eu me senti profundamente vista.
E, de um jeito estranho, amada.

Porque não era só sobre lembrar de uma restrição minha.
Era sobre, mesmo depois de um ano de silêncio, ainda existirem detalhes meus que ela achou que valiam a pena guardar.

Aquilo pareceu mais íntimo do que qualquer “eu te amo” que já disseram pra mim.

Porque declarações de amor são palavras.
Mas lembrar é ação.

Você pode fingir que ama alguém,
mas não pode fingir que lembra.

Lembrar significa pensar em alguém mesmo na ausência,
mesmo quando não é conveniente,
mesmo quando a vida segue normalmente.

É quando, sem perceber,
a pessoa aparece.

Eu te encontro no corredor do suco de pêssego.
Eu te encontro na fruteira.
Eu te encontro em milhares de pequenas escolhas que faço sem pensar.

Porque, querendo ou não,
pelo resto da minha vida…

Eu vou lembrar que ele era alérgico a cachorros.