Debaixo da mesma bandeira Encontraram-se... jorge capessa
Debaixo da mesma bandeira
Encontraram-se ao entardecer, num campo aberto onde a poeira guardava memórias antigas. Ao centro, uma única bandeira tremulava
— não era vermelha nem preta, não tinha símbolos partidários. Era apenas Angola.
O MPLA falou primeiro, com voz de quem carrega o peso do tempo:
— Eu governei quando o país ainda aprendia a respirar. Errei, sim, mas também mantive a casa de pé quando tudo ameaçava ruir.
A UNITA, com olhar firme e marcado pela história, respondeu:
— E eu lutei quando a casa parecia não ter dono. Também errei. Confundi resistência com teimosia e paguei caro por isso… mas dei voz a quem não se sentia ouvido.
Houve silêncio. O vento levantou poeira, como se despertasse os mortos.
— Sabes
— disse o MPLA
—o poder acostuma mal. Às vezes esquecemo-nos de ouvir porque pensamos já saber tudo.
— E a oposição
— respondeu a UNITA
— pode acostumar-se a criticar tanto que esquece de propor caminhos.
Ambos olharam para a bandeira.
— O povo
— disse o MPLA
— espera mais do que acusações.
— Espera justiça, dignidade e verdade
— completou a UNITA.
— Talvez o nosso maior erro
— confessou o MPLA
— tenha sido confundir o partido com o país.
— E o nosso — admitiu a UNITA — foi achar que o país podia nascer apenas da negação do outro.
O sol começava a desaparecer.
— Angola é maior do que nós
— disseram quase ao mesmo tempo.
E naquele instante compreenderam que a verdadeira guerra não era entre dois partidos, mas entre servir e explorar, entre governar e dominar, entre memória e esquecimento.
A bandeira continuou a tremular, indiferente aos nomes, fiel apenas ao povo.
E o campo, que antes ouvira tiros, ouviu finalmente uma promessa silenciosa:
que a política deixasse de ser herança de ódio e passasse a ser compromisso com o amanhã.
