ANTUSA MARTINS- A MÉDIUM SURDA. “O... MARCELO CAETANO MONTEIRO

ANTUSA MARTINS- A MÉDIUM SURDA.
“O TAPETE VERDE”
Estava em Uberaba. As dores que assolavam o corpo de Jerônimo eram lancinantes, quase insuportáveis. Ainda enxergava, mas a vitalidade lhe escapava lentamente. Um amigo, comovido diante de tanto padecimento, disse-lhe que iria buscar uma médium curadora de reconhecida dedicação.
Quando ela entrou, Jerônimo a viu. Pequena em estatura, simples na presença, imediatamente sentiu-se cativado por aquela figura singular. Era Antusa Martins. Surda, expressava-se por sinais e por palavras balbuciadas, pois não era muda. Seu primeiro gesto foi retirar um tapete vermelho que lhe cobria os pés. Em seguida, com sinais firmes e voz difícil, exprimiu-se. “Prefiro o verde”.
Aquela afirmação atingiu Jerônimo como uma revelação íntima. Ali não havia tapete verde algum. O tapete verde, seu predileto, ficara em Ituiutaba. Aquilo foi, para ele, uma prova irrefutável de sua mediunidade.
Antusa, por meio de gestos e de um linguajar singular, contou-lhe que já o conhecia. Disse que, todas as tardes, desdobrava-se espiritualmente e ia até sua casa, em Ituiutaba, acompanhada de Bezerra de Menezes, para aplicar-lhe passes. Nessas visitas, vira o tapete verde, que lhe ficara gravado na memória espiritual.
A partir desse encontro, Jerônimo nunca mais se afastou de Antusa. Costumava dizer que ela e Chico Xavier eram a sua força, o seu sustentáculo moral e espiritual. Referia-se a ela com ternura profunda, chamando-a de “um anjo em forma de mulher”.
Sempre que ia a Uberaba, fazia questão de visitá-la. O carinho de Antusa por ele era imenso, constante, silencioso e fiel. Ela afirmava que, havia muitos séculos, ela e Chico Xavier, juntos, tentavam socorrê-lo. A oportunidade, enfim, se concretizara por meio da dor, instrumento severo e, ao mesmo tempo, redentor.
Porque, quando a dor abre as portas da alma, a misericórdia encontra passagem e transforma sofrimento em caminho de elevação.

ANTUSA FERREIRA MARTINS
A MEDIUNIDADE QUE VIA ALÉM DA MATÉRIA.
Antusa Ferreira Martins figura entre as personalidades mediúnicas mais singulares do Espiritismo brasileiro. Sua existência foi marcada por uma abnegação silenciosa, por faculdades extraordinárias e por uma fidelidade absoluta à caridade, razão pela qual foi consagrada pela tradição popular como o “Chico de Saias” de Uberaba, não por comparação superficial, mas pela similitude moral, pelo serviço incessante e pela renúncia integral de si mesma em favor do próximo.
A TRAJETÓRIA DE ANTUSA FERREIRA MARTINS
INFÂNCIA. O SILÊNCIO E A VISÃO.
Nascida em 9 de setembro de 1902, em uma fazenda nos arredores de Uberaba, Minas Gerais, Antusa teve a infância abruptamente transformada por um episódio decisivo. Aos 4 anos, foi acometida por meningite, enfermidade que lhe suprimiu definitivamente a audição. Em decorrência dessa condição, não desenvolveu a fala, passando a viver em um mundo de silêncio absoluto.
Criada em ambiente católico tradicional, causava assombro e inquietação aos familiares ao relatar, por meio de gestos próprios e de uma linguagem intuitiva, que via pessoas desencarnadas circulando pela casa. Para Antusa, desde muito cedo, o mundo espiritual apresentava-se com a mesma concretude do mundo material, sem fronteiras perceptíveis entre ambos.
ADOLESCÊNCIA E O ENCONTRO COM EURÍPEDES.
Aos 15 anos, em 1917, sua família mudou-se para Sacramento, Minas Gerais. À época, a cidade destacava-se como um dos grandes polos do Espiritismo no Brasil, sob a orientação moral e intelectual de Eurípedes Barsanulfo.
Ao conhecer a jovem Antusa, Eurípedes reconheceu de imediato a natureza de suas faculdades e a missão que lhe estava confiada. Sob sua orientação direta, Antusa passou a trabalhar na Farmácia Homeopática, auxiliando na preparação de medicamentos e no atendimento aos necessitados. Esse período representou verdadeiro aprendizado espiritual, no qual suas faculdades foram educadas, disciplinadas e harmonizadas à luz da caridade e da humildade.
VIDA ADULTA. TRABALHO E CARIDADE.
Após o desencarne de Eurípedes Barsanulfo, Antusa retornou a Uberaba. Sua vida manteve-se austera e despojada. Sustentava-se por meio da confecção e venda de tapetes de crochê, atividade que realizava ao lado da irmã, Nice, sem jamais converter a mediunidade em meio de benefício pessoal.
Dedicou décadas ao atendimento fraterno de enfermos e aflitos, inicialmente na Comunhão Espírita Cristã, ao lado de Chico Xavier, e posteriormente em um galpão simples construído nos fundos de sua própria residência. Ali, sem aparato, sem publicidade e sem conforto material, exercia uma das mais impressionantes formas de assistência espiritual já registradas no movimento espírita nacional.
UMA MEDIUNIDADE QUE ATRAVESSAVA A MATÉRIA.
A mediunidade de Antusa manifestava-se de maneira ampla e profundamente impactante.
Clarividência orgânica. Possuía a rara capacidade de perceber o interior do corpo humano, descrevendo órgãos enfermos, tumores, inflamações e alterações orgânicas com precisão que frequentemente surpreendia médicos e pesquisadores. Tal faculdade manifestava-se sem qualquer conhecimento acadêmico de anatomia, evidenciando sua origem extrafísica.
Audição espiritual. Embora absolutamente surda no plano físico, Antusa mantinha comunicação clara e constante com os Espíritos benfeitores. Recebia orientações de seu protetor espiritual, identificado como Santo Agostinho, bem como de outros servidores do bem, entre eles Vicente de Paulo, demonstrando que a percepção espiritual independe dos sentidos corporais.
Cura espiritual e desdobramento. Realizava tratamentos intensos por meio da imposição de mãos e da manipulação fluídica. Há numerosos relatos de que, durante o sono, trabalhava em desdobramento, visitando hospitais e lares, prestando socorro espiritual e participando de intervenções terapêuticas no plano invisível.
Fenômenos de efeitos físicos. Detinha faculdades relacionadas à movimentação e ao transporte de objetos, bem como à condensação de fluidos para curas imediatas, sempre sob rigorosa disciplina moral e finalidade exclusivamente caritativa.
O OLHAR QUE TRANSPUNHA A MATÉRIA.
Imagine-se uma mulher de pequena estatura, vivendo em um universo onde o som jamais existiu. Para Antusa Ferreira Martins, o ruído do mundo físico era inexistente, mas o plano espiritual manifestava-se diante de seus olhos com intensidade, cores e formas incontornáveis.
Enquanto a medicina de seu tempo buscava compreender os mistérios do corpo humano por meios ainda incipientes, bastava-lhe um olhar para que a carne e os ossos se tornassem translúcidos como cristal. Não necessitava de instrumentos, diagnósticos laboratoriais ou imagens técnicas. Com naturalidade serena, indicava o ponto exato onde a dor se ocultava, como quem descreve uma paisagem familiar.
No silêncio de seu galpão modesto, entre ervas, preces e gestos compassivos, Antusa demonstrou que a limitação física pode converter-se em instrumento de elevação espiritual. Sua vida testemunhou que, para ouvir a alma humana, muitas vezes é preciso calar os sentidos do mundo, pois a visão mais profunda não nasce dos olhos do corpo, mas da lucidez do espírito fiel ao bem.