Gabiroba e o Lobisomem Gabiroba estava... Luciano Platinelas
Gabiroba e o Lobisomem
Gabiroba estava realmente alegre nessa manhã florida e fresquinha de primavera, sentia que estava chegando perto da sua lagoa e já conseguia até ouvir a algazarra que os seus amigos sapinhos e todos os outros sapos vizinhos faziam à beira da lagoa, disputando quem conseguia pegar mais bichinhos, entre os tantos que voavam baixo e bem pertinho da flor d`agua naquela estação.
Perdido nos deleites da imaginação pulou bem em cima de um par de botas marrom, e se espantou por não ter logo levado um chutão. O dono dos pés daquelas botas, de cabeça baixa olhando para o chão, parecia nem ligar com a presença daquele sapo mochileiro. Muitos teriam medo! Mas o cara das botas não.
Diante de tanta indiferença demonstrada à sua presença, o sapo parou, fixou os olhos nas botas, e perguntou ao cara: “Ei amigo o que há contigo?”. Aquele ser barbudo e sujo, de olhos cansados e lábios rachados pelo vento, não deixava dúvidas que já caminhava sem destino, sem comida, em desatino fazia um tempão, e como só olhava para o ar e não expressava emoção e nem pensamento, o sapo, intrigado, resolveu ficar mais um tempo, e se apresentou:
- Olá! Eu sou o sapo Gabiroba! E quem é você que comigo não quer falar?
- Eu sou um Lobisomem. Respondeu o homem.
- Oh! Espere ai, aguarde um momento, não é só porque você é um andante desatento e está todo mal arrumado, exalando suor desagradável, todo barbudo e pela fome mal tratado que pode tomar para si características de um ser miticamente fantástico e interessante como esse tal homem lobo.
- Sim sapo! Concordo plenamente mas o que nos torna Lobisomens, não são as unhas grandes, o pelo denso ou os dentes afiados, mas os pensamentos mal organizados. Vou te contar uma história, que assim como todas as histórias que são contadas, aconteceu lá no passado.
- Senhor Pagofo, esse era o meu nome, antes de eu descobrir que era um Lobisomem. O ano era 1970, e sol daquele domingo de início de dezembro estava escaldante quando o eu voltava da quitanda com um quilo de linguiça e tomates bem vermelhinhos e chamei por Jussara, minha jovem companheira pedindo que preparasse a costumeira macarronada com linguiça de domingo, não sem antes pedir carinhosamente: “Capricha e aumenta a receita para três pessoas, hoje teremos visita”
- áh! Eu logo percebi, quando vi aquele garrafão de vinho tinto em cima da mesa. Disse Jussara entre sorrisos, costumeiramente, a gente só bebia refrigerante de guaraná ou limonada, nos almoços de domingo.
- Sem dizer palavra, apenas com o olhar, chamei meu filho Enrico e fomos pegar o trator para arar uma área de terra para plantar amendoim. Nesse tempo eu era proprietário de um pequeno sítio no Recanto da Pedra Grande, mas estava pretendendo aumentar minhas terras e nesse domingo iria receber para o almoço o Seu Buchara, proprietário de uma grande gleba de terra que havia se estabelecido na capital como comerciante, e agora por se encontrar em aparente dificuldade financeira, estava disposto a se desfazer das terras.
- Buchara e eu éramos amigos desde a infância e por essa razão ele havia oferecido suas terras para mim por um preço bem abaixo do valor de mercado, e os detalhes da negociação deveriam ser tratados durante o almoço, desse domingo regado a vinho.
- Nem sempre fui assim tão velho e mal apresentado. Naquele domingo eu era um homem de meia idade, alto, bem magro e de pele muito branca, em que pese trabalhasse a terra desde muito cedo debaixo de sol, sempre fui muito preocupado com a saúde e por isso ia para a roça, muito bem protegido dos raios solares por minhas roupas de manga longa e meu velho chapéu de palha.
- Não se podia dizer que eu era do tipo falante, mas Jussara sempre dizia que eu parecia ter um gesto para cada frase, e de fato, penso que mais gesticulava do que falava! Pelo menos era o que ela gostava de dizer quando estávamos entre amigos, que eu falava com os olhos, com as sombrancelhas, com os braços, as mãos, os dedos, enfim, com o corpo todo, e quando estava irritado então? Parecia que estava lutando algum tipo de arte marcial desconhecida com um adversário invisível, ela dizia entre sorrisos.
- Ela também adorava meus olhos azuis, e dizia que eles estavam sempre cerrados questionando ou duvidando de algo, o que não era necessariamente verdade. Pois, quando eu duvidava daquilo que estava sendo dito, eu logo perguntava e queria entender, nunca deixei uma fofoca me surpreender, sempre fui do tipo que gostava de tirar tudo a limpo, olho no olho, esse negócio de deixar o dito pelo não dito não era coisa que eu pudesse compreender naqueles tempos.
- Sempre fui religiosamente comedido com o que se falava dentro e fora de casa e muito mais ainda com os modos de se vestir, principalmente nos dias de missa: “devemos nos vestir decentemente para Deus”, é no que acredito, e penso que é assim que deve ser.
- Naquele domingo, acordei bastante feliz e, como de costume, todos fomos à missa das 07:00 horas. Meu filho Enrico já contava nove anos de idade e Jussara que de início fora contratada para cuidar da casa enquanto eu trabalhava na roça que havia pouco tempo eu comprara, depois de muitos anos de trabalho duro e economias, cortando lenha para uma rede de padarias, com o tempo virou companheira e mãe, e agora com a vida financeira mais estabilizada, estávamos em tratativas com o Padre Tinho, sobre as papeladas do casamento, que deveria acontecer em breve, e a festa! Deveria ser realizada na casa do novo sítio, que para isso seria reformada, Seu Buchara certamente ficaria feliz ao ser convidado para ser meu padrinho de casamento, pelo menos era o que eu e Jussara planejava.
- Enrico adorava ir comigo para a roça sempre que podia, mas era só para andar de trator, isso eu bem que sabia, e como ele se divertia! Todos os fins de semana quando não tinha aula, era só eu pegar os equipamentos de proteção individual e dar uma olhadela para ele, que largava tudo que estava fazendo e ia correndo lá para o galpão, onde a gente guardava o trator.
- Mas nem sempre isso acontecia, pois se tivesse prova na segunda feira, Jussara não permitia. Antes de vir trabalhar em casa, ela era professora do primário, e embora já fizesse algum tempo que não lecionava, insistia que o menino deveria se dedicar integral e responsavelmente para a escola e os deveres escolares: “Não! Não! Não! Não! Não! Criança tem que estudar, brincar, e estudar de novo” ela sempre repetia, nada de trabalhar.
- Aos domingos o almoço costumava ser servido já perto das duas horas da tarde e, nos dias que tinham visitas, se prolongava pela tarde toda. Vários pratos diferentes eram servidos, além da macarronada com linguiça, tinha sempre uma grande tigela de arroz branco, frango e pernil de porco assados, farofa com torresminho carinhosamente picado e uma deliciosa salada de folhas verdes temperada com vinho tinto seco e azeite de oliva, além da salada de ovos com maionese, e tudo isso sem contar as sobremesas de sagu de vinho suave, e pudim de leite e bolo de fubá para acompanhar o cafezinho.
- O sol do meio dia deixava a sombra do trator e do menino que ia atrás se divertindo com os desenhos que o arado fazia na terra seca remexida quase que imperceptíveis, e ofuscava minha vista. Meus olhos ardiam atrás das lentes dos óculos, irritados pelo sal do suor que escorria como pequenas enxurradas que brotavam debaixo do meu chapéu de palhas e descia pela testa até encharcar o lenço que eu sempre trazia bem amarrado ao pescoço.
- A falta de chuva deixou a terra muito seca e dura e também tinham alguns cupins pelo caminho, o que fazia com que o trator desse alguns trancos fortes que pareciam normais para mim. Normalmente, eu era muito atencioso ao trabalho e principalmente nos dias em que o meu filho estava junto no trator, mas nesse domingo eu estava distraído gesticulando com meus planos através dos pensamentos, e parecia até um pouco ansioso pela visita que estava para chegar, pensando nas propostas e contra propostas que meu amigo Buchara iria apresentar, e se o negócio não desse certo? Aonde Jussara iria se casar? Ela insistia em fazer a festa na casa nova.
- O fato é que eu nunca irei saber de verdade o que me fez distrair tanto a ponto de não perceber que meu filho havia caído do trator e que o arado passou por cima dele fatiando seu pequeno corpinho que tingiu de sangue aquela terra dura e seca, cheia de formigas que impiedosamente já devoram meu pequenino, que ainda vivo gemia de dores naquele chão quente sem forças para poder expressar algum movimento e se defender de tão brutal ataque.
- O menino havias se desequilibrado e caiu no meio da gleba e só fui notar ao fazer a volta, lá no final, para retornar arando, quando vi ele no chão, pulei do trator ainda em movimento, sem saber direito o que havia acontecido, e desesperado, gritando, corri ao seu para socorro.
- Cheguei perto e vi meu filho ainda vivo. Gritei com Deus por misericórdia pelos meus pecados, sacudi meu filho, rezei chorando, e implorei a todos os santos conhecidos e aos anjos, querubins e arcanjos. O menino via, os olhos se mexiam, mas nada dizia, e então peguei meu filho no colo e sai correndo a pé em direção a nossa casa, que ficava a quase dois quilômetros daquele fatídico local.
- Chorando, ensanguentado, transfigurado pelo desespero vi apontar ao longe a caminhonete do meu amigo Buchara e acenei como um louco por socorro. Pulei com o menino para dentro da caçamba da caminhonete e seguimos para o hospital em alta velocidade, foram vinte ou trinta minutos de esperança que aliviou um pouco o meu desespero. Pensei que talvez Seu Buchara não fosse apenas um amigo, mas um anjo que me ouviu e que naquele momento nos socorria, a aparição da caminhonete só podia ser um milagre e que por isso meu filho estava salvo.
Chegamos ao posto de saúde e pulei da caçamba aos gritos desesperados por um médico sem conseguir explicar o que estava acontecendo, quando finalmente percebi que a atendente repetia exaustivamente como voz trêmula e chorosa que: “É domingo e não tem médico aqui”. tive vontade de esbravejar, xingar, protestar, de me jogar de cabeça no chão e morrer, mas não havia tempo para isso e então voltamos para a caminhonete que saiu em alta velocidade para o hospital mais próximo, que nem era tão próximo assim.
A cabeça do menino apoiada em minha perna e eu sem conseguir olhar para seu corpinho desfigurado pelas lâminas do arado, falava com ele sem esperar resposta, e foi então que pude ver a vida lentamente se esvaindo pelos seus pequenos olhinhos. Chegamos ao hospital e ele não conseguia falar mais nada, só chorava e soluçava silenciosamente, enfermeiros vieram com uma maca e o levaram através daquela grossa cortina de borracha transparente, por um corredor que parecia não ter fim, enquanto eu calado o via sumir sem nada mais poder fazer.
Não demorou muito tempo e uma enfermeira entrou na sala de espera e me levou até o médico, eu só conseguiu ouvir: “Senhor Pagofo, sentimos muito...”. Não! Pensei eu, ninguém pode sentir muito a perda de um filho que não é seu, ninguém pode sentir a dor que um pai sente pelo filho que perdeu, eu não quero ouvir mais nada e, sem dizer palavra, saí da sala, passei pelo seu amigo e ele nem me percebeu, sai pela rua andando a esmo e quando já era noite vi que estava em um lugar que nunca antes havia passado, mas ainda muito abalado, continuei andando.
Caminhava pela rua sem vontade de parar, estava perdido e sabia disso, mas não encontrava motivos de me encontrar, afinal, não via mais sentido em voltar para casa, e nem sentia que tinha casa alguma para voltar. A barulhenta e agitada segunda feira já amanhecia quando meu amigo me encontrou caminhando desnorteado à beira da pista, parou a caminhonete e Jussara desceu correndo ao meu encontro com uma toalha na mão, conversamos coisas desconexas e choramos juntos, depois ela enxugou o meu rosto e o dela, e juntos andamos vagarosamente para a caminhonete.
Buchara não ousou dizer palavra alguma, e o caminho de volta foi silencioso como uma cova fúnebre. Ao chegar em casa Jussara me fez um chá calmante e me colocou na cama. Acreditando que eu dormia, começou discutir em voz alta com meu amigo: "você não derramou uma lágrima" disse ela: "ele era nosso filho". Buchara balbuciava palavras sem sentido e nem sentimentos. Eu...levantei da cama, vesti meu par de botas, saí. Hoje sou mais um entre tantos lobisomens que vagam sem destino pelas cidades.
