Persistência Procuro a promessa de um... R. Cunha

Persistência

Procuro a promessa
de um dia que talvez seja meu,
mas tropeço na dúvida
de sequer me pertencer.

Habito a solidão que me assusta,
e nela acredito — injustamente —
que não mereço ser amada.
Será?

Falta-me o ar.
As palavras me dizem verdades
nas quais já não sei crer.
Adormeço.

E só no amanhecer
desperta o gosto amargo
de desejar o que não existe.

Persisto
na indiferença que me move,
no gesto automático de seguir.

Que sentimento é esse
que não sei nomear,
não sei acolher,
nem resignificar?

Sou prisioneira do tempo
que insiste em provar
que mereço ser vista.

Por que amar
e ser amada
me aflige tanto?

Então retorno
à vida constante:
compromissos, horários,
dias previsíveis.

Ali, onde o amor não pesa,
eu me convenço:
sou feliz.