Faz de Conta Qu eu Acredito
Tem lembrança que chega sem bater na porta, senta no sofá da nossa mente, cruza as pernas e começa a falar como se ainda tivesse direito de opinar na nossa vida.
“O velho Carvalho” não era só uma árvore, era quase um abrigo emocional improvisado, um tipo de terapia gratuita feita de histórias, risos e aquela sensação rara de pertencimento. Porque quando o lar vira campo de batalha, qualquer pedaço de sombra vira lar.
E aí vem a vida, com aquela elegância de elefante numa loja de cristais, e resolve testar a gente do jeito mais cruel possível. Não com grito, não com briga, mas com silêncio e exclusão. A festa não foi só uma festa. Foi um anúncio não oficial, quase um outdoor piscando na minha cara e me dizendo “você não pertence tanto quanto pensava”.
Aquela desculpa de “achei que tinham te convidado” é o equivalente emocional de “o cachorro comeu meu dever de casa”. Todo mundo sabe que não é bem assim. Elas sabiam. Talvez não tenham tido coragem de confrontar a situação, talvez tenham sido coniventes, talvez só tenham escolhido o caminho mais confortável. E isso dói, porque a gente espera lealdade justamente de quem divide risada debaixo de árvore.
Mas olha que curioso, e aqui entra aquele tipo de reflexão que a gente só consegue ter depois que sobrevive ao próprio passado. Aquela menina que foi deixada do lado de fora da festa… ela não ficou pequena. Ela cresceu. Ela virou alguém que teve voz, que teve público, que teve coragem de se expressar num blog quando muita gente nem sabia o que era isso direito. E isso incomodou. Porque tem gente que só gosta da gente quando a gente cabe no lugar que elas determinaram. Quando a gente cresce, quando a gente brilha, vira ameaça.
Sobre ela me chamar de “pseudoblogueira” não foi uma crítica. Foi uma tentativa mal disfarçada de diminuir algo que já estava grande demais pra caber na visão limitada dela.
Não diz nada sobre mim. Diz sobre o incômodo dela ao ver alguém que ela achava inferior ocupando um espaço que ela talvez nunca teve coragem de tentar.
No fim das contas, aquela árvore foi mais leal do que muita gente ali. Porque ela nunca fingiu ser algo que não era. Já as pessoas… ah, essas fazem teatro melhor que muito artista premiado.
Fiz exatamente o que precisava ser feito. Me afastei. Não por fraqueza, mas por dignidade. Porque tem portas que a gente não bate de novo, não por orgulho, mas por amor próprio.
Agora me diz… quem realmente perdeu ali?
Um belo dia, desses comuns que não prometem nada além de um café morno e uma lista de tarefas ignoradas, o Instagram resolveu brincar de cupido aposentado e me sugeriu justamente ele. O primeiro. O inaugural. O responsável por aquele tipo de sentimento que a gente jura que nunca mais vai sobreviver depois que passa. E lá estava… diferente. Tão diferente que me deu uma sensação estranha, como encontrar um lugar da infância e perceber que ele encolheu, ou talvez fui eu que cresci demais.
Eu olhei, respirei, e senti… nada. E isso, minha querida, é quase um espetáculo. Porque houve um tempo em que só de pensar nele, meu coração fazia mais drama que novela das nove. E agora? Silêncio. Um silêncio elegante, quase debochado. Como quem diz: olha só você, sobrevivendo ao que jurava que ia te destruir.
Eu já tinha dito tudo que precisava. Já tinha revirado cada memória como quem procura um brinco perdido no fundo da bolsa e descobre que nem queria tanto assim. Me libertei. E não foi aquele tipo de libertação cinematográfica, com vento no cabelo e trilha sonora épica. Foi mais tipo um “cansei mesmo” dito em voz baixa, enquanto dobrava roupa. E, curiosamente, funcionou melhor.
A maturidade chega meio sem avisar, meio sem pedir licença. Quando você vê, já está entendendo coisas que antes pareciam enigmas escritos em outra língua. Eu entendi que o primeiro amor não é necessariamente o amor certo. Ele é só o primeiro. Um rascunho emocional cheio de intensidade e pouca estrutura. Bonito? Às vezes. Sustentável? Quase nunca.
Depois dele, a vida, que adora um plot twist, me apresentou alguém que nem sabia o que era amar. Um homem com idade de adulto e manual emocional de adolescente. E eu, que já vinha com cicatrizes e uma certa desconfiança profissional, fui com calma. Observei, questionei, testei, quase como quem avalia um investimento de risco. Só que no meio disso tudo, eu fiz algo curioso: ensinei. E, sem perceber, fui ensinando também a mim mesma.
Me tornei o primeiro amor dele. E olha… isso tem um peso bonito. Não é sobre ser a primeira por acaso, é sobre ser a primeira de verdade. Aquela que fica. Aquela que constrói. Aquela que não foge no primeiro tropeço. E, no meio de tanto cuidado, tanto medo de dar errado de novo, deu certo. Assim, meio sem alarde, meio no susto. Deu certo.
Hoje, quando olho para trás, vejo que aquele garoto de 16 anos foi importante, sim. Mas ficou onde deveria ficar: no passado. Não faz mais sentido tentar encaixar alguém antigo numa versão minha que já nem existe mais. E quando o Instagram me mostrou o rosto dele, quase como um teste do universo, eu fiz o que qualquer mulher que já entendeu seu próprio valor faz: cliquei no “X”.
Sem drama. Sem recaída. Sem curiosidade.
Só um gesto simples, mas carregado de significado. Porque algumas histórias não precisam de continuação. Elas já cumpriram o papel delas.
E se existe essa ideia bonita de amores que se encontram em outras vidas, que seja. Quem sabe, em outro tempo, em outra versão de mim, em outro cenário. Mas nesta vida aqui, nessa bagunça linda que eu construí, eu já tenho o amor que escolhi ter até o fim.
E olha… que sorte a minha não ter ficado presa no começo, quando o melhor ainda estava por vir.
Um belo dia, desses em que a gente abre o Instagram mais por tédio do que por curiosidade, como quem abre a geladeira esperando que um brigadeiro mágico tenha brotado do nada, lá estava ele. Sugerido. Entregue pelo algoritmo como se fosse uma encomenda atrasada do passado. A pessoa que eu mais amei nessa vida, ali, em pixels bem organizados e uma bio que provavelmente nem dizia metade do que um dia eu achei que ele era.
E foi estranho. Não aquele estranho de arrepio ou saudade que aperta o peito, não. Foi um estranho quase burocrático, como reencontrar um conhecido antigo no mercado e perceber que você não tem absolutamente nada para dizer além de um “oi” educado que nem chega a sair. Eu olhei e pensei, com uma calma que teria me assustado anos atrás: eu não o conheço mais. Talvez nunca tenha conhecido.
Porque a verdade, essa senhora inconveniente que chega sem bater, é que a gente ama muito mais a versão que constrói do que a pessoa em si. Eu amei um garoto de 16 anos que despertou em mim um universo inteiro, como se tivesse apertado um botão secreto dentro do meu peito que ninguém antes tinha encontrado. E eu fiquei ali, por muito tempo, vivendo daquele eco, daquela sensação inaugural, como se o primeiro amor fosse um selo de autenticidade na minha história.
Eu queria que ele tivesse crescido ao meu lado. Queria que o tempo tivesse sido gentil o suficiente para nos transformar juntos, como duas xícaras esquecidas no mesmo canto da mesa. Mas a vida não é esse romance organizado que a gente planeja na cabeça. A vida é meio bagunçada, meio irônica, meio debochada. Ela separa com uma naturalidade impressionante aquilo que a gente jura que nasceu para ficar.
E separou.
Só que o mais curioso não foi a separação. Foi o depois.
Depois veio alguém que dizia nunca ter conhecido o amor. E eu, que já tinha um coração com histórico de quedas, cheguei cautelosa, quase com um manual invisível nas mãos. Observando. Testando. Duvidando. Porque amar de novo não é exatamente romântico, é quase um ato de coragem meio inconsequente. É tipo provar uma comida que já te fez passar mal, torcendo para que dessa vez o tempero esteja certo.
Ele era um homem feito, mas com aquele jeitinho de menino que ainda não entendeu algumas coisas básicas da vida. E eu fui, sem perceber, ensinando. Mostrando. Traduzindo sentimentos que às vezes nem eu mesma dominava tão bem assim. E no meio disso tudo, eu me tornei o primeiro amor dele. Olha que ironia bonita. Eu, que carregava um primeiro amor como uma espécie de monumento interno, virei o primeiro amor de alguém.
E eu gostei disso. Não vou mentir. Tem um certo charme em ser o começo de alguém, em ocupar esse lugar inaugural que muda tudo.
Mas não foi fácil. Eu tive medo. Medo de me decepcionar, medo de repetir a história, medo de investir de novo em algo que poderia virar mais uma lembrança guardada numa gaveta meio empoeirada da alma. Só que, diferente da primeira vez, eu não fui no impulso. Eu fui construindo. Lapidando. Questionando. Como quem monta um quebra-cabeça sem a imagem da caixa.
E, aos poucos, fez sentido.
Hoje, tantos anos depois, o amor não é aquele incêndio descontrolado do começo da vida. Ele é mais estável, mais consciente, mais… decidido. A gente se ama com uma escolha diária, quase teimosa. Não é perfeito, longe disso, mas é real. E talvez seja isso que mais importa no fim das contas.
E então, naquele dia, diante da sugestão do Instagram, eu percebi uma coisa simples e libertadora: não fazia mais sentido. Não havia mais curiosidade, nem saudade, nem aquela vontade boba de stalkeada estratégica. Só havia um “X” ali, discreto, quase tímido, esperando para ser clicado.
E eu cliquei.
Sem drama. Sem trilha sonora. Sem discurso interno elaborado. Cliquei como quem fecha uma aba desnecessária no navegador da vida.
Porque, se existe essa ideia bonita de que somos amores de outras vidas tentando nos reencontrar, eu realmente espero que, em algum outro tempo, em alguma outra versão de mim, a gente tenha dado certo. Que a gente tenha se encontrado no momento certo, com a maturidade certa, com a vida menos caótica.
Mas não foi nessa.
E tudo bem.
Porque nessa vida aqui, nessa bagunça organizada que eu aprendi a chamar de lar, eu já tenho o amor que eu quero ter até o fim. Não aquele que me ensinou a sentir pela primeira vez, mas aquele que escolheu ficar quando sentir deixou de ser novidade e virou compromisso.
E olha… entre um amor que marca e um amor que permanece, eu fico com o que fica. Sempre.
Amar, hoje em dia, não tem mais esse glamour todo de novela das nove, com gente correndo na chuva, tropeçando na própria dignidade e chamando isso de intensidade. Eu mesma já fui dessas, dramática profissional, achando que amor de verdade precisava doer um pouquinho, como quem aperta o sapato novo só pra ter certeza que ele é caro. Só que uma hora a gente cansa de sangrar por estilo.
A verdade é que amar virou quase um exercício de resistência emocional, tipo academia, só que sem espelho e sem aplauso. É acordar num dia em que tudo dentro de mim quer silêncio, isolamento e um bom “ninguém me toca”, e ainda assim escolher olhar pro outro e pensar, eu fico. Não porque é fácil. Não porque tá lindo. Mas porque tem algo ali que vale mais do que o conforto de ir embora.
E olha que ir embora, às vezes, parece uma proposta tentadora, quase um convite VIP pra paz imediata. Só que a gente descobre, com o tempo, que paz que vem fácil demais costuma ir embora do mesmo jeito. Permanecer, não. Permanecer é quase uma arte esquecida. É tipo cuidar de planta que insiste em não crescer, mas um dia, do nada, dá flor e você fica ali olhando, meio emocionada, meio besta, pensando, ainda bem que eu não joguei fora.
Amar assim exige uma coragem silenciosa. Não tem plateia, não tem trilha sonora, não tem ninguém dizendo “nossa, que lindo vocês dois resistindo ao tédio de uma terça-feira qualquer”. Mas tem uma coisa muito maior acontecendo ali, escondida no cotidiano. Tem dois seres imperfeitos, cheios de bagagem, traumas, manias irritantes e fases insuportáveis, decidindo não transformar qualquer desconforto em despedida.
E isso, sinceramente, é revolucionário. Num mundo onde tudo é descartável, inclusive gente, escolher ficar virou quase um ato de rebeldia. É tipo dizer pro universo, eu sei que seria mais fácil recomeçar com alguém novo, mais empolgante, mais leve, mas eu escolho construir, mesmo quando dá trabalho, mesmo quando dá vontade de sumir.
Porque no fim das contas, amar não é sobre aquele pico de emoção que faz o coração disparar. Isso aí até café resolve. Amar é sobre constância, sobre presença, sobre aquele gesto meio despretensioso de continuar ali, mesmo quando não tem nada de extraordinário acontecendo.
E talvez seja exatamente isso que torna tudo extraordinário.
Escolher ficar hoje em dia é quase um ato revolucionário digno de documentário que ninguém pediu, mas todo mundo deveria assistir. Porque enquanto o mundo grita “próximo!”, eu estou ali, sentada emocionalmente no mesmo lugar, olhando pra mesma criatura com as mesmas manias irritantes de sempre e pensando, curiosamente em paz, é… ainda é aqui.
Não porque é perfeito, longe disso. Se fosse perfeito, eu desconfiava. Coisa perfeita demais ou é filtro ou é golpe. Mas é porque eu já conheço os defeitos, já sei onde pisa errado, já decorei até os silêncios inconvenientes. E tem algo estranhamente confortável nisso. É tipo aquele sofá velho que já afundou no formato do meu corpo. Não é bonito, não impressiona visita, mas me entende profundamente.
Porque começar do zero parece lindo até você lembrar que o zero vem com manual de instruções oculto. A pessoa nova pode vir embalada em promessas e boas intenções, mas também traz defeitos inéditos, surpresas desagradáveis e aquele clássico momento em que você pensa, meu Deus, troquei seis por meia dúzia gourmet. Pelo menos aqui, o caos já é conhecido, quase íntimo, quase doméstico.
E não, isso não é sobre se contentar com pouco. É sobre entender que muito não é ausência de problema, é presença de disposição. Relação não é porcelana de vitrine que quebra na primeira queda e vira tragédia grega. Relação é concreto. Pesado, bruto, às vezes feio, mas resistente. Racha, sim. E vai rachar mesmo. Só que também dá pra reforçar, remendar, reconstruir. Dá trabalho? Dá. Mas desde quando o que vale a pena vem pronto e fácil?
A grande ironia é que o mundo vende intensidade como se fosse amor. Aquela coisa de arrepiar, de acelerar, de perder o fôlego. Mas isso até café forte resolve, minha filha. Amor mesmo é quando o café esfria, o dia pesa, a paciência acaba, e ainda assim você olha pra pessoa e pensa, tá, vamos continuar. Não porque não existe opção melhor no mercado, mas porque existe escolha.
E escolher, convenhamos, é muito mais difícil do que sentir. Sentir é automático, impulsivo, quase irresponsável. Escolher é consciente, é teimoso, é um pequeno pacto diário que ninguém vê. Não tem aplauso, não tem plateia, não tem trilha sonora. Só tem dois seres humanos imperfeitos tentando não desistir no primeiro sinal de desconforto.
No fim, o extraordinário nunca foi o começo cheio de fogos de artifício. Isso aí é marketing emocional. O extraordinário é quando os fogos acabam, a fumaça baixa, a realidade aparece sem maquiagem e, mesmo assim, eu fico. Fico porque quero, porque escolho, porque entendi que construir é mais raro do que substituir.
E olha… num mundo que troca tudo o tempo inteiro, ser alguém que permanece já é quase um luxo. Um luxo silencioso, discreto, que não viraliza, mas sustenta histórias inteiras. E talvez, só talvez, seja exatamente isso que ainda salva alguma coisa nesse caos bonito que a gente insiste em chamar de amor.
No fim das contas, o tal do extraordinário não chega fazendo barulho. Ele não entra pela porta com trilha sonora, nem traz um roteiro pronto digno de cinema. O extraordinário, esse danado, tem uma mania irritante de chegar quando ninguém mais está prestando atenção. Porque no começo é tudo espetáculo. É conversa até de madrugada, risada fácil, promessa que parece contrato vitalício assinado com caneta de glitter. É bonito, claro que é. Mas também é fácil. Fácil demais.
Difícil mesmo é quando o silêncio começa a aparecer sem pedir licença. Quando a rotina bate na porta e não traz flores, só boleto emocional pra pagar. Quando a pessoa já não é novidade, já não é mistério, já não vem com manual de encantamento automático. É aí que a coisa fica interessante. Ou melhor, é aí que a coisa fica verdadeira.
Porque veja só, ficar quando tudo ainda é bonito não exige coragem nenhuma. Qualquer um fica quando o amor ainda está em fase de trailer. Quero ver é permanecer quando o filme já passou da metade, quando você já sabe os defeitos de cor, o tom de voz, o jeito que irrita sem esforço. Quero ver olhar pra aquilo tudo e ainda assim pensar, tá, não é perfeito, mas é aqui que eu quero estar.
E tem uma rebeldia silenciosa nisso. Uma teimosia quase poética. Num mundo que ensina a trocar tudo na primeira dificuldade, escolher ficar é praticamente um ato revolucionário. É dizer pro universo, olha, eu sei que seria mais fácil começar do zero, fingir que nada aconteceu, investir em alguém novo com aquele brilho de novidade... mas eu não quero fácil, eu quero real.
Porque substituir virou hábito. Construir virou raridade.
E construir, minha querida, dá trabalho. Dá preguiça às vezes. Dá vontade de largar tudo e sair correndo feito personagem dramática de novela das nove. Só que aí vem aquela lucidez incômoda, quase uma voz interna meio sarcástica, dizendo: você acha mesmo que lá fora vai ser diferente? Spoiler emocional: não vai.
Todo mundo decepciona. Todo mundo falha. Todo mundo, em algum momento, vai ser exatamente o contrário da expectativa que você criou. A diferença não está em evitar isso, porque isso é impossível. A diferença está em decidir com quem você topa atravessar essa bagunça chamada realidade.
E quando eu fico, não é por falta de opção. Não é por medo. Não é por comodismo. Eu fico porque eu escolho. Porque eu entendi que o extraordinário não mora no auge, mora na constância. Mora naquele café meio sem graça de manhã, na conversa que não é épica mas é honesta, no gesto pequeno que ninguém posta, mas que sustenta tudo.
O extraordinário é olhar pra mesma pessoa, depois de tudo, e ainda reconhecer ali um lugar possível de ficar.
E isso, sinceramente, não tem nada de marketing. Isso é quase um milagre cotidiano disfarçado de rotina.
Porque substituir dá menos trabalho. É quase um reflexo condicionado da modernidade. Travou? Troca. Cansou? Troca. Não brilhou hoje? Troca também, porque aparentemente tudo precisa performar como se fosse final de campeonato todo santo dia. E eu fico olhando isso com um certo espanto, meio rindo, meio cansada, pensando em quando foi que a gente começou a tratar pessoas como se fossem aplicativos com bug.
Construir, por outro lado, é um negócio meio antipático à pressa. Construir exige tempo, exige silêncio, exige aquele desconforto chato de ter que conversar quando o orgulho queria fazer greve. Construir é olhar pra alguém num dia completamente sem graça e ainda assim escolher ficar. E vamos combinar, dias sem graça são a maioria. A vida não é feita de trilha sonora emocionante, é mais aquele barulho de panela, notificação e boleto vencendo.
Substituir virou hábito porque dá a falsa sensação de controle. A gente acredita que, escolhendo outra pessoa, vai finalmente encontrar a versão sem defeitos, sem falhas, sem dias ruins. Spoiler que ninguém gosta de ouvir, mas eu falo mesmo assim: não vai. Você só muda o roteiro, mas o gênero do filme continua o mesmo. Sempre vai ter conflito, sempre vai ter frustração, sempre vai ter aquele momento em que você pensa “será que era melhor ter ficado sozinha vendo série?”. E às vezes era mesmo, mas isso não invalida o resto.
Construir é quase um ato de teimosia elegante. É tipo dizer “eu sei que seria mais fácil sair correndo, mas eu vou ficar aqui mais um pouco e ver no que dá”. E não, isso não tem nada a ver com aceitar qualquer coisa. Tem a ver com entender que profundidade não nasce de facilidade. Relações rasas são muito educadas, muito leves, muito fáceis de abandonar. Relações profundas dão trabalho, mas também dão raiz. E raiz, minha querida, segura até quando o vento resolve testar sua sanidade emocional.
A gente desaprendeu a permanecer porque permanecer não dá like imediato. Não rende história bonita todo dia. Não tem aquele brilho instantâneo que faz o coração disparar e a dopamina fazer festa. Mas tem uma coisa que o instantâneo nunca vai ter: consistência. E consistência é silenciosa, quase invisível, mas é ela que sustenta tudo quando o encanto dá uma cochilada.
Eu olho pra esse mundo que troca tudo o tempo inteiro e penso que talvez o verdadeiro luxo hoje seja ficar. Ficar com consciência, ficar com vontade, ficar sabendo exatamente onde está pisando. Não é sobre insistir no que machuca, é sobre não fugir na primeira rachadura. Porque se você sai toda vez que algo quebra, você nunca descobre o que poderia ser reconstruído.
No fim das contas, substituir é rápido, mas construir é o que fica. E eu, sinceramente, ando preferindo o que fica. Mesmo que dê trabalho. Principalmente porque dá trabalho.
Agora me conta, você é do time que troca ou do time que constrói?
E aí você tá ali, inteira, presente, entregue, vivendo o momento como se fosse uma cena bonita daquelas que a gente gostaria de congelar… e do outro lado tem alguém que parece estar em outro continente emocional, talvez pensando na vida, talvez pensando em nada, talvez só… existindo. E pronto. Bastou isso. O cérebro já dispara: “não sou suficiente”, “ele não quer mais”, “virei paisagem”.
Aquela sensação de estar sendo beijada por alguém que não está ali de verdade… isso dá um vazio esquisito, como se você fosse um corpo presente numa cena onde o outro já saiu há muito tempo.
Relacionamento não é só presença física. É presença emocional. É estar ali de verdade, nem que seja imperfeito, nem que seja cansado, mas ali. Porque quando um tá inteiro e o outro tá ausente, nasce esse abismo silencioso que ninguém vê, mas quem sente… sente forte.
A gente quer ser vista, escolhida, desejada… mas esquece que o outro também tá passando por processos internos que a gente não acessa. Só que isso não anula o básico.
Porque beijo sem presença é quase um cumprimento educado… e você não é alguém pra ser cumprimentada, você é alguém pra ser sentida.
