Eu Vou mais eu Volto meu Amor
Eu me sinto tão exausta como se já tivesse vivido tudo que poderia viver, mas eu ainda tenho 19 anos.
O que custa tirar foto de mim sem me zoar? Por conta dessas brincadeiras que eu já não gosto da minha aparência.
O que custa elogiar as roupas que uso? Já doei tanta roupa que você disse que eu estava feia.
3 anos juntos e parece que aos poucos você está é me machucando.
Metamorfose
Era eu, agora quem sou?
O que sou é quem eu era?
Carrinhos, ciranda o “era”
adiante, um velho adaptado por consequência.
Menino se foi...
Rugas e falta de memória “predominam”
Quem escapa?
Há um rio que nos leva...
Às mentes, outrora ingênuas
o mundo deu seu “trato”
Do casulo da vida
(metamorfose é certa).
OLIVEIRA, Marcos de. Metamorfose da vida. In: OLIVEIRA, Marcos de.
Tristeza por Borboletas. Porto Alegre: Alcance, 2012. p. 11.
Sou uma criança que envelheceu
Eu sempre quis meus brinquedos
mesmo que velhos e quebrados fossem.
Sou apenas uma criança
num corpo exausto de velho
que não resiste a uma boa gargalhada
sou assim mesmo...
(uma criança cheia de sonhos)
OLIVEIRA, Marcos de. Sou uma criança que envelheceu. In: OLIVEIRA,
Marcos de. Tristeza por Borboletas. Porto Alegre: Alcance, 2012. p. 16.
Querido defunto
No velório, nunca pode faltar
o que grita num desespero só...
Dizendo, eu quero ir junto... Deus, me leva...
Talvez, o único momento
em que o pobre do defunto
mais se sentiu importante e amado
em toda sua vida.
OLIVEIRA, Marcos de.Querido defunto.In: OLIVEIRA, Marcos de. Tristeza
por Borboletas. Porto Alegre: Alcance, 2012. p. 29.
Antes, eu desperdiçava palavras sobre o que julgava saber; agora aprendo, em silêncio, o que ainda desconheço.
Em um momento
Em um momento em eu deixei de ser amado
Em um momento eu me tornei o filho bastardo
Em um momento eu larguei o fumo barato
Em um momento eu me tornei odiado
Em um momento transcendi a outro lado
Em um momento só era mais um chapado
Em um momento já não havia mais como o meu sonho ser realizado
Em um momento o fogo havia se apagado
Em um momento o tempo já era passado
Em um momento a consciência não sabia o que tinha se tornado
E, em um último momento, a vida havia se calado
Era só uma voz
ecoando na minha mente,
dizendo mil coisas
que eu não queria ouvir.
Quando olhei,
a figura não tinha rosto,
nem boca,
apenas o silêncio rindo de mim.
Que sonho estranho,
que pesadelo besta.
E antes que eu despertasse,
alguém sussurrou:
“Vai mesmo ferir
quem sempre esteve por você?
Vai despedaçar sua própria alma
só por medo do que virá?
Deixe-se viver,
deixe-se sentir,
pare de temer
o pior que possa existir.”
Eu nem preciso pegar o buquê para saber que um diamante bem grande está à caminho.
Eu prefiro que me vejam sem rótulos, que não olhem para mim e tirem uma conclusão. E há vários rótulos que inventaram a meu respeito. Mas eu não me guio por rótulos que criam sobre ninguém. Eu presto atenção na pessoa. O rótulo é chato, o rótulo já determina por baixo.
Você em Mim
Eu tento fugir do seu nome,
mas ele sussurra no vento,
desliza nas frestas do tempo
e se deita no meu pensamento.
Acordo com você nos meus olhos,
dorme comigo seu cheiro no ar,
meus dias se tornam delírios
viver é só forma de esperar.
Você invade cada silêncio,
cada gesto distraído,
como se amar fosse vício,
e você... o meu mais lindo perigo.
E tento, juro que tento,
calar esse amor sem freio.
Mas seu rosto me vem como brisa,
e sua ausência... me corta no meio.
Não sei onde você termina,
nem onde começa o que sou.
Só sei que amar você
é um incêndio que não queimou
mas acendeu
e nunca mais apagou.
"Me afasto quando estou triste e me aproximo quando estou feliz. Se ao menos, uma única vez, eu tentasse permanecer por perto na tristeza, talvez descobrisse quem realmente está comigo em todos os momentos."
Eu sinto uma profunda dor silenciosa...
Gosto do som da música, do percurso
da minha casa até o trabalho;
estou sempre ouvindo música.
Em casa e no trabalho, ouço o barulho
dos carros, dos comboios e de toda a gente.
Chego em casa, ligo a televisão e ouço o noticiário:
outra vítima do silêncio se atirou
nos ruidosos trilhos do trem.
No trabalho, ouço o rádio, que toca uma música ridícula, e
minh'alma sofrida dança desolada.
Gosto do som da chuva, lágrimas do céu;
até os homens choram, silenciosamente.
E o choro da terra é abafado
pelos nossos gritos ambiciosos;
ouço o barulho das fábricas, corro para o campo,
e a chuva, tempestuosamente,
em seu suave cair, encharca meu coração ressecado.
Gosto do canto dos pássaros;
da minha cama me levanto,
e nela me deito, ouvindo os tordos ao amanhecer
e os urutaus ao anoitecer que, calmamente,
levam distante meu espírito atormentado.
Gosto de deitar-me e dormir
com o barulho do ventilador;
porque gosto de barulho,
assim silencio os gritos sussurrados
em minha cabeça. E eu, que tenho sido tão quieto,
se os ouço e me falam, descanso resignado.
Eu acredito em Deus, mas me pergunto se Ele crê em mim,
assim como cremos na Sua chuva, e no seu Sol.
O que é real? As paredes sólidas e frias de concreto,
concreto, a realidade concreta. Ou a memória fugaz
de um abraço quente e terno, terno, visto o terno,
chego ao trabalho, olho-me no espelho, e não vejo nada.
Cego, vejo além do espelho e enxergo através da realidade sensível,
sensível, atravesso as aparências em busca de algo que transcenda o tangível.
Mas então o espelho despedaça-se diante dos meus olhos,
como coisa real, um mosaico de sentimentos e lembranças,
desfaz-se e reconstrói-se a cada instante. Cada caco reflete uma versão minha,
mas, entre tantos, quem realmente sou eu?
Há tantos de mim que não podem tantos estarem certos, e entre tantos, perdi-me.
"Quando alguém diz “marcha no progresso”, eu só consigo pensar: que progresso? Porque, honestamente, na tal frase “ordem e progresso”, não vejo nem ordem, muito menos progresso acontecendo por aqui. "
