Eu te Amo do Amanhecer ao Anoitecer
A fé não resolve tudo, mas resolve o que mais importa, a guerra dentro de mim, sem ela eu já teria desabado, com ela eu renasço.
Eu me reconstruí tantas vezes que já sei montar meus próprios escombros, sou especialista em renascimentos, e isso me dá orgulho, viver é arte contínua.
A fé é ponte que atravesso mesmo quando não vejo o outro lado, eu caminho por instinto, por confiança, e sempre encontro chão.
O amor é casa, e casa precisa de estrutura, eu só entro onde há pilares fortes, teto firme, e portas sinceras.
Não espero mais que a vida seja leve, eu apenas escolho ser forte, leveza é consequência, força é decisão, e eu decidi.
O amor me ensinou que reciprocidade é mais rara que paixão, e por isso vale tanto, eu só fico onde sou correspondido, onde meu coração tem lugar.
O passado bate à porta às vezes, mas hoje eu só abro se for para aprender, memórias não me prendem mais, elas me guiam, com cuidado, mas guiam.
Vivemos acorrentados ao que já sabemos. O dia em que você disser "Eu sei de tudo" é o dia em que você parou de viver, começou a estagnar.
Os outros enxergam a superfície, só eu conheço o terremoto interno. E é no tremor constante que descubro minha real resistência. Pois quem treme, vive. E quem vive, formula sentido até no abismo.
Eu me sento na penumbra fria de um quarto que já foi lar, observando as sombras se alongarem e consumirem cada canto da esperança, porque as pontes que tentei construir para fora, feitas de sussurros sinceros, foram engolidas pelo oceano de indiferença que cerca o mundo. Neste declínio da sociedade moderna, onde a frieza se tornou a moeda mais forte, tudo o que resta são as minhas próprias preces, silenciosas e sem destinatário, enquanto o eco da minha voz não encontra outra parede senão a minha própria pele.
Alguns chamam de trauma, eu chamo de origem. É do caos que brotou meu senso de direção. Do sofrimento veio a lucidez, da rejeição veio a fome de existir. E da dor, uma estranha forma de fé.
Eu caminhei sozinho por ruas estreitas, sentindo o frio e a umidade sob o halo da lâmpada, buscando fugir dos sonhos inquietos
Aos tolos, eu gritei que não sabem que o silêncio cresce e se espalha de forma destrutiva, como se fosse um câncer social.
Quando a dor parece ocupar toda a sala, eu falo com ela como a um parente. Pergunto seu nome, ofereço café, faço perguntas óbvias sobre seu humor. Às vezes ela responde com socos, outras, aceita sentar e dividir o jornal. Descubro que humanizar o sofrimento é um modo de domesticar o desespero.
A noite cultiva jardins de pequenos remorsos. Cada um deles é uma flor que não se abre. Eu passo os dedos e sinto pó de saudade. Há um perfume que lembra promessas quebradas. E continuo a regar o que não floresce apenas por costume.
A esperança, às vezes, é um fósforo mal aceso. Basta um sopro e ela some, mas volta a arder. Eu coleciono fósforos na caixa do costume. Quando a noite aperta, acendo como quem pede socorro. E a chama pequena faz todo o caminho parecer possível outra vez.
Às vezes me parece que nasci com um relógio adiantado. Eu corro para alcançar momentos
que já se foram. O que me resta é aprender a
dançar com o tempo errado. Há ritmo mesmo
na descompassada respiração. E a dança, por
mais torta, me mantém em pé.
