Eu sou assim Completamente Indefinida
Eu não perdi a fé.
Eu perdi a paciência com sistemas que exigem que eu me diminua para existir.
Durante muito tempo achei que meu conflito era espiritual. Depois entendi que era ético. E, mais tarde, estrutural. Meu problema nunca foi Jesus — foi o que fizeram dele.
Eu não consigo aceitar um cristianismo que transforma sofrimento em virtude, culpa em pedagogia e obediência em salvação. Não consigo entrar numa igreja e ver um corpo torturado pendurado na cruz como se aquilo fosse a imagem máxima do amor. Já sofri o suficiente. Não preciso venerar dor para aprender nada sobre a vida.
Vejo Jesus como um homem ético, valoroso, radical na sua forma de existir. Mas não sei — e talvez nunca saibamos — quem ele foi de fato. O que temos são textos escritos décadas depois, atravessados por interesses, disputas e necessidades teológicas. A Bíblia não é mentira; é parcial. E toda leitura honesta começa reconhecendo isso.
Questiono os milagres, a ressurreição, a ideia de “filho único de Deus”. Se todos não somos filhos, então a ética já nasce hierárquica. E eu desconfio profundamente de hierarquias — sobretudo das que se dizem sagradas.
A lógica do sacrifício me repugna. A ideia de que alguém precisava morrer para redimir outros normaliza a violência e santifica o sofrimento. Quando sofrer vira caminho espiritual, alguém sempre lucra com a dor alheia. Historicamente, isso custou vidas demais: santos, hereges, mulheres, povos inteiros queimados em nome de uma verdade absoluta.
Se o cristianismo não tivesse virado instituição, talvez menos gente tivesse morrido. O problema não foi a fé — foi a certeza organizada, a moral transformada em poder, a ética convertida em doutrina obrigatória. Quando Paulo transforma um modo de vida em sistema universal, nasce também a infraestrutura do controle.
Eu vivi isso de perto. Participei de um grupo espiritual hierárquico, cheio de regras morais e títulos vazios. Vi pessoas competentes serem diminuídas enquanto figuras no topo eram blindadas. Vi pequenos comportamentos virarem pecado enquanto desvios financeiros eram espiritualizados. Vi exploração financeira travestida de ritual. E quando eu consegui nomear isso — exploração — acabou. Não dá para desver.
Aprendi que, em sistemas assim, o valor não vem do que você é, mas do quanto você se submete. Não se mede ética; mede-se adesão. E quando o sagrado começa a exigir dinheiro, silêncio e obediência como prova de elevação, ele já virou negócio.
Também não suporto o cristianismo do grito, do espetáculo emocional, do testemunho que transforma Deus em corretor imobiliário. “Rezei e ganhei um carro”, “orei e recebi uma casa”. Esse Deus é milionário — e seletivo. Para uns, bens. Para outros, silêncio. Para muitos, culpa.
Minha ética não suporta isso. Não acredito num Deus que recompensa privilégio e chama exclusão de mistério. Não acredito em perdão obrigatório que protege canalhas e regula quem já foi ferido demais. Perdão sem responsabilização não é virtude; é licença.
Hoje eu sei: pensar assim tem custo. Perdi pertencimentos. Fiquei fora. Virei a pessoa que observa em vez de ajoelhar. Mas não perdi a mim mesma. Aprendi a impor limites, a dizer “isso não diz nada para mim”, a não desaparecer para manter harmonia.
Se isso me coloca fora do cristianismo tradicional, que seja. Prefiro uma ética sem joelho no chão a uma fé que exige autoapagamento. Prefiro não saber certezas confortáveis a aceitar mentiras que me adoecem.
Não escrevo para convencer.
Escrevo para não me trair.
Se existe alguma espiritualidade possível para mim, ela não passa pela sacralização da dor, nem pela hierarquia, nem pelo medo. Passa pela dignidade. E isso, eu não negocio.
Suave Caminho
Juntos no mesmo caminho,
talvez seguindo os mesmos passos.
Eu, em teus lindos braços,
trêmulo e amparado,
já não sentirei o meu cansaço,
e tu, comigo,
também não sentirás o teu.
Trazido pelos desígnios supremos,
teu amor chegou a mim
e me trouxe placidez pela vida.
Irei calcando as mágoas,
afastando os espinhos,
como quem descobre
que escapar desta vida
pode ser
o mais suave de todos os caminhos.
Parece que tudo o que eu disse parecia não ter importância, por isso rasguei aquela carta. Eu prefiro acreditar que não deu mínima para o que estava escrito lá.
Eu chorei diversas vezes por tudo ter acabado. Tudo o que vivemos foi de verdade. Nossa história permanece, não foi apagada. Precisei de um tempo para compreender tudo o que aconteceu. Você foi minha melhor amiga e eu sempre amarei você.
Olá, querido Deus, saudades! Eu sei que estou distante e não tenho cumprido meus propósitos. Nunca mais te escrevi, mas algo me afasta do meu caminho. Às vezes penso que não faz tanto sentido estar aqui, mas sei que tudo tem um motivo. Às vezes sinto saudades de mim e às vezes sinto saudades de você.
25/10/2025
Hoje eu lembrei de você enquanto me maquiava.
Não por saudade anunciada,
mas por um gesto pequeno,
desses que moram no cotidiano e doem depois.
O delineado seguia firme,
parava no meio do olho,
como sempre parou.
E foi aí que você apareceu —
na memória, não no espelho.
Lembrei daquele dia em que você percebeu
o detalhe que quase ninguém nota.
Metade do traço,
metade do olhar,
inteiro na atenção.
Fiquei encantada não pelo elogio,
mas pela forma como você me via.
Como quem enxerga
o que não grita,
o que não pede,
o que só existe.
É estranho como o tempo faz isso.
Meses passam,
o nome silencia,
o sentimento dorme.
Mas basta um traço torto,
uma manhã qualquer,
e o passado volta sem pedir licença.
Você não voltou.
Foi só a lembrança.
Mas ela ficou ali,
sentada no canto do meu reflexo,
me olhando terminar aquilo
que nunca chegou ao fim.
Talvez algumas pessoas
não foram feitas pra ficar.
Foram feitas pra aparecer de repente,
num espelho,
num detalhe,
numa memória que insiste
em não desaparecer.
Não fique dizendo 'eu não consigo', seu cérebro lembrará disso sempre que tentar fazer alguma coisa.
Tem muitas coisas que eu gostaria de dizer porém respeito a forma de vida que cada indivíduo optou escolher...
"Eu percebi que a minha infância não foi a infância que eu queria, mas a infância que eu precisava, para aprender as lições da vida."
O Criador deu-nos a oportunidade de reparar o dano. Eu estou fazendo a minha parte, e para o bem de todos nós, espero que você faça o mesmo.
Coisas de Deus, espiritualidade….tantas coisas que ainda não sei dizer, mas uma coisa é certa eu e minha alma estamos felizes a caminho de casa.
Ainda existe em mim, uma menina pequenina e desarmada de riso fácil.
Mas eu para proteger essa menina, arranjei outra mulher corajosa, fria, combativa, desconfiada, que sabe que as coisas se conquistam palmo a palmo, que não acredita que, nos outros possa haver algo de gratuito e despojado. Uma mulher que cresceu, afirmou-se e impôs-se porque era inteligente.
Como todos os lutadores quero tudo simples, claro e prático, já sei o que é a verdade e o erro...mas no meio de tudo isso, ainda gosto de poesia, acredito em promessas e no amor.
Eu escolhi os caminhos mais difíceis, eles me levaram mais longe. O mais longe foi chegar ao profundo da minha alma e senti-la!
“eu te esperei.
tanto, que o tempo cansou de mim.
tanto, que você se cansou de mim.
tanto, que já não distingo mais o motivo pelo qual esperei;
o “esperei” nem existe —
o tempo falhou,
assim como eu falhei em te esperar.
o tempo errou…
o tempo se cansou de mim…
nem o tempo foi capaz de me corrigir.
eu te espero.
tanto, que percebi meu erro.
tanto, que o pretérito virou presente.
tanto, que pela primeira vez,
eu estava certa:
você realmente se cansou de mim.”
Eu tenho os olhos de ver a vida nascer em cada manhã com cheiro de bogari e casa limpa,
As vezes é preciso pisar firme nas crueldade dos outros, de todos seus sons crueis. Mas definitivamente, é imperdoável não perdoar.
As vezes, eu preciso apenas dançar uma música como a Dama de vermelho, rasgar o rascunho da letra e escrever outro verso. Eu escrevi.
E há quem diga que o que escrevo não tem nada haver comigo. Lina Veira
Lina Veira
Poesias minhas
