Eu Sonho o que eu quero Pedro Bandeira
Batatinha quando nasce esparra a rama pelo chão, se eu não gosto de berinjela, quem roubou minha bicicleta?
Eu não tenho paciência com o adolescente niilista, eles gostam de dizer que o "amor não existe, são tudo reações químicas na sua cabeça."
Sim, porque essa frase não é o resultado de reações químicas na sua cabeça. A sua consciência não é resultado de reações químicas na sua cabeça. Só o amor que é.
Imagina se a gente usasse o mesmo atomismo pra dizer que outras coisas não existem:
- O programa de TV não existe, são apenas pequenos pixels mudando de cor na sua tela.
- O Windows não existe, são apenas pontos com ou sem corrente em uma placa de silício.
- O frio não existe, é apenas uma diminuição da vibração molecular.
- As cores não existem, são apenas algumas frequências eletromagnéticas sendo interpretadas pelo seu cérebro.
O fato de um sistema complexo surgir de interações simples, não significa que o sistema complexo não existe. Não é porque cada pessoa está dirigindo um carro que não existe trânsito em São Paulo. Eu sei que vocês adolescentes niilistas têm medo dos próprios sentimentos.
Em busca da virtude, o bem-estar de todos em mente,
Em meio às circunstâncias mais difíceis, eu persisti ardente,
Dei tudo de mim, sem hesitar, até o fim derradeiro,
E nem mesmo deus poderá me julgar.
Sim, eu odeio o seu deus, do mesmo modo que qualquer pessoa minimamente lúcida odeia a maldade. Se o “deus” que você defende é umpersonagem sádico, genocida, narcisista, ciumento e carente de adoração, então odiá-lo não é blasfêmia, é simples higiene moral e um raro momento de racionalidade.
Brincadeira da Árvore
Certo dia, um menino perguntou-me,
Se eu sabia brincar de árvore.
E começou explicando-me:
- Primeiro a gente pinta nos galhos,
os nomes das pessoas que gosta.
Depois, escreve nas folhas palavras,
Como ternura, abraço, encantamento.
Também acrescentou que pode-se deixar água,
De cor amarela rio para que a árvore se descreva,
Mas nenhuma árvore é desigual a outra,
e todas sabem falar com a terra.
Contei para ele que eu brincava de estrela viva.
Era assim: Minha mãe desenhou uma estrela,
E colocou numa caixa alaranjada de madeira.
Ensinou-me que deveria toda noite,
Abanar com as mãos para que o brilho,
Não se perdesse no vir a ser do tempo.
Sem indagar-lhe qual era a língua das árvores,
Ele visivelmente empolgado me relatou:
- Quando eu crescer vou ser astrônomo,
Ou pirata do bem.
Isso para trabalhar.
Para viver, quero aprender a falar com as borboletas,
Dar um vagalume de presente para minha namorada,
Que ainda não sabe de nenhuma das duas coisas.
Também vou descobrir como se faz um poema.
Você pode me emprestar sua estrela,
Para eu colocar na minha árvore?
Carlos Daniel Dojja
In Poemas para Crianças Crescidas
Poema Lirismo
Quando eu era criança,
as plantas me chamavam.
Achavam graça.
Coisa de menino, sem ter muito o que fazer.
Quando eu era jovem,
afirmei que as pedras não acordavam,
porque não sabiam da noite sonhada.
Ficaram preocupados.
Para alguns, indício de alguém transtornado.
Quando me afirmaram, és um homem,
eu contei que te vi, se florescendo de liláceas.
Por fim, sanaram-se as dúvidas.
Decretaram-me ter visão refratária, com sintomas de lirismo.
Só parei de julgar-me dissociado,
quando me disseste que havia noites com sol,
e que o remo acenava para o mar, quando não partia.
Então, assim ficamos, em nós apreendendo tochas,
fisgando lumiares, falando com os olhares.
E quando tudo escurecia se acendendo de um no outro.
Carlos Daniel Dojja
Eu gosto dessa parecença almejada de alma.
As vezes tento ficar parecido,
com o que deseja meu ser.
TUA LUZ AUSÊNCIA
Quando tua luz,
sobre meu peito,
for ausência.
Eu semearei teu olhar,
em minhas mãos:
Assim ficarás em mim,
como o princípio,
do que só sei,
quando em mim, te revelo.
" A água que almeja ser rio necessita adentrar-se.
Era assim que nesse tempo,
Eu me acontecia de querer-te.
Eu me morria de não estar em ti.
Eu me vivia, quando não me tocava, tua ausência".
SEMENTE
Eu bebo horizontes,
Para despertar manhãs,
Ávidas de criaturas.
Não me basto e insisto,
Ver-me em outro declarado.
Quero raiz para transmudar a flor.
"...Era assim que refundava-me em teu tempo.
Eu me acontecia de querer-te.
Eu me morria de não estar em ti.
Eu me vivia quando não me tocava tua ausência..."
"... Eu ficarei orgulhoso de receber a explicação,
já que me vivo a Quintanar de amar,
o amor em sua extensão.
Até resgatei um modesto conceito,
desses que se declara numa ciranda de amigos,
- O amor, é tão somente, o infindo sopro, se fazendo vida..."
Extrato Carta a Mia Couto
Nada e mergulha
porque nada é infinito.
O nada nem existe.
De nada eu sei, por isso escrevo,
se eu soubesse de tudo não escreveria de nada,
escreveria obrigado, mas não sou obrigado.
Pela gentileza falo de nada e
desde já agradeço por nada,
quem leu do nada e nada entendeu.
