Eu Deixo a Vida como Deixo o Tedio
Há um lugar onde guardo meus silêncios mais puros. É como um armário de madeira que não range. Quando tenho medo, entro ali e fecho a porta. O barulho do mundo fica distante como um inverno. E eu, reclinado, ouço uma paz que não pede provas.
Amar é, por vezes, aceitar o outro como inverno. Sabemos que virá friagem, talvez geada, talvez neve. Mas também há a claridade cortante dos dias limpos. Aceitar é vestir-se de fibra para enfrentar o frio. E ainda assim, entregar-se ao calor raro é risco necessário.
As promessas antigas voltam como roupas apertadas. Tentam servir um corpo que não é mais o mesmo. Algumas chegam a machucar, outras, aquecem ainda. Aprendi a escolher quais vestir e quando renunciar. Despir-se também é forma de honestidade.
Há uma beleza discreta nas despedidas sem motivo. Elas são como portais que não explicam viagem. Saímos de algo e carregamos somente um pedaço. Esse pedaço nos protege do vento intenso. E com ele seguimos, aprendendo a ser pequeno e inteiro.
O perdão que me salva é lento e sem lampejos. Ele se instala como casa simples, tijolo sobre tijolo. Não é espetáculo, nem notícia de jornal. É a rotina de admitir e soltar ao mesmo tempo. E aí a alma respira sem urgências.
Meus sonhos se enrolam como fios de lã mal tricotados. Às vezes puxo um fio e desfaz tudo que fiz. Outras, consigo transformar em manta para me cobrir. A habilidade é saber quando parar de puxar. E aprender a tricotar com as mãos que tenho.
Há um tipo de alegria que não faz barulho. Ela surge como luz que atravessa fresta de cortina. Não precisa ser anunciada nem fotografada. Sente-se no corpo e age como remédio discreto. E durará além do instante.
O amor entra em silêncio, como uma soprano antes do primeiro agudo, e de repente tudo em nós aprende a doer bonito, como se o sofrimento fosse
apenas outra forma de cantar.
Existem amores que não querem durar, apenas incendiar a alma, como uma ária final que explode antes do fim.
Há amizades que chegam como salva-vidas improvisado. Não seguram a embarcação, mas dão tempo. Com elas aprendi a pedir socorro sem vergonha. O orgulho, às vezes, é coisa que afunda. E, por sorte, há mãos que nos puxam de volta.
O desapego me veio aos poucos, como quem descasca fruta. No começo dói, depois suaviza o gosto amargo. Libertar é reconhecer que não trazemos nada do mundo. Só algumas estrias e memórias para contar. E isso basta para sermos ricos de experiência.
O perdão que me proponho é lento, como cerâmica. Modela-se com mãos que não esmorecem. Algumas peças racham no forno e perdem a forma. Outras saem perfeitas, surpreendendo até o artesão. E percebo que imperfeição também é beleza.
A saudade não chega devagar,
ela atravessa a porta como quem tem direito. Não traz esperança, não oferece consolo, só deixa o impacto seco de quem já perdeu. É memória sem afeto, é amor sobrevivendo em forma de dor.
Hoje, meu espírito é a Sonata nº 14 de Beethoven, primeiro movimento, não como música, mas como um luto que respira, um luto que anda comigo pelos corredores escuros da alma, onde sombras sem rosto vagam em silêncio, arrastando correntes invisíveis feitas de memórias que doem, de nomes que já não ouso pronunciar, de sonhos que apodreceram antes mesmo de aprender a nascer, e cada nota que ecoa dentro de mim não consola, apenas confirma que ainda estou aqui, inteiro por fora, em ruínas por dentro, como uma catedral abandonada onde o vento reza no lugar de Deus, e essas sombras passam por mim como se me reconhecessem, como se soubessem que pertenço ao mesmo lugar que elas, um território onde a esperança é uma palavra estrangeira e a saudade é idioma oficial, e eu caminho nesse adágio eterno com os pés feridos, carregando um coração pesado demais para ser chamado de vivo, leve demais para ser chamado de morto, apenas existindo, apenas suportando, enquanto o mundo lá fora insiste em girar como se nada estivesse quebrado, e aqui dentro tudo é escombro, tudo é noite, tudo é um piano tocado por mãos que sangram.
Sou o inventário de versões minhas que não sobreviveram ao inverno, carrego os restos como quem guarda relíquias de um incêndio.
Nasci com um cansaço atávico, como se minha alma carregasse o peso de séculos e a esperança estivesse permanentemente em débito.
Guardo um grito educado que pede licença para ecoar. Como ninguém responde, ele fez do meu peito sua morada definitiva.
Guardo um amor que perdeu o destinatário. Como não teve onde pousar, virou peso, virou verso e, por fim, virou parte de mim.
Não uso a dor como tema, uso como tinta. É a partir dela que desenho os contornos do que ainda resta de mim.
Há dias em que a existência se manifesta como dor física, cada respiração é um lembrete de que ainda estou na arena.
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