Enxerga mais longe a Gaivota que Voa mais Alto
Há noites em que minha mente se torna um labirinto sem saída. Penso, penso e, quanto mais mergulho, menos me encontro. Há partes de mim que parecem morar em um lugar inalcançável. Nem sempre consigo tocar o que sinto. E isso também é uma forma de dor.
Sobreviver me ensinou mais do que viver. Porque viver é leve quando tudo está em ordem. Mas sobreviver exige luz onde há escuro, fé onde já não sobra certeza, e coragem onde a alma já teria desistido.
Não temo mais a dor como antes. O que me assusta é o vazio que ela deixa. Esse lugar sem cor, sem eco, sem direção. Um espaço onde até a saudade parece distante. Como se eu tivesse me desligado de mim mesmo por um instante.
Eu já fui mais leve. Antes de compreender o peso das coisas. Antes de sentir tão profundamente o mundo. Antes de perceber que crescer também é perder partes de si. E nem sempre o que se perde volta a nascer.
Pensar por conta própria é a forma mais alta de coragem. Porque há menos perigo em obedecer, do que em despertar.
O sofrimento prolongado altera a arquitetura da alma. Depois de certas dores, nunca mais voltamos a sentir o mundo da mesma maneira.
Nem mesmo a mais primorosa combinação de palavras, nem a narrativa mais vasta e engenhosamente tecida, alcançaria os recantos mais profundos da minha mente. Nela repousam mistérios sem nome, como antigas fábulas esquecidas pelo tempo, fragmentos de sonhos que vagam entre a luz e a penumbra, e segredos que se recusam a revelar sua verdadeira forma. As palavras tentam alcançá-los, mas retornam como viajantes perdidos, incapazes de decifrar por completo os enigmas que habitam esse território invisível.
- Tiago Scheimann
A tristeza mais funda não faz alarde, ela se senta ao lado da alma e a convence de que o silêncio também é um idioma.
Existem dias em que o coração não quebra, apenas se torna mais nítido, e essa nitidez dói como luz em olhos cansados.
O homem se perde com mais facilidade quando tenta ser espelho para os outros e se esquece de ser casa para si.
Quanto mais contemplo a imensidão do universo, mais me assombra o fato de que Deus ainda encontre espaço para habitar um coração tão ferido quanto o meu.
Passei anos procurando um sentido para a minha dor.
Depois compreendi algo ainda mais triste:
Talvez o sentido nunca tenha existido.
Talvez sejamos apenas viajantes tentando convencer a nós mesmos de que a estrada leva a algum lugar, porque admitir o contrário seria pesado demais para suportar.
- Tiago Scheimann
O inferno mais eficiente nunca queimou corpos apenas convenceu almas de que elas nasceram tarde demais para encontrar sentido.
A dor mais difícil de suportar nunca foi aquela que nos destruiu, mas a que nos obrigou a continuar vivendo depois da destruição.
A maior vitória da dor não é fazer alguém chorar; é convencer alguém de que nunca mais vale a pena acreditar.
As feridas mais profundas nem sempre deixam marcas visíveis. Muitas vezes, elas silenciosamente roubam a confiança, enfraquecem a esperança e fazem o mundo parecer menor do que realmente é.
O eco mais difícil de silenciar é aquele produzido pelas palavras que nunca tivemos coragem de dizer.
A memória é o erro mais cruel da consciência. Se o esquecimento fosse completo, talvez a existência fosse apenas suportável. Mas a lucidez nos condena a conservar aquilo que mais desejávamos ver dissolvido. Cada lembrança regressa não para consolar, mas para demonstrar que nenhuma dor termina; ela apenas muda de profundidade.
O tempo nunca cura. O tempo apenas ensina a dor a permanecer em silêncio. Sob a aparência da serenidade, continuam respirando os rostos perdidos, as palavras irremediáveis, os instantes que morreram sem nunca aceitar o próprio fim. Carregamos um cemitério inteiro dentro do peito, e chamamos essa lenta decomposição de vida.
A saudade não homenageia o amor; ela denuncia o fracasso de tudo o que ousou desafiar o desaparecimento. Amar profundamente é assinar, sem perceber, um pacto com uma ausência futura. Quanto maior o amor, mais vasta será a ruína que ele deixará para trás.
Talvez seja por isso que a memória nunca nos abandone. Ela sabe que, quando a última lembrança desaparecer, também desaparecerá a última prova de que existimos para alguém. E essa possibilidade é ainda mais aterradora do que a própria morte.
No fim, não sobrevivemos às perdas. Apenas aprendemos a caminhar com elas como quem arrasta o próprio cadáver, esperando que o esquecimento chegue antes da última lembrança — embora, no fundo, saibamos que ele quase nunca chega.
- Tiago Scheimann
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