Encontro entre Amigos
A poesia mora nas frestas de silêncio entre duas frases. Ali se empilham sentidos que o discurso não alcança. Quem lê com pressa perde o sustento do verso. Por isso, aprendo a esperar onde a pontuação respira. E descubro que o mundo cabe melhor no recuo da palavra.
A dor me fez poeta, e a fé me fez inteiro, entre as duas encontrei equilíbrio, e nesse equilíbrio encontrei propósito, meu destino nasce da junção dos meus extremos.
O conflito não está no clima externo, mas na guerra interna entre o desejo de pertencer e a urgência de se proteger. Não se trata de superar a frieza do mundo, mas de derreter a geleira construída ao redor da própria essência para que o calor possa fluir.
A vida me ensinou a ser fogo e água, queimar o que me destrói, e acalmar o que me consome, entre extremos encontrei paz, e nessa paz reencontrei minha essência.
A vida é a dança entre o que a gente planeja e o que realmente acontece, e a sabedoria é aprender a conduzir no ritmo da realidade.
A vida é um pulso elétrico efêmero entre o nada que nos precedeu e o nada que virá, que o seu preenchimento não seja o volume, mas a densidade atômica de cada momento vivido, e que sua intensidade seja o único legado.
Estive entre ossos secos e almas já sem brilho, um cemitério de olhos que não mais ardia. Corvos pousavam nas minhas falhas, cravando olhares como pregos, aguardando o instante em que eu iria finalmente ceder. O vento cheirava a metal e pó, passos distantes soavam como facas nas paredes do peito. Como um carvalho retorcido pela tormenta, segurei o que restava de mim. Juntei raízes como dedos enegrecidos, afundei-os na terra estilhaçada e bebi, com avareza, o pingo de água que sobrava. A umidade tinha gosto de lembrança e sangue seco. Numa fenda da planície estéril, meu cárcere aberto ao sol, apareceu uma lâmina tão pequena que quase se escondia, uma promessa miúda, de luz, como se a aurora tivesse voltado com as unhas quebradas.
Cada fibra do meu corpo lutava contra o esquecimento, contra a areia que roçava os tendões e tentava sepultar a centelha final. A areia não era neutra: sibilava, entrava pelas gengivas, raspava a língua. Sobreviver não bastava. Havia que coagular a dor, transformá-la: o peso da solidão, o sussurro venenoso da desistência, tudo virou húmus amargo para uma vontade que recusava morrer.
O solo rachado não ofereceu descanso, ofereceu lições. Rachaduras cuspiam pó que cheirava a ossos e foi nelas que aprendi a perfurar, a furar a crosta do desespero com unhas encravadas. Busquei, com um fervor áspero, uma nascente que se escondia debaixo do olhar dos mortos, uma força profunda, mútua com a escuridão, que não se entrega ao alcance.
As sombras permaneceram comigo, não como inimigas, mas como mapas invertidos: eram faróis que apontavam para onde eu jamais devia olhar de novo. E então, o tronco que antes dobrava sob o sopro do mundo começou a endireitar, não por graça, mas por insistência, por teimosia sórdida. Mesmo naquele deserto que parecia ter consumido até a fé, a vida voltou, torta e obstinada, rasgando a casca do nada para cuspir, por um instante, seu próprio clarão, sujo, ferido, impossível de apagar.
A criança que fui sussurra por debaixo do meu terno gasto, mendiga atenção entre o ruído das rotinas. Ela tem dedos que contam as horas em marcas na pele, e olhos que sabem o preço secreto de cada dia cinzento.
Falar de amor virou ato de contrabando entre a dureza do mundo. Levo-o escondido no peito como quem leva pérolas em bolsos rasgados. Quando entrego, minhas mãos tremem, não por medo de perder, mas por saber que a dádiva pode curar lugares onde o sol não entrou.
O amor nasce simples como estrada de chão, cresce entre olhares contidos e promessas impossíveis, e sofre calado porque nem todo sentimento pode atravessar a cerca que separa o coração do destino.
Há um silêncio que não cala — entre o sopro do mundo e a carne da dúvida, é lá que o ser se inventa.
Entre o que foi e o que é
Eu tô com alguém bom, alguém que me faz bem.
Mas ainda carrego ecos de quem me feriu.
Não porque eu queira voltar,
mas porque certas lembranças não sabem ir embora.
Meu corpo já entende o novo toque,
mas minha alma, às vezes, ainda procura o antigo.
E isso me confunde — me parte.
Ele me fez mal, eu sei.
Mas há pedaços de mim presos nas memórias que ele deixou.
E o amor, mesmo quando dói,
tem um jeito cruel de se fazer presente.
Talvez um dia eu acorde e o passado não pese mais.
Talvez um dia o novo amor ocupe todo o espaço.
Mas, por enquanto,
vivo nesse meio-termo —
entre o que me destruiu
e o que tenta me reconstruir.
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Entre o que tenho e o que me falta
Tenho um amor que me acolhe,
amizades que me sustentam,
caminhos que me fazem crescer…
E mesmo assim, sinto um vazio.
Não de coisas, mas de momentos,
de sensações que ainda não vivi,
de um brilho que não se compra.
A vida é essa dança silenciosa:
entre a gratidão pelo que construí
e a curiosidade pelo que ainda me chama.
Entre aromas refinados
De impérios distantes, sedentos,
Perfumes árabes, densos,
Que prometem esquecimentos.
Mas nenhum deles alcança
O abismo dos teus momentos.
Eduarda, teu cheiro não passa,
Ele fica, invade, insiste,
É presença que domina
Mesmo quando não existe.
Perfume que marca a pele
E na memória persiste.
O cheiro mais cheiroso, amor,
Não vem de frasco ou ritual,
Vem do teu cangote quente
Quando o tempo fica desigual.
Ali o mundo silencia,
Ali eu deixo de ser racional.
Teu cangote é território
Onde a razão se rende nua,
Mistura de calma e perigo,
De fome que não recua.
Um cheiro que pede boca,
Um silêncio que continua.
Quando me aproximo lento
E respiro tua pele,
Meu corpo aprende verdades
Que a palavra não revele.
É desejo que não grita,
Mas que queima, fere e impele.
Eduarda, teu perfume
É chamado sem perdão,
É vontade que não pede,
Só toma o coração.
Cheiro de “fica mais um pouco”,
De “não solta minha mão”.
Entre tantos aromas caros
Que o mundo insiste em vender,
Teu cheiro é vício doce
Que eu não quero perder.
Não me deixa inteiro…
Mas me faz viver.
Migalhas
É lamentável estar envolvido nesse jogo entre esperança e frustração
Quem quer um relacionamento sério não deixa para depois não fica confuso e nem dá um tempo
Quem gosta de verdade não corre o risco.
Você pode até gostar mas não me quer é isso te faz perigosa porque nem me quer nem me deixa
Então me prende oferecendo migalhas amando o jeito que eu amo
Valorizando demais aquilo que recebe dando muito pouco daquilo que você tem e fazendo então valorizar saber que eu mesmo para você não tenho valor
Vivemos entre o bem e o mal;
Entre o céu e a terra,
Entre a vida e a morte...
Mas você é quem escolhe o lado que quer ficar.
Entre os detalhes da vida, nas palavras da verdade, as falhas e acertos foram extremamente importantes para saber trilhar o caminho.
