Ela

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Quando ela chegou, o amor que eu sentia ficou pequeno, um rascunho diante do que nasceu.

A solidão que me visita é de companheira e não de inimiga. Ela me aponta lugares onde precisei crescer. Fica tempo suficiente para me mostrar mapas íntimos. Quando se vai, deixa calmaria como quem arruma a casa. E eu sigo sabendo o caminho de volta.

Há um tipo de alegria que não faz barulho. Ela surge como luz que atravessa fresta de cortina. Não precisa ser anunciada nem fotografada. Sente-se no corpo e age como remédio discreto. E durará além do instante.

A noite é mestre em revelar a verdadeira face do desejo. Ela não julga, apenas mostra o que pulsa. Algumas verdades aparecem em roupas simples. E eu as recebo com humildade de aprendiz. Porque cada desejo é também mapa para a cura.

A paz que busco não tem vagar, é pedacinho em cada ato. Ela aparece quando lavo a louça sem pressa. Quando atendo uma ligação com atenção plena. Pequenos rituais que somados viram habitação. E a casa interior se mantém menos vulnerável.

A noite guarda segredos que o dia não entende. Ela tem diplomacia de quem aceita contradições. Sento-me à sua mesa e aceito seu cardápio. Alguns pratos são amargos, outros, surpreendentemente doces. E eu como tudo com fome de entender.

A saudade não chega devagar,
ela atravessa a porta como quem tem direito. Não traz esperança, não oferece consolo, só deixa o impacto seco de quem já perdeu. É memória sem afeto, é amor sobrevivendo em forma de dor.

A fé discreta que me guia não exige manchetes. Ela é lamparina no corredor escuro de madrugada. Quando tropeço, ela me ampara sem pergunta. Não se impõe, só existe como companhia fiel. E eu sigo, grato pela pequena luz.

A solidão que cura é diferente da que fere. Ela é companhia seletiva e não abandono cruel. Dar-se a ela é permitir ouvir a própria voz. E essa escuta traz respostas que o barulho não permite. Volto de lá mais inteiro, menos fragmentado.

A esperança madura não exige certezas absolutas. Ela cresce em terreno de perguntas bem feitas. Satisfeita com pouco, ela floresce mesmo na escassez. Cultivá-la é trabalho de jardinagem diária. E os frutos, quando vêm, têm sabor de testemunho.

Não busco a estética da frase bonita, mas a crueza da palavra honesta, mesmo que ela me deixe exposto e sem defesas.

Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.

Sou confidente da madrugada, ela é a única que aceita minhas versões sem filtros, meus colapsos e minhas confissões inconfessáveis.

Escrever é o meu método de hemorragia controlada: deixo sair a dor para que ela não me mate por dentro.

Minha esperança é uma sobrevivente teimosa, mesmo ferida e sem fôlego, ela insiste em se manifestar nos escombros.

Não escolhi a resiliência, ela foi a única saída em um cenário onde a fragilidade era punida com o esquecimento.

A esperança é uma visita inesperada, ela senta em silêncio, não promete nada, mas sua presença torna o ar menos pesado.

A dor é o único mestre que nunca mente, ela nos despe de todas as vaidades até que sobre apenas o osso da nossa fragilidade radical.

O mundo exige uma produtividade que minha dor desconhece, pois ela opera em um fuso horário onde o segundo é uma eternidade de esforço apenas para respirar. Sou um desertor dessa guerra pela felicidade compulsória, preferindo a paz de ser apenas um resto de esperança.

Com muita perseverança o fracasso é uma possibilidade, mas, sem ela, é uma certeza.