Dedicatória para a Mãe
Conheça pessoas inteligentes, educadas e humildes para aprender como se relacionar
com outras ainda mais sábias.
Não tente convencer o universo a te dar o que você quer; aprenda a entender como o mundo funciona e ajuste seus passos até que o resultado seja inevitável
Quem aprende a viver em paz na própria companhia descobre que a solidão nem sempre é ausência de amor. Às vezes, ela é apenas o tempo necessário para que a alma deixe de procurar no outro aquilo que precisa encontrar em si mesma.
-Jouberth Toffoli
Depois de uma vida observando gente, aprende-se que quase ninguém sofre daquilo que diz sofrer.
O sujeito chega reclamando da esposa, da política, do chefe, do aluguel ou da bebida quente. Mas isso é apenas o embrulho. O conteúdo é outro.
O que os corrói é a incapacidade de tocar e ser tocado.
Vivem como se enxergassem o mundo em preto e branco. Não porque lhes faltem olhos, mas porque perderam as cores antes mesmo de perceber que elas existiam. Tudo precisa ser amor ou ódio. Vitória ou fracasso. Aprovação ou desprezo. Já não reconhecem os meios-tons, justamente onde a vida costuma acontecer.
É um estranho tipo de daltonismo.
Não dos olhos.
Da alma.
Vejo isso todos os dias. Homens transformando ironia em escudo. Mulheres aprendendo a sorrir para esconder o próprio silêncio. Casais inteiros conversando sobre contas, filhos e séries de televisão, enquanto duas solidões dividem a mesma cama sem jamais se encontrarem.
Ninguém diz: "Tenho medo de ser visto."
Inventam palavras mais elegantes.
Dizem que são independentes.
Que não nasceram para relacionamentos.
Que preferem a própria companhia.
Mentem com uma convicção admirável.
A verdade é mais feia.
Passaram tanto tempo reforçando a própria pele que ela deixou de separar o corpo do mundo para se tornar uma cela. Cada decepção acrescentou uma camada. Cada abandono endureceu outra parte. Cada traição fez acreditar que sentir menos era viver melhor.
Não era.
Era apenas sobreviver.
O curioso é que todos desejam exatamente a mesma coisa: que alguém atravesse esse couro endurecido sem destruir o que ainda resta dentro. Querem ser encontrados, mas tornam impossível qualquer aproximação. Quando alguém se aproxima demais, recuam. Quando vai embora, confirmam a velha teoria de que ninguém fica.
Chamam isso de destino.
Eu chamo de medo.
E medo, quando envelhece, ganha aparência de personalidade.
É por isso que tantos caminham pelas ruas como fantasmas bem vestidos. Trabalham, sorriem, publicam fotografias impecáveis, colecionam contatos e permanecem inacessíveis. Quanto mais conectados parecem, mais isolados se tornam. Descobriram todas as maneiras de falar, menos a única que importa: aquela que deixa a carne exposta.
Talvez seja esse o grande fracasso da nossa época.
Não a falta de amor.
A falta de coragem para suportar o amor quando ele exige que a pele deixe de ser armadura e volte a ser apenas pele.
Ainda assim, de vez em quando, acontece um milagre discreto.
Alguém baixa a guarda por alguns segundos.
Uma conversa atravessa a superfície.
Um olhar permanece tempo suficiente.
Uma confissão escapa antes que o orgulho consiga engoli-la.
São instantes pequenos.
Quase invisíveis.
Mas é neles que as cores retornam.
E, por um breve momento, o mundo deixa de ser uma fotografia em preto e branco para lembrar que nunca foi a realidade que perdeu as cores.
Foram as pessoas que desaprenderam a enxergá-las.
O silêncio nunca foi vazio, ele apenas aprendeu a esconder tudo aquilo que as palavras seriam pequenas demais para carregar.
Aprendi que nem toda ausência é perda. Algumas chegam para devolver o que o excesso de permanência havia levado: a paz.
O tempo não leva apenas pessoas; ele também devolve a nós mesmos. E quando isso acontece, entendemos que certas despedidas não são o fim de uma história, mas o início de um reencontro com a própria essência.
Desde então, deixei de temer os finais. Passei a temer apenas permanecer onde a alma já havia partido.
O amar
Quem não declara
não sente, ou se sente
aprende a dizer,
revela o pulsar.
Não se trancafia
o sentimento
no silêncio
do barulho
do coração.
Declama,
diz,
grita dentro da gente!
Márcia A. Prazeres
Meu cachorro nunca precisou pedir carinho. Foi com ele que aprendi que quem ama de verdade demonstra antes mesmo que o outro precise pedir.
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