Criança Doce
Um doce de vó
Minha vó morava perto do campo de futebol. Era comum, depois das brincadeiras no campo — que ficava onde hoje existe o colégio —, passarmos pela casa dela.
Certa vez, eu e um amigo encontramos uma velha bola de capotão. Estava furada, com o couro bastante desgastado, quase no fim da vida. Mas, para dois meninos, uma bola nunca estava velha demais. Demoramos um tempão para consertá-la e deixá-la em condições de voltar aos gramados.
Ou, pelo menos, ao quintal da minha vó.
A casa dela tinha um quintal bem grande, perfeito para nossas partidas. Marcamos o gol com as camisetas no chão e começamos nosso campeonato particular de “chute em gol”: cada um batia três vezes e depois trocávamos o batedor.
A brincadeira ia muito bem.
Até minha vó aparecer.
Veio caminhando em direção ao nosso campinho com uma faca na mão. Antes que pudéssemos entender o que estava acontecendo, pegou a pobre bola e, sem a menor cerimônia, deu umas dez facadas nela.
Dez!
E, como se a bola fosse a única culpada pela desordem, ainda sobraram para mim alguns cloques na cabeça, dados com aqueles dedos duros de vó.
Acabou-se a festa.
A bola, que já tinha sobrevivido sabe-se lá a quantas peladas antes de chegar às nossas mãos, dessa vez parecia definitivamente morta.
Mas não estava.
Dias depois, encontrei o cadáver debaixo do assoalho da casa da minha vó.
Resgatei aquele pobre pedaço de couro e fui atrás do meu amigo, o companheiro das cobranças de falta. Examinamos a situação e resolvemos ressuscitá-la. Só que, depois das facadas da minha vó, não havia remendo que desse jeito.
Então tivemos uma ideia.
Uma péssima ideia, naturalmente.
Fizemos um enxerto e enchemos a bola com areia.
Ela ficou pesada feito uma pedra.
Foi aí que nasceu uma nova brincadeira.
Colocávamos nossa “bola” num ponto estratégico da rua, onde costumavam aparecer outros meninos, e fingíamos estar batendo faltas. Bastava esperar.
Logo surgia algum candidato querendo mostrar suas habilidades.
— Deixa eu bater uma?
Era tudo o que queríamos.
O sujeito tomava distância, ajeitava o corpo, corria cheio de confiança e...
PÁ!
Chutava aquela bola cheia de areia.
Nós caíamos na gargalhada. Os outros meninos que já conheciam a brincadeira também. E assim a velha bola de capotão, que não servia mais para jogar futebol, encontrou uma segunda profissão: castigar os pés dos desavisados.
Até que, certo dia, apareceu um menino bem maior do que nós.
Ele também quis mostrar suas habilidades.
Tomou distância, correu e soltou o pé.
Quase torceu o tornozelo.
Dessa vez, ninguém teve muito tempo para rir.
Furioso, ele distribuiu uns tapas nos menores — eu e meu amigo incluídos — e, para completar o castigo, levou embora nossa bola cheia de areia.
Foi o fim definitivo daquele capotão.
Pensando hoje, talvez tenha sido melhor assim.
Primeiro minha vó tentou matar a bola com dez facadas. Nós a ressuscitamos, enchemos de areia e a transformamos numa armadilha. Depois apareceu alguém maior, acertou nossas contas e levou embora o corpo do delito.
E minha vó?
Minha vó nunca ficou sabendo da ressurreição.
Ainda bem.
Porque, conhecendo aqueles dedos duros, desconfio que os cloques da segunda vez teriam sido muito piores.
Ivo Terra Mattos
É difícil ser amargo quando se é doce.
A doçura não é um comportamento que se veste conforme as circunstâncias; é uma natureza. Quem é doce por essência pode endurecer a postura, mas raramente endurece o coração. Pode aprender a dizer "não", a partir, a proteger-se, mas sem perder aquilo que o define.
É difícil ser amargo quando a alma foi feita para espalhar leveza. Porque a essência sempre encontra um jeito de falar mais alto do que as feridas.
Num lindo dia. Conheci Ana Maria. Uma linda Princesinha, filha de uma Rainha. Seu nome é doce e belo, e o sobrenome docinho de caramelo .
A vida é uma combinação de "sabores", às vezes a vida é doce, outras vezes azeda e por vezes amarga ou salgada.
Por que não, umami ?
Uma sensação de sabor "saboroso" ou "gosto delicioso" que persiste na boca. Aquela de dar "água na boca" e na vida.
Entre as uvas da vida, encontrei em você o melhor vinho.
Intensa, leve, suave, doce, viciante…
daquelas que o tempo só melhora, que se degusta sem pressa e deixa um gosto bom na alma — impossível provar e não querer mais.
Entre as uvas da vida, encontrei em você o melhor vinho.
Intensa, leve, suave, doce, viciante...
Daquelas raridades que o tempo não estraga, apenas aperfeiçoa. Quanto mais conheço você, mais descubro novos sabores, novas razões para admirar sua essência.
Você não embriaga os sentidos, embriaga a alma.
“Naveguei por mares revoltos; caminhei por veredas escuras, até chegar no doce de teu beijo e nos braços de teu abraço.”
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