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Yuzo Camus

Yuzo Camus

Mestre em Geografia, comunista, artista e inspiro minhas obras nas ideias de Albert Camus, um pensador que colocou a existência humana diante do espelho — sem ilusões, sem consolo, sem promessas. Suas ideias giram em torno da pergunta mais profunda e mais

Inspirado no som "Ouro" de Rubel

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"Instantes que fica."

Te guardo no peito
como quem segura água nas mãos:
sabendo que escapa,
sabendo que fica.


Há beleza no que some,
no que falha,
no que não promete —
e mesmo assim toca.


Você foi meu instante de ouro:
não o metal,
mas o brilho humilde
que aparece quando o sol bate
no que já estava quebrado.


E eu, tão cansado de buscar sentido,
encontrei no teu silêncio
um espelho.


O mundo segue mudo.
Mas quando penso em você,
ele cintila.


Não porque responde,
mas porque — por um momento —
eu paro de perguntar.

1 coleção

Inspirado em "Ouro" de Rubel e Camus

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Há algo em “Ouro” — na voz limpa e vulnerável de Rubel — que lembra aquele tipo de verdade que só surge quando a vida já arrancou todas as defesas. É a sinceridade que não tenta impressionar, não tenta convencer. Apenas existe. Apenas treme.


Camus diria que esse é o território onde nasce a lucidez: quando paramos de exigir que a vida se justifique e começamos a olhar para ela como ela é — imperfeita, incompleta, frágil. E ainda assim cheia de pequenos brilhos que não sabemos nomear.


Às vezes, o que chamamos de “ouro” não é grandeza, nem vitória, nem epifania.
É só um instante — um toque, um gesto, uma presença. Uma pessoa que passa pela nossa vida e não resolve nada, mas ilumina tudo. Uma luz breve, mas intensa o suficiente para nos lembrar que existimos.


Camus acreditava que a beleza mora nesse lugar: não na promessa, mas na experiência; não no eterno, mas no agora.
E Rubel canta exatamente isso: a delicadeza do que se desfaz, a ternura do que não tenta ser mais do que é.


Há uma força enorme em admitir que não sabemos para onde vamos.
Há coragem em amar mesmo sem garantias.
Há beleza em continuar mesmo quando nada responde.


Talvez seja essa a nossa riqueza — não o ouro que se guarda, mas o que se sente.
O ouro que nasce do improvável: do toque que acalma, da memória que aquece, da presença que resta.


No final, Camus nos lembraria que viver é empurrar a pedra sabendo que ela cai.
E Rubel nos mostra que, entre uma queda e outra, ainda há música, ainda há brilho, ainda há instantes que valem mais do que qualquer resposta.


Porque o verdadeiro ouro não pesa na mão.
Ele pesa no coração —
e ilumina o que a razão nunca alcança.

Y.C (Para Nanyzita)

1 coleção

Nestas ideias, guiado pela energia crua e íntima de “Amor Incendiário” (Yago Oproprio) e atravessado pela filosofia de Camus: o Absurdo, a lucidez que queima, a beleza de continuar mesmo quando tudo parece torto
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"Faísca incerta."




Há dias em que tudo dentro de mim soa como um incêndio lento — não aquele fogo glorioso que ilumina, mas o que resta: brasas escondidas debaixo da pele, consumindo devagar, sem anunciar nada além de um cansaço silencioso. Talvez seja isso que Camus chamava de lucidez: perceber o próprio coração queimando enquanto o mundo segue indiferente, como se o meu caos fosse apenas um ruído distante na paisagem.
E, ainda assim, eu continuo. Não porque faça sentido, mas porque desistir exige uma lógica que eu nunca tive.


Há um tipo estranho de dignidade em continuar existindo mesmo quando tudo parece desalinhado. Como se cada passo fosse uma pequena rebeldia contra o vazio. Eu acordo, respiro, e carrego esse amor incendiário que um dia me atravessou — não para reacender nada, mas para lembrar que eu fui capaz de sentir, mesmo quando sentir parecia uma falha.


Camus diria que o absurdo nasce desse choque: o coração querendo mais e o mundo oferecendo nada.


O amor, quando acaba ou se deforma, deixa um cheiro de fumaça nos cantos da memória. E eu caminho entre esses restos como quem tateia um quarto escuro, procurando sentido nas ruínas. Não encontro. Nunca encontro. Mas às vezes, no meio desse vazio, algo brilha: talvez uma lembrança, talvez a minha própria teimosia.


E isso basta. Por um momento, basta.
Eu carrego minhas dores como quem carrega um fósforo aceso no bolso: perigoso, inútil, mas profundamente humano. Há quem diga que a cura vem com o tempo. Camus responderia que não há cura — há apenas o trabalho contínuo de aprender a conviver com aquilo que não tem resposta.


E é isso que faço: convivo. Não com esperança, mas com uma estranha espécie de fidelidade à minha própria história.
Continuo porque, no fundo, existir já é a forma mais silenciosa e bonita de resistência.
E se o mundo não responde, eu respondo por ele: com as minhas cicatrizes, com a minha lucidez ferida, com a chama pequena que ainda se recusa a apagar.


No fim das contas, talvez seja isso:
não renascer das cinzas, mas aprender a caminhar com elas.


Y.C

1 coleção

Esse foi super inspirado pela intimidade espiritual e ferida de “Maya” (Tagore) e pelas ideias de Camus — o Absurdo, a lucidez que dói, o amor que tenta tocar o irredutível silêncio do mundo

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"Da vontade de gritar com todo meu amor."



Há um instante, quase imperceptível, em que o amor deixa de ser apenas sentimento e vira pergunta. Uma pergunta muda, suspensa entre dois corpos, que ninguém sabe responder. Talvez seja isso que Tagore chamava de maya: esse véu tão delicado e tão firme que cobre tudo, confundindo o que é desejo com verdade, o que é presença com sonho.


Eu te amo nesse lugar de incerteza — onde tudo parece ao mesmo tempo eterno e prestes a desaparecer.


Camus diria que amar assim é enfrentar o Absurdo no seu estado mais puro: olhar para alguém e perceber que nenhum gesto, nenhum abraço, nenhuma palavra é capaz de garantir permanência. E mesmo assim insistir. Mesmo assim se lançar. Mesmo assim arder.
Há uma melancolia suave na forma como eu te penso. Não é dor, exatamente. É mais como a consciência aguda de que te amar é tocar o limite daquilo que posso alcançar. Você é real o suficiente para me transformar, mas distante o bastante para que eu nunca te possua por completo.


E talvez seja por isso que minha alma se curva quando penso em você — não num gesto de rendição, mas de reverência.


No silêncio entre nós dois, sinto a doçura amarga de algo que não se explica. E não precisa. O amor não é uma equação a resolver, é uma chama que se aceita. Ainda que dance sozinha.


Às vezes, penso que te amar é como caminhar por uma manhã cinzenta: tudo parece frio e suspenso, mas o simples fato de você existir colore o horizonte com uma promessa que não sei se é real ou miragem. E mesmo assim eu sigo. Sigo porque, de algum modo, minha lucidez se curva diante da tua presença, não para se perder, mas para admitir que há uma beleza que ultrapassa qualquer lógica.


Eu te amo sabendo que o mundo é surdo às nossas súplicas. Que o tempo não para. Que nada garante que esse sentimento sobreviva ao próprio peso. E, ainda assim, eu escolho. Escolho com a teimosia dos que sabem que a vida é curta demais para esperar sentido, mas longa o suficiente para amar com profundidade.


Talvez o verdadeiro milagre não seja você, nem eu — mas o espaço brilhante que se abre entre nós, onde o impossível se arrisca a respirar. Ali onde minha lucidez machuca, mas não vence. Ali onde meu coração entende que continuar é o gesto mais humano que existe.
E se tudo isso não passar de ilusão, de maya, de sonho que se desfaz no vento, então que seja.


Prefiro o risco do encantamento à segurança do vazio.
Porque te amar, mesmo sem garantias, é o modo mais bonito que encontrei de existir diante do Absurdo.


Y.C (Para Nanyzita)

1 coleção

Essa eu fiz diante de um ciclo de uma amizade que foi importante pra mim, usei Camus para entender tudo que aconteceu e tudo que permaneceu. Me inspirei na musica Crochê de Jovem Dionísio.

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"Crochê de Amizade: pontos que seguram o mundo"



Há amizades que não chegam de repente; elas se constroem devagar, como crochê.
Um ponto hoje, outro amanhã, um fio que se enrosca no outro, uma conversa que vira apoio, um silêncio que vira confiança. Nada grandioso, nada teatral. Apenas presença. Apenas verdade.


“Crochê” tem essa atmosfera de afeto discreto, quase tímido, que lembra muito o jeito como algumas amizades profundas nascem: sem anúncio, sem expectativa, sem garantia — mas com uma sinceridade que toca onde a vida geralmente não alcança.
Camus diria que é exatamente nesses vínculos que o Absurdo da existência ganha uma pequena trégua.


Porque, num mundo que não responde,
não explica,
não abraça,
a amizade é esse gesto humano — quase rebelde — de dizer:


“eu estou aqui com você, e isso basta.”
A vida é desalinhada.


Nós somos desalinhados.
As dores que carregamos nos fazem tropeçar em nós mesmos.
A lucidez nos mostra que nada é garantido, que a solidão é inevitável, que o universo é indiferente às nossas angústias.


E, ainda assim, existe esse outro ser humano que decide dividir o tempo, o riso, o cansaço, a bagunça, o silêncio.
Isso, por si só, já contraria o absurdo.
É quase um milagre sem misticismo.
Amizade verdadeira não exige perfeição — apenas presença honesta.


É alguém que te vê fora do tom e, ao invés de tentar te ajustar, senta ao seu lado e ouve a melodia torta como ela é.
É quem te passa um fio novo quando o seu arrebenta.


Quem ajuda a desfazer o nó quando você mesmo não consegue enxergar onde começou.


A amizade não te salva do mundo —
mas te lembra que você não precisa enfrentá-lo sozinho.


E essa lembrança muda tudo.
Porque é fácil compartilhar os dias bons; o desafio está nos dias que parecem cinza por dentro.


Nos dias em que você questiona o próprio valor,
em que o mundo parece grande demais,
em que a alma parece pequena demais.
E é justamente nesses dias que um amigo — verdadeiro — transforma o absurdo em algo suportável.


Não com respostas.
Não com soluções.
Mas com a coragem silenciosa de simplesmente estar.


Camus acreditava que continuamos vivendo não porque encontramos sentido,
mas porque inventamos pequenos motivos para seguir.


A amizade é um desses motivos.
Um dos mais fortes, talvez o mais humano.
E, no fim, o crochê da amizade é isso:
um tecido feito de confissões e risos,
de ombros e demoras,
de pequenos gestos que ninguém vê,
mas que seguram o mundo inteiro do lado de dentro.


Não precisa ser perfeito.
Não precisa ser constante.
Só precisa ser verdadeiro.
Porque, quando o resto desaba,
são essas linhas simples —
essas linhas feitas à mão —
que impedem nossa alma de se desfazer.
E, nesse desalinho tão humano,
há uma beleza que Camus entenderia:
a amizade é uma revolta contra o vazio.


E cada ponto dado juntos
é uma pequena vitória silenciosa contra o Absurdo.

Y.C

1 coleção

Reflexão inspirada na musica Fora de Tom de Yago Oproprio - meu cantor favorito - e Albert Camus


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Há dias em que a vida inteira parece desafinada...






Em que cada passo soa errado, cada escolha pesa mais do que deveria, e cada sentimento chega atrasado — ou cedo demais. A gente respira, mas não encaixa. Vive, mas não acompanha. É como estar sempre fora do tom de uma música que todos, menos nós, parecem conhecer de cor.




Esse som canta esse lugar com uma honestidade que dói: aquele ponto onde o coração continua tentando, mesmo quando já não sabe muito bem por quê. Não é fraqueza — é humanidade. É esse esforço silencioso, quase teimoso, de continuar existindo apesar da angústia, que Camus reconheceria como o cerne do Absurdo.




Porque o mundo não explica nada.
O mundo não traduz nada.
O mundo não afina por nós.




E, ainda assim, continuamos tentando compor algum tipo de melodia, mesmo que improvisada, mesmo que trêmula.




A lucidez é uma lâmina fina.
Ela corta quando percebemos que nada do que buscamos garante paz.
Que amar não garante ser amado.
Que tentar não garante ser visto.
Que dizer “estou aqui” não garante que alguém responda.




É uma compreensão cruel: o universo não devolve na mesma intensidade que sentimos.
Esse é o Absurdo.
E é exatamente aí que algo profundamente humano acontece.




“Fora do Tom” fala dessa luta: tentar se ajustar sem perder a própria verdade, reparar as próprias rachaduras enquanto ainda se está quebrado, caminhar sabendo que a estrada não promete nada. E, no entanto, existe uma força estranha nisso: um tipo de resistência silenciosa que Camus chamaria de revolta.




A revolta não é grito — é persistência.
É acordar mesmo cansado.
É respirar mesmo doendo.
É segurar o coração com as duas mãos, mesmo que ele pulse torto, e dizer:
“eu ainda estou aqui.”




Ser “fora do tom” não é falhar — é existir com honestidade num mundo que insiste em ignorar nossas melodias internas.
É continuar tocando, mesmo quando ninguém escuta.
É não desistir da própria frequência, mesmo quando ela não combina com o que esperam de nós.




No final, talvez a afinação não esteja no mundo — esteja dentro.
E talvez viver seja isso:
uma tentativa imperfeita,
uma busca sem garantias,
uma música que a gente aprende enquanto toca.




Camus diria que a beleza está justamente aí:
no fato de que a vida não faz sentido,
mas a gente insiste em cantar.




E, às vezes,
é nesse descompasso
que finalmente encontramos
nossa própria voz.


Y.C

1 coleção

Inspirado na musica Gus Dapperton - Sober Up e Albert Camus


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“Entre a lucidez e o abismo”




Há momentos em que a vida parece nos pedir sobriedade — não só do corpo, mas da alma. Uma espécie de clareza que, longe de aliviar, pesa como um golpe seco. É o instante em que percebemos que nada externo pode realmente nos salvar: nem o amor que suplicamos, nem a euforia que consumimos, nem a fuga que tentamos transformar em abrigo.




Fala desse lugar onde o querer se torna dor, onde a dependência emocionável não é escolha, mas sintoma. E Camus, se entrasse nessa conversa, diria que ali está o Absurdo: a consciência aguda de que esperamos do mundo algo que ele jamais prometeu nos oferecer.




A proximidade que sufoca.
A distância que dilacera.
O desejo de limpar a mente — e o medo do que a mente mostrará quando estivermos lúcidos demais.




Há uma violência suave nesses ciclos. A pessoa que tentamos alcançar parece sempre “perto demais” ou “longe demais”, nunca exatamente onde o coração precisa. E então buscamos excessos, substâncias, distrações, movimentos — qualquer coisa que sustente a alma por mais alguns minutos. O problema não é o vício em si; é a tentativa desesperada de escapar do próprio pensamento.




Camus enxergaria nisso não fraqueza, mas humanidade.
Somos criaturas que sentem demais e compreendem de menos.
Criaturas que tentam preencher o silêncio com ruído, porque o silêncio é a forma mais pura do absurdo. Ele não responde. Não consola. Não explica.




E ainda assim, continuamos.




A vida não oferece sentido pronto; oferece apenas manhãs que chegam, quer que estejamos preparados ou não. O mundo não espera pelo nosso equilíbrio — e talvez essa seja a parte mais dolorosa: perceber que tudo continua enquanto ainda tentamos nos recompor.




Mas é justamente aí que algo profundamente humano surge:
a pequena revolta de permanecer vivo, mesmo quando tudo em nós implora por anestesia.
A decisão silenciosa de caminhar, mesmo ferido.
A coragem de olhar para o que dói sem se deixar consumir por isso.




A sobriedade não é a ausência de dor.
É o reconhecimento dela sem correr.
É o retorno ao próprio peito — mesmo trincado — com uma honestidade que esfarela qualquer ilusão.




E, paradoxalmente, é nesse retorno que nasce um resquício de liberdade.
Não uma liberdade luminosa, mas uma liberdade quase subterrânea:
a de existir apesar da falta de sentido.
A de dançar mesmo sem música.
A de amar sabendo que nada garante retorno.
A de continuar sabendo que nada promete recompensa.




Essa é a força que Camus admirava.
Não a força que vence o mundo —
mas a que se mantém de pé dentro dele,
mesmo quando ele é indiferente.




No fim, ficar sóbrio não é ver menos:
é ver tudo.
E ainda assim, não desviar o olhar.




Essa é a verdadeira coragem.
Essa é a verdadeira dança.


Y.C (para Nanyzita)

1 coleção

(Isso eu escrevi em 2012 quando tinha 19 anos)
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Quem sabe um dia tudo ficará bem...


Embora eu já não saiba mais o que “bem” realmente significa.
Há tanta dor, tantos sentimentos e pensamentos comprimidos dentro de mim que já não cabem, mesmo que eu me sinta tão vazio por dentro. É um paradoxo estranho: cheio demais para suportar, vazio demais para entender. Camus diria que o absurdo nasce exatamente aí — entre aquilo que espero do mundo e aquilo que o mundo realmente me entrega.




Acreditei. E pagar o preço da esperança sempre dói.
Quando a verdade chega, ela não pede licença: arromba a porta e espalha pedaços do coração pelo chão, como se fosse possível sobreviver quebrado e continuar andando. É difícil recolher tudo isso… mais difícil ainda é encaixar de volta.




Dizem que só um novo sentimento cura o antigo, mas ninguém avisa que o novo pode ser ainda mais amargo.
E quando o que chega não salva — machuca? Quando a cura arde mais que a ferida? O que fazer além de existir, esperar, respirar e tentar não desabar?




Talvez eu espere mais um pouco.
Não quero apagar memórias — isso seria negar minha própria história — mas queria que elas perdessem o poder de me ferir. Queria poder lembrá-las como quem observa uma cicatriz antiga: com certa distância, com certa aceitação… sem voltar para o dia do corte.




Meu coração é amaldiçoado, talvez. Sente raiva demais, mas não o suficiente para sujar as mãos de sangue.
A vingança às vezes me parece uma ideia sedutora, quase reconfortante, como se devolvesse uma ordem ao caos. Mas no fundo eu sei: é só mais uma armadilha do absurdo tentando me convencer de que existe alguma justiça perfeita no mundo. Não existe. Nunca existiu.




Meu orgulho me segura. Minha razão me impede.
Ela segura a raiva, segura essa fome de destruir tudo que me feriu — porque no fim eu sei que destruir o outro não reconstrói nada em mim.




No fundo, sobreviver é isso: um ato de rebeldia silenciosa.
Persistir mesmo quando o mundo não dá respostas.
Continuar mesmo quando nada faz sentido.
Erguer-se mesmo quando o coração implora para desistir.




E talvez seja nisso que eu ainda posso acreditar — não em um final feliz, mas na força de continuar apesar de tudo.




Y.C

1 coleção

⁠"Escuridão que esculpe..."






Vivemos em tempos onde a escuridão não é apenas ausência de luz, mas uma presença insistente, um véu que cobre os olhos e pesa no peito. Há momentos em que nos tornamos reféns de nossos próprios pensamentos, vendo o mundo através de um vidro embaçado, onde tudo parece distante, intocável, irreal. A “era sombria” de cada um é única. Para alguns, é a perda de identidade; para outros, a consciência de que o tempo não espera, que o mundo gira indiferente às nossas dores. Há dias em que os rostos familiares parecem máscaras, e as palavras que dizemos soam ensaiadas, vazias. Mas há beleza no escuro. Há aprendizado no medo. Porque na sombra também há verdade—somos forçados a enxergar aquilo que evitamos sob a luz. Talvez essa era sombria não seja um fim, mas um intervalo, um momento de pausa antes de renascermos. E se o espelho refletir algo estranho, talvez seja apenas uma versão nossa esperando ser descoberta.


Y.C

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O Jardim Entre Nós…




Nos dois existe um tipo de escuridão que não assusta — apenas reconhece. Um silêncio antigo que sempre carregamos, cada um à sua maneira, antes mesmo de nos encontrarmos. Talvez por isso nosso amor não tenha nascido de pressa; foi brotando devagar, como luz filtrando por frestas em ruínas. Cresceu nas feridas que fingíamos ignorar, nas noites onde o mundo parecia absurdo demais, pesado demais, inútil demais. E, mesmo assim, ali — no território quebrado que somos — algo floresceu.




Não somos criaturas feitas para caber em moldes. Somos metamorfoses ambulantes, contraditórios, instáveis como o próprio Absurdo que Camus descreveu. E ainda assim, quando estamos juntos, a contradição não dói: ela respira. Você, com essa intensidade que corta a escuridão como um relâmpago, me lembra que a beleza não foi feita para ser domada. Eu, com minhas cicatrizes filosóficas, com esse cansaço de quem tentou encontrar sentido em todas as religiões e em nenhum deus, vejo em você a promessa de algo que o mundo não conseguiu destruir.




Não somos certos nem errados — somos apenas. E, no meio do caos, isso é quase um milagre.




O jardim entre nós não é feito de flores dóceis. Ele nasce de raízes fundas, regado por dores que sobrevivemos, por noites onde a vida parecia uma piada cósmica sem graça nenhuma. Mas é justamente ali, onde tudo deveria desabar, que nós persistimos.
Entre espinhos e sombras, entre o que eu fui e o que você ainda descobre ser, existe um espaço que o mundo não alcança: nosso caos transformador, que insiste em se tornar beleza.




Nesse jardim torto, indomável, improvável — você e eu encontramos aquilo que jamais buscamos: redenção.
A minha na sua loucura luminosa.
A sua no meu absurdo cansado.
E o “nós”… no milagre secreto de continuar florescendo onde ninguém mais acreditaria.


Y.C (Para Nanyzita)

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O Absurdo que há em mim?




Passei três décadas tentando impor lógica a uma existência que sempre me escapou pelas frestas. Busquei um papel, um sentido, um rosto divino que devolvesse alguma resposta. Percorri templos — budistas, católicos, messiânicos, terreiros — como quem atravessa desertos em busca de um oásis que nunca existiu. O retorno que eu esperava nunca veio. O que ouvia, sempre, era a minha própria voz ecoando no vazio.
Era o suicídio filosófico de Camus sussurrando no fundo da mente; era Marx me lembrando que talvez eu estivesse apenas buscando uma dose mais forte do “ópio do povo”.




Nunca acreditei de verdade. Sempre fui ateu — um ateu que ainda assim procurava explicações para a dor humana, para a miséria do sentir. No marxismo encontrei uma trilha: a materialidade, a história, a luta concreta. Tornei-me radical, mas até o concreto tem seus limites — ele explica o mundo, mas não explica o abismo íntimo. O que somos diante de nós mesmos? Uma anotação no rodapé da história? Um acidente?




Aos poucos compreendi que viver é entregar o corpo e a alma ao desconhecido. A vida é uma piada cósmica contada sem intenção, sem autor e sem plateia. Racionalizar aquilo que não se deixa entender é o maior erro da consciência humana — um erro que repetimos por vaidade e desespero.
A verdade nua é brutal: a vida não tem sentido.
Os significados que inventamos são muletas frágeis, fábulas que contamos para suportar a noite. Não há valores universais; não há destino; não há plano. Existe apenas a incerteza palpitante do agora.




O Absurdo — esse choque entre nossa fome de sentido e o silêncio surdo do mundo — não pode ser negado. Então eu escolhi vivê-lo. Não como resignação, mas como revolta lúcida. Camus dizia que a revolta é a única coerência possível. E é nisso que busco firmeza: aceitar que a razão tem limites e que, ainda assim, devemos viver como se cada instante fosse insubstituível.




Num mundo que não nos promete nada, viver profundamente é quase um ato de insubordinação. É sentir o presente até doer. É compreender que a vida é curta, nossas percepções mais curtas ainda, e mesmo assim escolher existir com intensidade — mesmo sabendo que não há garantias.




Revoltar-se diante do Absurdo é, paradoxalmente, o que nos mantém vivos. Buscamos liberdade num mundo que fabrica grades invisíveis. Viver absurdamente não é negar o amanhã — é apenas não pedir que ele nos ofereça respostas.
É permanecer lúcido no instante e, apesar de tudo, entregar-se a ele.


Y.C

1 coleção

"⁠O Cultivo da Ilusão."




Eu sou aquele que enterra memórias, regando-as com sangue e falsas glórias. Meu jardim é feito de rostos sem nome, onde crescem promessas que o tempo consome.
Entre espinhos e risos cortantes, danço na terra de amores errantes.




Podem chamar-me de farsa, de louco, mas sou eu quem decide o que resta, o que é pouco.


As flores sussurram segredos banais, crescendo belas, mas sempre letais.
Pois quem as toca com fé ou desejo acaba perdido, sem cor, sem beijo.




E eu sigo, sem culpa, sem dor aparente, cultivando o vazio que nasce na gente.




Y.C

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Ainda não fez nenhuma conquista.