JÁ ESQUECEMOS QUEM SOMOS
Vivemos tempos estranhos e fora da dignidade. E digo isto com peso, medo e insegurança. A cada dia, torna-se ainda mais duro.
Está tudo misturado.
Hoje és acusado, amanhã, já estás condenado, sem provas, sem defesa, sem voz. Há quem seja agredido e há quem nem sobreviva para contar a sua versão. Tudo por causa de um boato. Tudo por causa do medo. Tudo por causa da ignorância.
Criou-se, nas mentes de muitos, a ideia perigosa de que fazer justiça com as próprias mãos é aceitável. E isso é um erro grave. É muito perigoso.
As escolas, as igrejas e os mais velhos já não ensinam como deviam ou não são vistos como antes. Não orientam como antes. E os valores que mantinham a ordem, foram sendo esquecidos lentamente até chegarmos onde estamos.
Uma sociedade dominada pelo pânico torna-se cega. E quando a razão desaparece, qualquer mentira ganha força de verdade. O que está a acontecer certamente é um teste à nossa consciência como seres humanos.
Já esquecemos quem somos. Precisamos parar e pensar. Olhar para o passado, entender onde falhámos. Analisar o presente, com coragem.
E proteger o futuro, antes que seja tarde demais.
Nem toda história que se ouve é verdade. E nem toda suspeita justifica violência. Se continuarmos assim, não estaremos apenas a destruir inocentes…
estaremos a destruir-nos a nós próprios.
Agora, a verdadeira luta não deve ser contra fantasmas, deve ser contra a ignorância que carregamos dentro de nós, para que possamos lembrar quem somos. Porque já esquecemos quem somos.
DEPOIS NÃO DIGAS QUE NÃO AVISEI
Vai chegar o dia em que vais aprender da pior forma: falar demais não te salva, só te expõe.
Quando fores acusado injustamente, vais sentir vontade de gritar, de implorar para que acreditem em ti. Não adianta. Quem decidiu condenar-te já não quer verdade.
O teu desespero vai trair-te. Vais parecer culpado só por tentares provar que não és. Explicar demais é humilhar-te. Quem quer entender, não precisa do teu discurso inteiro. Quem não quer… vai usar cada palavra tua contra ti.
Guarda provas. As tuas emoções ninguém quer saber. Dor não convence ninguém.
Aceita isto: nem todos estão do teu lado. Alguns sempre desconfiaram de ti. Outros só estavam à espera de uma falha, ou de uma mentira para te virar as costas sem culpa.
E dói mais saber que alguns vão sorrir enquanto cais. A vida não pára. Enquanto tentas limpar o teu nome, o mundo segue. E, se parares, ficas para trás… por causa de algo que nem fizeste.
Só depois, não digas que não avisei.
Haverá noites em que vais sufocar com palavras não ditas. Vais querer explicar tudo, detalhe por detalhe… mas ninguém está à espera disso. Ninguém tem paciência para a tua verdade inteira.
E aqui está a parte que custa engolir:
há bocas onde o teu nome já está sujo, e nunca mais será limpo. Por isso, esquece convencer toda a gente.
Faz apenas isto, se ainda tiveres forças: não te abandones. Porque perder a tua reputação dói… mas perder-te a ti mesmo é o fim.
Só depois, não digas que não avisei.
É muito importante respeitar os outros.
Respeitar os outros não se resume a dizer “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”.
Não está apenas em servir um copo de água, oferecer comida ou preparar um café.
Para mim, respeito é liberdade.
É permitir que o outro seja quem é,
que faça aquilo que acredita ser certo,
mesmo quando não coincide com o nosso modo de ver o mundo.
Respeitar é não prender, não impor, não controlar. É reconhecer que cada um carrega a sua verdade, e que, por mais diferente que seja, ainda assim merece existir.
"Que a poesia continue a ser um meio de libertação"
Há homens que não querem apenas viver no mundo. Querem possuí-lo.
O primeiro erro de quem deseja governar o mundo é não compreender que o mundo não é um trono, é um organismo. Não é um objecto de comando, mas uma soma viva de vontades, culturas, interesses, medos e resistências.
Quem tenta governar tudo, precisa controlar tudo. E para controlar tudo, precisa destruir o que não controla. Assim começam as ruínas. A história ensina que o desejo de domínio absoluto sempre terminou em cinzas.
O mundo não se curva; ele absorve, desgasta e, por fim, derruba. Basta lembrar o colapso do projecto imperial de Adolf Hitler ou o império expansionista de Napoleão Bonaparte ambos tentaram moldar o mundo à sua imagem e encontraram a resistência da própria realidade.
Governar o mundo exige eliminar diferenças. Eliminar diferenças exige violência. Violência constante gera medo. E o medo nunca constrói, apenas adia o colapso. Quem tenta governar tudo acaba por destruir o próprio espaço que deseja comandar. Porque o mundo não é um território. É um equilíbrio frágil.
Aqui cada um cumpre o papel que lhe calhou: uns possuem o que não podem vender, outros desejam o que não podem comprar.
Biografia
Rosário Felizardo Bissueque, conhecido artisticamente como Rosário Bissueque, nasceu a 27 de março de 2000, no distrito de Namarroi, província da Zambézia, em Moçambique.
Iniciou a sua trajetória como poeta, escritor e narrador na cidade de Nampula, em 2021. A sua escrita é profundamente marcada pela guerra em Cabo Delgado, pela vida urbana de Nampula e por influências literárias que dialogam com autores como Fernando Pessoa e António Lobo Antunes, entre outros.
Em 2023, recebeu um certificado da plataforma Poesia Conecta, no Brasil, como melhor poeta do período. Atualmente, conta com mais de 40 textos publicados, entre poemas, prosas e fábulas, divulgados sobretudo nas redes sociais e no seu canal do YouTube.
“Que a poesia continue a ser um meio de libertação.”
Rosário Bissueque
“O maior crime dos poderosos não é roubar dinheiro, é roubar tempo: décadas que nunca mais voltam.”
Ainda não fez nenhuma conquista.