
Olho para o espelho e não me reconheço. Tento falar, mas o medo me cala… porque, no fundo, não tenho medo de alguém responder. Tenho medo de descobrir que quem está do outro lado nunca fui eu.
Às vezes, meu cérebro parece implorar por silêncio: meus olhos se perdem em algum ponto, o mundo fica distante e, por alguns instantes, tudo parece querer desaparecer ao redor. Mas eu me agarro ao pouco que ainda me mantém presente, como se precisasse lutar contra a vontade de me desligar, porque, mesmo exausta, ainda não quero me perder de mim.
Às vezes, já não sei quem sou nem para onde deveria ir. Procuro um propósito, mas continuo parada no mesmo lugar, como se todos estivessem caminhando enquanto eu apenas observo o tempo passar, tentando descobrir quem deveria me tornar e por que ainda não consegui sair de onde estou.
Estou cansada de transformar o meu cansaço em sorriso para que ninguém perceba o que há por trás dele. Aprendi a medir palavras, esconder sentimentos e vestir máscaras até dentro de casa. Às vezes, o sorriso não é felicidade — é apenas a forma que encontrei de esconder tudo aquilo que não consigo mostrar.
Às vezes, sinto que o mundo deixou de ser meu lugar. Caminho por ele, vejo tudo acontecendo, mas existe em mim a sensação de estar apenas de passagem, como se todos tivessem encontrado seu lugar no mundo, menos eu.
Às vezes, falar sozinha parece mais fácil do que falar com os outros. Comigo, não preciso medir palavras, ensaiar sentimentos ou temer ser interrompida. Talvez seja estranho conversar comigo mesma, mas é mais confortável do que falar e sentir que ninguém realmente me escuta.
Naquele último ano, o xadrez se tornou nossa pequena revolução. Começamos sozinhos, diante de uma mesa que ninguém tocava, e pouco a pouco ela se encheu de alunos, professores, partidas e risadas. O que antes era esquecido passou a reunir pessoas em todos os recreios. Talvez tenha sido simples para quem olhava de fora, mas para nós era muito mais: era um pedaço daquele último ano ganhando vida. E, sem perceber, deixamos naquela mesa uma pequena marca no último capítulo da nossa vida escolar.
Sinto saudade de quando os professores eram quase amigos, quando a sala parecia pequena demais para tantas conversas e os intervalos se estendiam entre risadas e partidas de xadrez. Até das aulas que matávamos para sentar juntos diante do tabuleiro eu sinto falta, e o mais engraçado era ver os professores rindo da nossa ‘rebeldia’, porque, enquanto outros matavam aula para ir embora ou ficar presos ao celular, nós simplesmente fugíamos para um canto para disputar uma partida de xadrez. É estranho sentir saudade até das pequenas transgressões de uma época em que nossos maiores problemas cabiam em um tabuleiro, algumas peças espalhadas e a certeza de que a próxima jogada seria motivo para outra risada.
Sinto saudade dos corredores da escola, das amizades que pareciam eternas e das conversas que não precisavam chegar a lugar nenhum. Saudade das risadas que nasciam por coisas bobas, das manhãs que pareciam longas e da leveza de não carregar o mundo sobre os ombros. Talvez eu não sinta falta apenas da escola, mas da época em que a felicidade cabia em uma conversa tranquila, uma gargalhada inesperada e algumas horas ao lado de quem fazia tudo parecer mais simples.
É estranho como a vida, que deveria ser vivida, pode se transformar em uma sequência de expectativas; até que o peso de corresponder a todas elas vai apagando, pouco a pouco, a vontade que um dia tivemos de apenas viver.
Há algo doloroso em crescer enquanto, diante do espelho, ainda enxergo a criança que o tempo não conseguiu levar de mim. O mundo me chama de adulta, coloca responsabilidades sobre meus ombros e espera que eu saiba caminhar sozinha, mas, por dentro, ainda procuro a mão que um dia segurava a minha. Talvez crescer seja essa contradição silenciosa: o corpo aprende a envelhecer enquanto a alma permanece sentada em algum lugar do passado, tentando entender em que momento os dias correram tão depressa e por que ninguém avisou que, um dia, eu teria que dizer adeus à infância sem jamais estar pronta para deixá-la partir.
Há dias em que a saudade do passado aperta o peito como se quisesse me arrancar do presente; e tudo o que eu mais desejo é voltar para algum lugar no tempo em que eu ainda era verdadeiramente feliz, quando sorrir parecia natural e a vida não pesava tanto sobre os meus ombros.
Sinto saudade de um passado que já não consigo lembrar direito; é como sentir falta de uma casa que talvez nem exista mais, mas cuja ausência ainda mora em mim. Não lembro dos detalhes, das vozes ou dos dias que ficaram para trás, mas existe uma parte de mim que, mesmo sem saber exatamente para onde, ainda deseja voltar.
Quando Eu Não Sou Apenas Eu
Às vezes, não sinto que exista apenas uma pessoa dentro de mim. Sinto como se minha mente fosse uma casa com quartos que não conheço completamente, e, de vez em quando, alguma porta se abre sem que eu saiba quem está do outro lado. Continuo sendo eu — mas, ao mesmo tempo, parece que não sou inteiramente eu.
Há momentos em que olho para minhas próprias lembranças e elas parecem pertencer a alguém que conheço apenas de ouvir falar. Reconheço os acontecimentos, mas não reconheço a sensação de tê-los vivido. Algumas palavras que digo parecem não ter nascido de mim; algumas emoções chegam sem que eu saiba de onde vieram. E existem momentos em que percebo que alguma coisa aconteceu, mas não consigo encontrar dentro de mim o caminho que levou até aquilo.
É estranho dividir a própria existência com partes de si que parecem ter vontades, sentimentos, maneiras de pensar e até vozes diferentes. Mais estranho ainda é tentar explicar isso sem parecer que estou inventando. Porque como explicar a sensação de estar dentro da própria cabeça e, ainda assim, sentir que existe uma distância entre você e aquilo que pensa?
Às vezes, sinto que estou apenas observando. Meu corpo continua seguindo a rotina, falando, sorrindo, respondendo às pessoas, enquanto uma parte de mim permanece atrás de tudo, como uma espectadora silenciosa. E quando volto a me sentir completamente presente, fico tentando juntar os pedaços: o que eu fiz, o que eu disse, o que senti, quem estava aqui antes de mim.
Talvez o mais solitário não seja sentir que existem partes diferentes dentro de mim. Talvez seja não saber quando elas aparecem, não entender completamente quem são e carregar a sensação de que, enquanto o mundo enxerga apenas uma pessoa, dentro de mim existe uma história muito mais complicada do que qualquer um consegue perceber.
Às vezes, existe em mim uma sensação que não sei nomear — como se eu tivesse me afastado de mim mesma sem perceber. Continuo vivendo, sorrindo, conversando, seguindo os dias, mas há momentos em que tudo parece acontecer diante dos meus olhos, e não exatamente comigo.
É como assistir à própria existência sentada na última fileira, reconhecendo o rosto no palco, mas sem sentir que aquela pessoa sou eu por inteiro. Conheço minha voz, meus gestos, minhas histórias, mas ainda assim existe algo profundamente estranho em habitá-los.Como se eu estivesse presente apenas pela metade, observando de longe uma vida que deveria sentir como minha.
E o mais inquietante é não saber de onde vem esse vazio, nem por que, mesmo estando dentro de mim, às vezes me sinto tão distante de quem sou.
Santos para a Plateia
Há pessoas que passam a vida vestindo máscaras tão bem ajustadas que já não sabem mais quem são quando estão sozinhas. Diante dos outros, pregam bondade, compaixão e humildade, mas, quando chega a hora de transformar palavras em atitudes, nada existe além do discurso. Falam sobre fazer o bem como se fossem exemplos, embora raramente tenham estendido a mão quando alguém realmente precisou.
E ainda encontram tempo para julgar aqueles que escolheram caminhar por uma estrada diferente. Chamam de perdidos os que não seguem suas regras, de distantes de Deus os que questionam, de sem fé os que procuram respostas por outro caminho. Dizem que falta oração quando, talvez, o que realmente falte seja respeito pelo livre-arbítrio e humildade para aceitar que ninguém é obrigado a enxergar o mundo através dos mesmos olhos.
É curioso como algumas pessoas acreditam que conhecer o caminho certo lhes dá o direito de condenar quem escolheu outro. Esquecem que fé sem bondade é apenas aparência, oração sem compaixão é apenas palavra, e um discurso sobre amor perde todo o sentido quando é usado para diminuir alguém.
No fim, a máscara pode enganar uma multidão, mas não transforma uma pessoa naquilo que ela finge ser. Porque caráter não se veste para uma ocasião, bondade não precisa de plateia e quem realmente carrega luz não precisa apagar o caminho de ninguém para provar que o seu é o certo.
Fé de Aparências
É impressionante como algumas pessoas conseguem vestir uma personalidade diferente dependendo de quem está diante delas. Quando estão entre os irmãos da igreja, são palavras doces, abraços, sorrisos, “Deus abençoe” e discursos sobre amor, respeito e união; mas basta sair daquele ambiente e a máscara cai.
A gentileza desaparece, o julgamento aparece e aquilo que pregavam como amor se transforma em desprezo por quem pensa, vive ou acredita de maneira diferente.
São bons apenas para os seus, acolhem apenas os que consideram dignos de pertencer e chamam isso de fé. Tratam os seus como irmãos, mas os diferentes como estranhos; oferecem a mão para quem compartilha da mesma crença, mas parecem esquecer toda a bondade quando encontram alguém que não cabe dentro dos limites que criaram.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de religião, mas o excesso de aparência: porque é fácil falar de Cristo diante de quem aplaude, difícil é praticar aquilo que Ele ensinou quando ninguém está olhando.
No fim, não é a roupa de domingo, o louvor ou as palavras bonitas que revelam o caráter de alguém, mas a maneira como essa pessoa trata aqueles de quem não precisa da aprovação.
A Luz que Pregam
Pregam a luz,
mas vivem na escuridão.
Falam de amor,
mas carregam julgamento no coração.
Pronunciam o nome de Deus
como quem conhece a verdade,
mas esquecem que nenhuma fé
deveria caminhar ao lado da crueldade.
Estendem a mão em público,
sorriem como se fossem abrigo,
mas, quando encontram alguém diferente,
transformam o abraço em perigo.
Pregam aceitação,
mas escolhem quem merece pertencer.
Falam sobre perdão,
mas não sabem perdoar o que não conseguem entender.
E talvez a maior ironia
seja chamarem de escuridão
aquilo que simplesmente não se parece
com a luz que aprenderam a imitar.
Porque há quem acenda velas,
faça orações e fale de salvação,
mas seja incapaz de oferecer
um pouco de compaixão.
Eu não preciso apontar dedos.
A consciência sabe quem é quem.
Afinal, quem realmente vive na luz
não precisa provar que é luz para ninguém.
Há quem pregue a luz em nome de Deus,
enquanto escolhe viver na escuridão
quando ninguém está olhando.
Pensar profundamente não significa encontrar respostas mais rápidas, mas suportar por mais tempo a presença de perguntas que desmontam aquilo que antes parecia óbvio.
Ainda não fez nenhuma conquista.