Essa fé, essa devoção maculada, essa idolatria deslumbrada não mais existia, ali naquele momento eu saia do feitiço, saber da verdade me acordou,foi como estar desperto após um porre de sábado. Para mim, já não existia mais santa, não existia mais brilho, ainda era um anjo, sim, mas caído. O semblante daquela mulher passava a me dar nojo, o que eu via como pacífico e calmo passava a ser opaco e entedioso, os trejeitos leves e harmoniosos agora me pareciam desengonçados, tortos, até o gosto daquela boca, que sempre havia sido doce, tinha ficado azedo, era como beber água de um esgoto. Pensando aqui, agora concluo que, estando com ela, eu não era mais eu, eu era outro, eu não me sentia pertencente a mim.
Pernicioso, tal qual fluido etílico, o sumo de sua boca tornara-se meu vício.
Deliciosa seiva adamada, seu beijo verdadeiramente remetia-se ao vinho tinto.
Para meu ássiduo instinto de um alcoólatra, um gole mais do licor daquela moça era como o toque mistico do absinto.
Beligerantemente, nossa relação era quase como de presa e caça, outrora a amásia, que em postura acometida de uma louca, tentara me domar à força, outrora este que vos fala, cego de ciúmes e posse, bradava a luz dos postes, gritos ébrios de amor.
Éramos tão distoantes, mas, ao mesmo tempo, tão parecidos. Nossas angústias tinham as mesmas formas nas nossas mentes opostas, nossas tristezas desaguavam no mesmo rio de sentimento distorcido e, ao seguirmos juntos nessa rota, mesmo perturbados, não estamos mais sozinhos.
Amor é angustia, é sentar num chão gelado e molhado, cansado de tanto chorar
Amor é lamuria, é vilipendiar criaturas, cheias de palavras, mas incapazes de pensar
Amor é tortura, é agulha na unha, faca na carne, é imolar e se automutilar
Amor é desventura, é labirinto farpado, é a sangria que eu me propus a estancar
Eu começo hoje sem ao certo saber onde decorrer minhas lamúrias, preciso de apenas 1 minuto sem pensar em nada que me faça não dormir, me sinto estranho e impotente, e para min sempre é problemático o fato de eu não conseguir controlar o mundo.
O mais estranho, porem, é o fato de eu ter o entendimento de que as pessoas são responsáveis pelas próprias decisões, mesmo tendo essa noção ainda tem a sensação de que poderia ajudar em algo, mas minha pouca empatia ou sei lá o que eu tenho de errado me impede disso, acho que meu medo de ser inconveniente.
Penso eu que ser um eco na mente de alguém, é o mesmo que colocar uma maldição nesse alguém, enfim, é algo que eu não quero que aconteça.
Ainda não fez nenhuma conquista.