Coleção pessoal de sofia66

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A esperança não é acreditar que tudo correrá bem; é continuar a caminhar mesmo quando ainda não se vê o caminho inteiro.

Não confies em ninguém, nem em ti.
Crê somente no silêncio.

A sociedade que hoje te condena e te ostraciza, é exactamente a mesma que amanhã será capaz de te idolatrar.
Tudo depende das circunstâncias.

Escuta o silêncio.
Pisa no seu templo. Quem sabe aí não encontres a sabedoria que tanto buscas.

"Bons" são os que contemplam a natureza, o firmamento e sabendo que nada são perante o abismo da vida, conseguem ter no rosto um sorriso de gratidão.


Sublime é a voz que cresce entre as papoilas.

Não percamos tempo com quem não tem tempo para nós.


A sabedoria da idade traz-nos o silêncio e a consciência de nos sabermos sós e ínfimos.
É assim que nascemos, e assim havemos de morrer.


Vivamos pois, um dia de cada vez, uma hora, um minuto, um segundo e sejamos gratos por isso, porque daqui a cem anos, provavelmente ninguém nos recordará.

O valor de um pensamento não depende de quem o enuncia, mas daquilo que desperta em quem o lê.

De cada vez que arrancarem todas as tuas flores, mostra-lhes os seus rebentos.

Célia Moura

Há silêncios que pesam. Mas há outros que são a terra onde as palavras criam raízes.

Soluçam-me aves no peito.


Pranteia, Venezuela, pranteia!
Que até os rios aprenderam
a transportar o pranto
sem o devolver ao mar.


Há em ti raízes
que ninguém vê,
mas que fazem sangrar gerações.


Há em ti dias
em que a esperança
esquece o caminho do voo.


Soluçam-me aves no peito,
o mundo passa ao largo,
e a paz,
sem casa,
chora dentro das próprias asas.


Grita, Venezuela, grita,
porque só o grito —
esse órfão antigo —
acompanha quem ficou
sem chão de Mãe.


Célia Moura, Julho de 2026

Todas as guerras são absurdas e cobardes os que as provocam.
Aliás, todo aquele que faz derramar o sangue do seu "irmão", é assassino!

Só quem muito ama, muito se indigna.

A maior vingança?
Sem dúvida, um sorriso de perdão.

Ontem invadiram meus canteiros,
Espezinharam minhas flores,
Partiram todos os vasos
Do meu jardim
Rasgaram minhas vestes
Ultrajaram meu nome,
Alagaram de sangue
Os meus olhos.
Apedrejaram meu rosto
Ainda de menina
Onde resplandeciam quimeras
Numa rua com nome de poeta
Defronte a tanta gente…
E gritaram urros de vitória,
Zombaram,
Rebolando álcool, chapinhando
No sangue da imbecilidade,
Ocos estes crânios de gente.


Hoje bem tentam devastar
No absurdo da existência
As sementes que guardei
Daquele anoitecer
Parido de Primavera.


Mas eles não sonham,
Nunca o fizeram
Eles não podem pensar,
Foi-lhes vedada a lucidez.


Agora tenho tulipas, cravos,
Roseirais, girassóis
E até ervas do campo a crescer
Num coração que continua a bombear
O mesmo sangue outrora profanado
Numa rua com nome de poeta.


Célia Moura, in "Terra de Lavra"

Retorno à minha essência e volto a ser de mim,
ainda que enlutada,
percorra sozinha no grito das gaivotas
as vagas do nosso amado mar.


Saber-te em mim será sempre a minha maior alegria,
ter sido tua um dos melhores e maiores êxtases que alguma vez uma mulher possa ter experimentado.
Em ti me enrosco todas as noites lambendo-te as feridas dos dias onde te deixei liberto, à deriva de todos os meus caprichos,
e foram tantos!


Por vezes tenho a sensação de que ainda estás presente
e a saudade fervilha nesta ausência de nós.
É como se te visse e ouvisse boquiaberto e feliz
enquanto eu tentava arranjar os desalinhados cabelos
no temporal dos sentidos:
“ meu amor, como és linda! A mais bela das mulheres, é minha!”


É por aí que eu vou quando tudo o que ouço agora é uma cruel e inoportuna mente gritando-me exactamente o oposto
quase até à loucura!


Perdoo-te teres partido, mas nunca te teres tornares silêncio,
cobardia e bicarbonato de sódio
neste corpo onde explodem lavas,
corpo de primícias tuas
onde navegaram navios
e tuas mãos de menino.


Célia Moura, poesia

⁠Bebo de ti o limbo de todas as manhãs e só nos teus olhos me liberto.

Como não haveria de ser eu um lobo da estepe e um mísero eremita em meio a um mundo cujos objetivos não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! Não consigo permanecer por muito tempo num teatro ou num cinema. Mal posso ler um jornal, raramente leio um livro moderno. Não sei que prazeres e alegrias levam as pessoas a trens e hotéis superlotados, aos cafés abarrotados, com sua música sufocante e vulgar, aos bares e espetáculos de variedades, às feiras mundiais, aos corsos, aos centros culturais e às grandes praças de esportes. Não entendo nem compartilho dessas alegrias, embora estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tanto anseiam. Por outro lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes — aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem ar nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.

⁠Mulheres Com Asas De Falcão

As mulheres com asas de falcão
entoam hinos ao anoitecer,
vestem-se de organza e caxemira
despindo a alma sorrindo
perante os dentes assassinos das hienas.

Elas cuidam, acolhem, mimam
e choram às escondidas
toda a dor das ausências
peregrinando gargalhadas, inventando estórias
para seus filhos
os delas, e os que a vida lhes concedeu.

As mulheres com asas de falcão
esquecem seus soberbos corpos
em prol de um Amor maior
e sorrindo, continuam chorando em segredo
no silêncio de seus quartos fantásticos
de rubras rosas, rubis e frescas açucenas.

E antes de voarem rumo ao infinito
deixam suas vestes pelo chão do tempo
na doçura que teimam em guardar,
meninas, mulheres com rostos de quimera
sobreviventes ao desdém.

⁠Divina é a semente lançada por tuas mãos em terra alheia.

⁠Começamos a morrer quando já poucos sentem a nossa falta, porque os que nos amavam já partiram, levando com eles um pedaço de nós.

Começamos a morrer quando nos olhamos no espelho e já não nos reconhecemos mais, mas sobretudo quando deixamos de nos sentir amados, quando se riem dos nossos sonhos mais básicos, inclusive banais, e tudo à nossa volta se torna imenso, vazio, denso e insignificante.