Coleção pessoal de prof_tonny_feittosa_anjinho

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Assim foi soprando o vento, levando aos poucos à areia do tempo, enrugando o que era novo, tornando flácido o que um dia fora impecável. A ferrugem se instalou, silenciosa, em cada junta, em cada dobra da esperança. E assim foi a espera — a espera daquilo que nunca chegou.


Até que o tempo cobrou. Cobrou sem pena, cobrou na dor. E tudo o que era radiante como a aurora, como um amanhecer promissor, foi-se dissolvendo na poeira do esquecimento.


A beleza, antes inteira, partiu-se pouco a pouco, agarrada aos gentis vermes que decidiram, enfim, abraçá-lo após tanta solidão. E foi então que, pela primeira vez, no limite gelado do abandono, sentiu algo doce e caloroso: o abraço — segundo ele — da única coisa que realmente precisava de seu corpo.

O Tito


(por Tonny Feittosa)


Eu podia vê-lo se aproximar,
com sua única blusa sem manga.
O corpo brilhava, refletindo o suor —
o que esperar de uma manhã de trabalho?


Ninguém te enxerga, Tito.
Ninguém quer te observar.


Vens sorridente,
com uma janela entre os dentes.
Mas só eu posso brincar.
Gritei:
— Tá com sede!?
E tua voz ecoou:
— Com dois real pode matar!


Ninguém te enxerga, Tito.
Ninguém quer te observar.


De pés descalços, segues a caminhar.
Que lindo te ver atravessar a rua!
Mas só eu, por te amar,
posso te enxergar.


Ninguém te enxerga, Tito.
Ninguém quer te observar.


O carro brilhante veio te encontrar —
não viu o Tito.
Só eu vi,
que ali, o meu lindo sorriso
parou de brilhar.


Eu te enxerguei, Tito.
Eu te observei, Tito.
Mas, infelizmente,
neste mundo,
a gente não vai mais se encontrar.