Coleção pessoal de pensador
Sou um escritor preguiçoso. Minha ideia de paraíso é não escrever. Por outro lado, sou claramente compulsivo em relação à escrita.
O que faz eu me sentir bem com a minha travestilidade é essa androginia que eu passo para as pessoas, de ser uma metamorfose ambulante, de não ter um contexto, uma definição. Eu sou aquilo que seus olhos veem.
Se eles pudessem, o meu pai e a minha mãe tinham criado uma redoma de vidro e me botado dentro, pra não me chegar nenhuma chateação, nenhuma palavra de desabono.
Todos esses conjuntos de demandas que fazem as travestis serem postas em uma segunda categoria de cidadãs... isso talvez seja o elemento carregador das minhas baterias para ir em frente e tentar vencer os desafios que me são impostos como afirmação.
Eu acho que assim, a partir do momento que você se impõe, mesmo com toda a androginia em busca de sua felicidade, eu acho que você tá dando um grande passo pra se encontrar.
Costumo comparar a travesti a uma ilha, só que ao invés de estar cercada de água por todos os lados está cercada pela violência.
Estar aqui, sob o brilho destas luzes, é o mais perto que muita gente chega de estar em um palco. De realizar seus sonhos.
Se eu pudesse escolher um lugar e uma época para viver, eu moraria aqui, em Londres. Na década de sessenta. Devia parecer o centro do universo.
As lentes dos fotógrafos mais parecem com microscópios, na verdade. E eu sou o inseto no prato. Eles estão arrancando minhas asas e minhas pernas. Uma por uma. E fazem anotações sobre como eu reajo.
