Coleção pessoal de pensador
Não posso afirmar que ando por aí sofrendo com a sua morte. Sua morte era esperada e desejada. É claro que às vezes sinto um vazio. Mas uma pessoa não se deve enterrar viva.
Todos precisam aprender a viver. A cada dia, me esforço um pouquinho. A dificuldade principal está em saber quem eu sou e onde estou. É como procurar na escuridão. Se alguém me amasse como sou, talvez, finalmente, me pudesse encontrar.
Voltamos de novo
Com sorriso no rosto
Com sangue nos olhos
Linhas no meu bolso
Anos-luz à frente
Pronta pra dar o troco
Ressurgi das cinzas
Reconheci meu corpo
A rosa é linda
Mas tem espinhos, Abel é bom
Mas tem Caim
Será que sempre vai ser assim?
Me dê sua mão, estou sozinha
Será o perfume que é de jasmim?
O cheiro é bom, vem até mim
Será que estou perto do fim?
Quantas vezes eu chorei mesmo sem ter feito nada?
Mas de uma coisa eu sei: aqui se faz, aqui se paga
Sinto que o karma é forte mas minha fé não se apaga
É preciso a tempestade pra lavar, pra levar o que sempre agarra
Ausência quer me sufocar
Saudade é privilégio teu
E eu canto pra aliviar
O pranto que ameaça
Difícil é ver que tu não há
Em canto algum eu posso ver
Nem telhado, nem sala de estar
Rodei tudo, não achei você
Teu olho despencou de mim
Não reconheço a tua voz
Não sei mais te chamar de amor
Não ouvirão falar de nós
A gente se esqueceu, amor
Certeza não existe não
E a pressa que você deixou
Não vem em minha direção
Construção
Eles são donos do mundo
e não sabem disso.
Daqui os vejo
bem no alto contra o espaço,
eles vem e vão
pássaros sérios
deslocando nuvens
Daqui os vejo criando
essa explosão precisa
de ferro cimento e paciência
— agora um bem pensado
esqueleto de superpostas vigas.
E a gente fica cismando como é belo
o que eles criam e o simples permanecer
de um operário no alto da sua construção.
O pequeno quadrado (que será elevador)
desce e sobe por ossos de madeira
do poço por eles trabalhado.
Eles constróem o mundo
eles divididos mas tão fortes
eles são o mundo
e não se importam.
Eles levantam os castelos de agora
castelões provisórios no alto de suas torres.
