Coleção pessoal de pensador

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⁠Quando as pessoas têm uma opinião sobre você, é muito difícil mudá-la. Elas já julgaram você, gostam de rotular e desejam que você permaneça com esse rótulo para sempre. Você foi alocada em um lugar na sociedade delas, e é aí que querem que você fique.

⁠Sinto como se tivesse sendo jogada no meio do oceano, sem ninguém para me lançar uma boia salva-vidas.

⁠(a dor nos traz anseios
tolos – como fazer a Terra
voltar meses, anos atrás, como fez
aquele herói extraterrestre
do filme e do álbum de figurinhas
que juntos colávamos
em muitas manhãs de domingo –
ou olhar uma estrela
e imaginar que você
dorme em algum lugar
ali por perto –
e nos dá a medida do tempo
e continuamos sem entender
medida alguma, aguardando
o barco retornar de Delfos
para que possamos, também,
nos despedir definitivamente
desse nosso
bosque liliputiano)

⁠eu não entendia
& ela se mexia tanto ao meu lado
& aqueles bancos apertados
o ar condicionado gelando tudo
(os brincos dela, o meu humor)
mais de uma hora cruzando
ruas, avenidas, parágrafos –
o livro gritando alto
num mundo surdo
depois de arrumar-se
mais algumas dezenas de vezes
passou batom nos lábios
o sol já estava no meio do céu
quando ela se levantou
foi então que percebi que
três pequenos pássaros
voavam em suas costas

⁠entre noites
melancólicas,
ruas sem saída,
dia após dia
cultivando a ferida
aberta,
custou-me,
nuvens
perdidas,
passeios
só,
suor a contragosto,
frio,
no fundo do poço,
raiva cobrindo
o corpo
todo,
contas a pagar,
falta de ar,
febre amarela,
febre do rato,
tifoide,
deixando de lado
o amor
(sopro
cosmo
humano)
disenteria,
erros calculados,
a poesia?

⁠continua
a agonia do futuro
rezando em mim
como um relógio

⁠JUGULAR
o gato afia as espadas de samurai
em cada uma de suas patas
nada escapa de tal arte atroz:
da jugular da tarde
salta um sangue viscoso
para dentro da noite veloz

⁠Às vezes me bate
a súbita vontade
de arrancar todas as roupas
com uma tesourinha
cirúrgica porque
eu preciso
andar sobre quatro patas
Um cavalo que sobe o rio
para testar
a tração das pernas

⁠Diz a Constança
que escrever poesia tem
Que ter um clique
Uma coisa que não há quem me salve
Nada clica
pra mim

⁠Você começa a bater os dentes
eu faço isso também
eu ranjo
o maxilar para frente e para trás
a noite inteira
eu leio um poema
eu me preocupo com seu dentes
com os sonhos inquietos
você respira
barulhos de sono
A luz apaga
Eu cheiro seu cabelo
e esfrego o nariz
e a boca
na sua testa
Eu leio um poema e você range os dentes

⁠Eu vou te buscar com meu carro
Eu vou me inclinar para abrir a porta
pra você
por dentro
uma mão no volante
Meu cabelo vai me acompanhar
para abrir a porta pra você
Eu acho esse gesto
mais bonito
do que sair do carro
para abrir a porta do lado de fora
Daí um beijo, oi, você entra
E depois, eu, dando a volta
Um sorriso
depois do silêncio
de ter ficadosozinha no meu carro por um tempo
O tempo da minha volta ao meu lugar
Que meu corpo e meu carro
nasceram fechados
Abrindo por dentro
a inclinação
um braço no volante alavanca
o cabelo que cai por cima do ombro
que se esforça
a mão que encaixa na maçaneta
um anel pequeno

⁠Lágrima

A cada hora
o frio
que o sangue leva ao coração
nos gela como o rio
do tempo aos derradeiros glaciares
quando a espuma dos mares
se transformar em pedra.
Ah no deserto
do próprio céu gelado
pudesses tu suster ao menos na descida
uma estrela qualquer
e ao seu calor fundir a neve que bastasse
à lágrima pedida
pela nossa morte.

⁠Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

⁠Juro pelos meus olhos
que te venho pedir
o apocalise da esperança

⁠Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

⁠Infância

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

⁠O futuro que vemos não está definido, há infinitas possibilidades baseadas nos caminhos que escolhemos.

⁠Os homens que você perdeu… Eu consigo ver que tinha carinho por eles. Conheço muito bem esse desejo de vingança. E a dor esmagadora de perder pessoas próximas a você. Não posso ficar parado e permitir que outra pessoa experimente o que eu vivi.

⁠Eu só quero viver minha vida, em um mundo sem você!

⁠Este novo mundo não tem limites. Ele é o seu lar, mas também é o lar de muitas formas de vida. Posso ver isso. Neste mundo, toda vida vai caminhar em direção ao futuro… de mãos dadas.