Coleção pessoal de pensador
Vivo andando no mundo
Na gaiola da saudade
Igualmente um passarinho
Voando solto nos ares
Querendo água e comida
Pra matar minha vontade
Deixo minha terra chorando
Pra morar em outra cidade
Aguenta firme, o futuro chega
Amanhece, amansa
A sorte se lança
Segue a vida sem cessar
Dia após dia
O mundo se vicia
E tudo é pra já
Com quantos carros
Se faz a estrada
Que eu quero passar?
Arranha-céus
Pendure o seu véu
Chuva forte sem parar
Fumaça que atrai
Famigeradas
Pessoas fora do lugar
A vista enevoada
Situações marcadas
Descaso, desdém, desilusão
Eu prefiro um abraço, um olhar mais direto
Um aperto de mão, papo reto
Não há força maior do que a força do gesto
A verdade não mora na palavra
Mas na intenção de quem a propaga
A verdade em meus olhos e eu enxergo agora
Olhos vermelhos de chorar
Um olhar de adeus de quem vai embora
Sua poesia não tem mais valia
Não tem nada a ver com o seu dia a dia
São palavras doces numa boca amarga
Boca que dita, que não cala
Quando fala fere, invade a casa
Livre é o amor que nasce nas estações
E invade o templo das pessoas
A revelia abre alas
Dentro dos corações
Ecoa nas periferias da imaginação
De assalto me leva pro meio da troça
O bloco não para pra tristeza
E lá vai o amor travestindo a multidão
Feliz é o amor que nasce no carnaval
E quer se mostrar pela cidade
Nos outbus, nos painéis
Atravessando o tráfego cambaleando
Febril é o amor que ferve nos quarteirões
E quer explodir fantasiado
Vai pelas ruas e avenidas
Rindo e colorindo a vida
Eu sou tão rápido que aperto o interruptor de luz no meu quarto e pulo na cama antes que o quarto escureça.
Pai, que estranho falar essa palavra. Eu não sei se já disse ela algum dia, mas devo ter dito, porque tenho uma ou duas memórias nossa. Eu sinto muito por você, pelo que a vida nos pregou. Pelas escolhas que um dia não foram as melhores. Eu sinto muito por você não ter me visto linda no vestido de formatura da escola. Por não sentir ciúmes do meu primeiro namorado. Por não pular de alegria junto comigo no dia em que passei na faculdade. Sinto muito por você não ter me acompanhado até o altar um dia. E por você nunca ter conhecido sua neta.
Não deu certo com a minha mãe, né. Mas isso é tão comum, já reparou? Eu tive um monte de colegas com pais separados. Mas, felizmente, poucos com o pai ausente. Às vezes, quando vou jantar fora e vejo o pai sozinho com as crianças, tenho vontade de ir lá perguntar o que fez ele ficar. Assim como queria te perguntar, um dia, o que te fez ir.
Essa carta é para você, pai ausente.
Talvez você até se ausente de receber essa mensagem, mas eu gostaria de tentar, mesmo assim.
Talvez você saiba como é crescer sem pai. Talvez você tenha vivência dessa ausência e se recorde do gosto amargo disso.
Mas talvez você não saiba que, por trás de uma decisão tão fácil para o homem que é decidir não estar, moram efeitos devastadores.
A criança não amada.
A mulher sobrecarregada que precisa dar conta de tudo, mas não porque ela é forte como uma heroína. E sim porque não há outra forma.
Mas existe algo que você também não sabe. Que essa criança terá filhos.
Se for um menino, ele será pai. E não existe sensação mais angustiante do que ser pai sem ter um pai.
Então, esse menino não terá um pai para conversar sobre seus dilemas de paternidade.
E tudo isso porque você não quis. Você não pôde. Você esteve ocupado. Você achou que não era sua responsabilidade.
A responsabilidade é sua. Você deve ter a iniciativa.
Corra atrás dos seus erros, construa o seu futuro de forma ativa e responsável. Nunca é tarde.
Não espere seu filho crescer, cresça com ele.
Agora.
Não é para o colo de vocês que o seu filho vai correr quando precisar chorar. Ufa, né? Não é o carinho dele que vocês vão sentir depois de tomar várias rasteiras da vida. Não são aquelas mãozinhas pequenas que vocês vão segurar depois de um dia daqueles no trabalho.
Felizmente, você não terá nenhuma preocupação, afinal tem alguém cuidando muito bem da sua criança por você. Felizmente, você não vai perder o sono quando seu filho for para a balada. Você não terá vontade de socar a parede quando a criança faz birra. Você não terá cabelos brancos antes da hora. Não vai dormir exausto depois de ajudar na lição, levar na natação, no balé, no inglês. Não vai chorar ao ver seu filho chorar também.
É uma pena, caros homens que só são pais em uma certidão de nascimento - às vezes, nem isso -, que vocês não possam ter nada disso. Nem a parte boa, nem a ruim. Vocês não saberão o que é amor incondicional. O que é ter um companheiro para o resto da vida que vai te amar com todas as forças que ele tem. Mas, sabem, fiquem tranquilos. Seus filhos crescerão saudáveis, inteligentes, com alguns traumas, mas nada que vá fazê-los se tornarem pessoas fracas. Muito pelo contrário. Porque vocês deixaram seus bebês com mães. Mães de verdade. Que às vezes sentem vontade de fugir, se trancam no banheiro para chorar, ficam exaustas e irritadas com os choros, as manhas, as malcriações. Essas mães conseguem ter os mais variados sentimentos e ainda assim amar tanto seus filhos e se tornarem a mulher-maravilha por eles.
Eu queria você e você não aparecia, mesmo indo me buscar. Eu não conseguia sentir a sua presença, mesmo abraçando a sua pele fugidia. Eu não tinha você, e nunca soube dizer o que era pior, se a sua ausência em corpo ausente ou em corpo presente.
