Coleção pessoal de nilton_h_f_neves
Eu a amei — mas devia ter me amado mais.
Eu a quis — mas devia ter me tido em paz.
Fiquei parado no tempo, preso ao que sonhei,
achando que era pra vida… e aprendi do jeito que não pensei.
Amei demais.
E hoje eu me olho por trás,
e fico perguntando:
por que não notei sinais?
Por que não lutei, não fiquei, não quis mais?
A resposta veio fria,
veio crua, veio voraz:
é que eu já não me tinha,
eu tava longe demais.
Distante de mim,
longe de ser
o que eu queria sentir,
o que eu queria viver.
Então deixei ir…
porque não tinha o que oferecer.
Agora eu me encaro e me pergunto:
por que é que eu me quero mais?
O que faz eu me querer profundo
se já não tenho aquilo que eu queria atrás?
Sinto o peito oco,
sinto o mundo mudo,
sinto o passo curto,
sinto o fio seco, bruto.
É neblina densa cobrindo o que sou,
é o silêncio de tudo aquilo que já me guiou.
Mas mesmo assim…
eu me quero mais.
Quero paz, quero força, quero voltar capaz.
Quero brigar por mim, por tudo que perdi,
quero viver demais, mesmo depois do que já vivi.
Eu quero paz.
E querer paz
é finalmente querer ser meu —
de verdade —
de uma vez por todas
e nunca menos,
nunca mais.
fico a pensar
qual mensagem não seria ignorada,
talvez nenhuma.
talvez o problema seja eu
ou o algoritmo,
ou o universo que ri da minha cara.
será que ela namora,
ou só não dá bola?
talvez ache chato um cara qualquer
tentando conversar sem assunto.
e eu até entendo —
eu mesmo me ignoraria.
pensei em mandar um poema,
mas quem lê poema hoje em dia?
talvez ela curta jiu-jitsu,
ou praia, ou só o próprio silêncio.
e eu aqui,
achando que uma rima meia-boca
vai chamar atenção de alguém
que nem quer ser chamada.
então que seja mais uma mensagem ignorada,
mas pelo menos é minha.
sem emoji, sem joguinho,
só um cara sendo trouxa
com um pouco de estilo.
“Num se apaixone por mim, visse”
Num se apaixone por mim, visse,
me trate que nem ventania,
daquelas que passam ligeiro,
derrubam flor e poesia.
Sou tropeço de estrada seca,
sou poeira, sou catinga,
sou promessa que o tempo leva,
sou tristeza que nem se finda.
Sou canto de galo cansado,
sou vaqueiro sem curral,
sou alma de chão rachado,
sou sombra de um bem e um mal.
Num me olhe com doçura,
que eu só trago amargura,
sou ferida aberta no sereno,
sou abraço que vira veneno.
Tu tem amor só pra tu,
guarda ele, num joga no breu,
meu peito é cacimba vazia,
meu riso é só canga e aridez.
Se for pra me ver, veja de longe,
feito quem vê o sertão à tarde,
sou cachorro sem dono na rua,
sou saudade que nunca arde.
E se eu sumir na poeira,
num chore, nem venha atrás,
deixa eu ir feito boi na invernada,
sem rumo, mas em paz.
Me trate como fim de feira,
como resto de forró,
como alguém que já foi embora,
e só deixou o pó.
