Coleção pessoal de NandaaGoncalves

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Talvez, o Luar


Ele é lindo como o luar,
silencioso e distante,
brilha só o suficiente
pra eu me perder no olhar.


Seus olhos — calmaria e abismo —
guardam paz e solidão,
como quem já viveu o amor
e ainda sente sua extensão.


Os cabelos, negros como a noite,
guardam segredos que o vento não diz,
e os lábios… ah, os lábios —
tocam o ar e fazem sonhar feliz.


Seu toque é quente como o verão,
um carinho que me desarma,
um instante e o mundo some,
fica só o som da alma.


Mas ele não é meu…
ou talvez pudesse ser,
num outro tempo,
num outro céu,
onde o luar nos deixasse acontecer.

As cores que o tempo levou


Quando eu era criança, o mundo parecia pintado à mão.
O céu tinha cheiro de tarde quente,
e o vento parecia brincar comigo.
As cores eram vivas — não só nas coisas,
mas dentro de mim.


Agora, aos vinte e dois, olho o mesmo céu
e ele já não me devolve o mesmo brilho.
As cores continuam lá,
mas meu olhar parece cansado de reconhecê-las.
Talvez não sejam as tardes que mudaram,
mas a forma como eu as sinto.


Na infância, o tempo era eterno.
Hoje, ele corre — e leva embora o encanto das coisas simples.
Mas às vezes, quando o sol se despede devagar,
eu fecho os olhos e finjo ser criança de novo.
Só pra ver o mundo com aquele mesmo coração colorido.

Entre o que foi e o que é


Eu tô com alguém bom, alguém que me faz bem.
Mas ainda carrego ecos de quem me feriu.
Não porque eu queira voltar,
mas porque certas lembranças não sabem ir embora.


Meu corpo já entende o novo toque,
mas minha alma, às vezes, ainda procura o antigo.
E isso me confunde — me parte.


Ele me fez mal, eu sei.
Mas há pedaços de mim presos nas memórias que ele deixou.
E o amor, mesmo quando dói,
tem um jeito cruel de se fazer presente.


Talvez um dia eu acorde e o passado não pese mais.
Talvez um dia o novo amor ocupe todo o espaço.
Mas, por enquanto,
vivo nesse meio-termo —
entre o que me destruiu
e o que tenta me reconstruir.




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Entre o que tenho e o que me falta


Tenho um amor que me acolhe,
amizades que me sustentam,
caminhos que me fazem crescer…


E mesmo assim, sinto um vazio.
Não de coisas, mas de momentos,
de sensações que ainda não vivi,
de um brilho que não se compra.


A vida é essa dança silenciosa:
entre a gratidão pelo que construí
e a curiosidade pelo que ainda me chama.

Chuva na infância, sol no futuro



Em um dia de chuva fina e céu fechado,
fui deixada, sem aviso, sem abraço,
com os olhos marejados e o coração rasgado,
vi meus pais partirem… sem sequer olhar para trás.


Tinha três anos e uma camisa laranja,
uma saia jeans e a alma em pranto,
o mundo tão grande e eu tão pequena,
perdida no tempo, sem um canto.


Fui criada por vozes frias, mãos distantes,
que diziam cuidar por obrigação.
Erguemos o lar entre irmãos sobreviventes,
com amor inventado na força da união.


Dia dos pais era só mais uma dor,
um desenho vazio sem destinatário.
Guardei segredos que pesavam demais,
num peito sem colo, num lar temporário.


Procurei amor onde não havia,
em rostos estranhos e toques vazios.
Mas hoje, enfim, encontrei abrigo,
entre braços que secam meus desafios.


E agora, à beira de um novo caminho,
sonho com filhos, com festa, com lar.
Prometo a eles o que eu não tive:
amor de sobra para transbordar.

Outra Cor

Fale de mim ao mundo,
conte as histórias de quem eu fui,
mas saiba — aquela já não sou eu.
Rotular é fácil quando não se enxerga além,
quando o passado mal contado vira máscara
para encobrir o que mudou em mim.

Me olhe de novo,
com olhos limpos da lembrança antiga:
minha cor favorita já não é a mesma,
meus sonhos agora são outros,
minha alma, antes partida, se refez.

Eu vejo — ah, como vejo —
os risos escondidos, o deboche nos cantos,
as verdades distorcidas que contam sobre mim.
Mas não me importa:
não são suas palavras que me prendem,
não são seus olhares que me definem.

Se ao menos viessem perto,
veriam as mentiras desmoronar,
sentiriam no silêncio a minha força,
e no meu sorriso, a dor transformada.

Porque eu não morri no fim que você lembra.
Eu renasci, inteira, mais viva, mais minha.
E se falar do que fui alivia teu peito,
continue — o tempo saberá devolver.
A vida é o próprio karma,
e eu sigo em frente, leve.

Aquela Noite

Era tarde, mas o mundo parecia calmo,
a rua deserta, só nossas sombras no asfalto.
Andávamos devagar, como quem não quer chegar,
e as palavras vinham soltas, sem pressa pra acabar.

Eu fumava, como sempre,
ele não — já tinha deixado.
Mas por uma noite, por mim,
ele pegou um cigarro calado.

Entre tragos e risos baixos,
falávamos de tudo e de nada.
O tempo parecia suspenso,
como a fumaça entre nós espalhada.

O cigarro tremia em seus dedos,
mas o olhar... ah, o olhar era firme.
Não era sobre nicotina ou vício,
era sobre estar, por inteiro, comigo naquele crime.

Talvez tenha sido um gesto bobo,
mas ali, eu entendi tanta coisa.
Tem amor em cada renúncia breve,
em cada entrega silenciosa e corajosa.

A brisa levava a fumaça,
mas a lembrança ficou no peito.
Naquela rua, naquela noite,
foi quando tudo pareceu perfeito.

Amar Você em Segredo

Amo você no silêncio mais fundo,
onde o mundo não pode escutar.
Nos gestos pequenos, nas pausas do dia,
nos olhos que não ousam falar.

Guardei teu nome em cada verso calado,
em cartas que nunca enviei.
E o peito, coitado, tão apertado,
abraça um amor que não revelei.

Vejo você rindo com outros caminhos,
e finjo que não dói saber.
Mas todo sorriso teu, mesmo alheio,
faz meu coração se desfazer.

É cruel amar assim, em segredo,
ser sombra do próprio querer.
Mas prefiro a dor de te ter no peito
a te perder sem nunca te ter.

Chá de laranja

Estou gripada de novo,
lençóis frios, nariz cansado,
e nessa febre que arde em silêncio
me lembro do teu cuidado.

Você fazia um chá de laranja
com um jeito que só você tinha.
Nem era só o sabor,
era o calor da tua mão na cozinha.

Era doce, era forte, era cura,
e eu, doente, me rendia.
Hoje faço igual, passo a receita,
mas nunca fica como naquele dia.

Falta o modo como mexia a colher,
a pausa pra ver se estava bom,
o carinho que você punha
antes de me entregar na xícara o dom.

Agora, só sobra o silêncio
e a saudade em infusão.
O chá não cura, só lembra
o gosto da tua proteção.

Encontro em Silêncio

Cruzei teu caminho, sem aviso,
os olhos se tocaram, indecisos…
e o tempo, cúmplice, desacelerou,
como quem insiste em eternizar um adeus.

Teus cabelos negros, em suaves espirais,
os lábios entreabertos, quase um sinal…
os olhos castanhos, profundos demais,
e eu… me vi neles, frágil, mortal.

Por um instante, meu peito incendiou,
a chama antiga, que ainda respirava,
mas o passado, cruel, logo soprou…
e o fogo, sem força, se apagava.

O tempo então retomou seu compasso,
meu coração, trêmulo, quis te chamar,
mas restaram só lágrimas, em silêncio escasso,
e a mentira que tentei me contar:

— "Isso é passado."

Mas quem eu quero enganar…
se teus olhos ainda sabem me quebrar?

Retratos que sangram

As horas sussurram nomes antigos,
ecos que dançam na bruma da mente,
vestígios de dias já idos,
que o tempo levou… lentamente.

Há risos que ainda se escondem nos cantos,
e passos que o chão já não guarda,
rostos sumindo em retratos cansados,
num tempo que nunca mais tarda.

Tocava teu nome com dedos de sol,
num mundo onde o céu era perto,
agora só vejo o vulto do ontem,
num espelho partido e deserto.

As lembranças vêm como maré,
invadem, consomem, machucam,
e eu, náufrago de mim mesmo,
nas ondas do que já foi, me afundo e sucumbo.

Se pudesse, voltava no tempo,
pra dizer o que o silêncio calou,
mas memórias não têm retorno…
só cicatrizes que o peito guardou.

⁠Vestígios de Nós

Havia sol nos teus olhos,
mesmo quando o céu desabava.
Teu riso era abrigo,
onde minha dor se calava.

Andávamos entre promessas
com a leveza dos que acreditam.
Mãos dadas, almas nuas,
no silêncio em que os corações gritam.

Mas o tempo, esse ladrão discreto,
roubou os minutos mais doces.
E o que era eterno em nós
se perdeu em caminhos tão tolos.

Guardei tuas cartas no peito,
com cheiro de tardes antigas.
E às vezes, sem que eu queira,
meus sonhos ainda te digam.

Não por falta de amor,
mas por excesso de destino,
fomos dois versos soltos,
no meio de um mesmo hino.

Hoje, te vejo nas esquinas
onde a memória se esconde.
E amo o que fomos um dia,
com a ternura de quem não responde.

Porque amar também é deixar,
e seguir com cicatrizes sutis.
Alguns amores não ficam…
mas permanecem — e nos fazem mais gentis.

⁠Eu Me Reencontrei

Aquela versão do passado…
já não mora mais em mim.
Ficou nas esquinas dos erros,
nas sombras do que já teve fim.

Hoje, sou outra.
Sou mais leve, mas também mais forte.
Caminhei entre quedas e silêncios,
e escolhi a rota mais torta — a que me levou à sorte.

Aprendi.
Com cada tropeço, com cada “não”.
Desfiz as armaduras, limpei o chão,
e deixei florescer o coração.

E no meio de tudo isso,
reencontrei alguém que tinha sumido:
a criança que eu fui,
com olhos curiosos e sorriso colorido.

Hoje sou ela, de novo —
mas com a coragem de quem já caiu.
Com a sabedoria de quem perdeu e achou,
e a alma limpa de quem se abriu.

Aquela minha versão do passado?
Agradeço por ela ter existido.
Mas ela se foi.
E no lugar, ficou alguém inteiro, e vivido.

⁠Fico Feliz por Você

Você seguiu, firme, o seu caminho,
Com sonhos nas mãos e coragem no peito.
Hoje visita o mundo todinho,
Cumprindo promessas, do seu jeito perfeito.

Caminha por ruas que um dia sonhou,
Toca paisagens que antes eram desejo.
Cada passo é prova do quanto lutou,
Cada olhar um novo lampejo.

Vejo fotos, sorrisos, conquistas no ar,
E meu peito se enche de alegria.
Você foi em frente sem nunca parar,
Transformando esperança em dia.

Fico feliz por você, de verdade,
Por ver que chegou onde quis estar.
Você é um espelho de liberdade,
De quem ousou simplesmente voar.

⁠Eclipse Entre Nuvens

Deitados no quintal, num velho lençol,
Esperávamos a lua vestir seu véu.
O mundo em silêncio, o céu tão desigual,
E as nuvens dançando devagar no céu.

Um eclipse lunar — promessa tão rara,
Mas a noite insistia em esconder.
Entre os vãos das nuvens, a luz se preparara,
Mas logo sumia, sem se oferecer.

Tuas mãos nas minhas, frias, caladas,
Teu olhar perdido em sombras e bruma.
E as nuvens, como mágoas mal disfarçadas,
Cruzavam a lua, cobrindo-a de espuma.

Falamos tão pouco, sentindo demais,
Como se a noite soubesse o que fomos.
A lua se eclipsa, e nós — tão iguais —
Nos perdemos em silêncios que não domamos.

O céu chorava em nuvens sem cor,
E eu quis guardar aquele não-ver.
Porque às vezes até o amor mais amor
Se apaga sem a gente perceber.

Aquela Nossa Foto

Na tarde calma, sob o céu sereno,
Sentados lado a lado, tão ameno,
Num banco simples, moldura de amores,
E sobre nós, um arco de flores.

A praça guardava silêncio e canção,
O tempo parou naquela estação.
Teu riso leve, o meu olhar inteiro,
O mundo cabia num clique ligeiro.

As flores sorriam em volta da cena,
Como se soubessem da alma serena
Que ali repousava, sem pressa, sem fim,
Naquela imagem: você e eu, enfim.

Hoje revivo o instante encantado,
Mesmo que o tempo já tenha passado.
Pois basta lembrar — e então me transporto
Àquela nossa foto, ao banco, ao conforto.



Reflexos Vazios

Sinto pena de você,
não por maldade — por saber.
Você anda por aí tentando me achar
em risos que não sabem me imitar.

Olha para outras como quem procura
o eco de uma voz que era ternura.
Toca outras mãos esperando sentir
a firmeza da minha que soube partir.

Mas eu?
Eu não volto por lembrança torta,
nem me refaço em alma que não me comporta.
Sou única — e isso te dói,
porque agora entende o que destrói.

Você diz que seguiu, que esqueceu,
mas cada beijo seu me desmente sem querer.
Você só quer alguém
que te faça esquecer… de me perder.

E sabe o que mais me dá tristeza?
Ver você tentando moldar beleza
em moldes que eram só meus —
e fracassando… vez após vez.

Então siga.
Procure em rostos, copos, conversas.
Mas já aviso: o que é real não se dispersa.
E você vai viver buscando, sem saber por quê,
um pedaço de mim… que só existia em você.


Sou Seu Karma

Não me vista de saudade tardia,
não cole meu nome em nostalgia.
Se hoje a sua culpa te consome,
lembre: fui verdade — não só um nome.

Não me use como arrependimento,
como se eu fosse erro, passatempo.
Fui tempestade, mas também calmaria,
e você partiu como quem nada sentia.

Agora é fácil me pintar de sombra,
fingir que fui engano, cicatriz à toa.
Mas eu fui espelho, fogo e abrigo,
você que não soube ficar comigo.

E se hoje o peso da ausência dói,
não é por mim — é por tudo que se foi.
Não sou castigo, nem passatempo…
sou o reflexo do seu próprio tempo.

Sou o silêncio que grita teu nome,
sou a paz que você não dorme.
Não me chame de lembrança, drama…
aceite: não fui perda — sou seu karma.

[Sem destinatário, como quem escreve para o passado]

Hoje, ao sair do trabalho, aconteceu algo que me fez parar — não nos pés, mas por dentro.

Era fim de tarde, e o sol estava daquele jeito bonito que quase dói de tão calmo. Havia uma brisa fria, suave, dessas que avisam que o dia está acabando. E no ar, aquele burburinho da Copa do Mundo… buzinas, bandeiras, gente sorrindo sem nem saber por quê.

E foi aí que eu vi você.

Virando a esquina, como se o tempo tivesse dado uma volta só para te trazer de volta por um segundo. Nas mãos, um buquê de rosas. No rosto, aquele sorriso que eu nunca consegui esquecer — metade alegria, metade mistério.

Por um instante, tudo parou. O barulho do mundo se calou, e eu fui tomada por uma lembrança tão viva que doeu como se fosse agora.

Mas era só isso mesmo: lembrança.

Você não estava ali. Nunca esteve. Foi só o reflexo de uma saudade antiga, de um gesto que talvez eu quisesse ter recebido, ou talvez tenha mesmo vivido… e perdi.

Fiquei ali parada, como quem espera algo que sabe que não vem. E percebi que, por mais que o tempo siga em frente, tem esquinas que a gente nunca desvira.

Com carinho e silêncio,
[Assinado, talvez por mim mesma]

⁠Renascença

Nas sombras fundas do meu próprio ser,
encontrei dores que evitei viver.
Calei segredos, chorei sem som,
buscando abrigo em mim, onde não há tom.

O peito pesado, o passo arrastado,
coração em ruínas, quase calado.
Mas entre os cacos, brilhou uma luz —
não era o fim, era a própria cruz.

Aprendi que cair não é fraqueza,
é parte crua da natureza.
E que cada lágrima que escorreu,
foi chuva fértil que me renasceu.

Hoje ergo os olhos, vejo o clarão,
não sou o mesmo da escuridão.
Sou mais inteiro, mesmo ferido,
pois cada dor me fez sentido.