Coleção pessoal de mariozanemachado

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A Consciência Integral como Antídoto à Superficialidade Contemporânea

O que o homem necessita entender sobre a trilha existencial é, justamente, o contraponto que mais o fere: a fragilidade ao se opor ao propósito enquanto se distrai com encantamentos oferecidos pela superficialidade. Muitos já se encontram em uma fase sênior de descontentamento, pela ausência de beleza no percurso dos caminhos da consciência integral.

É nesse ponto crucial que ele peca, ao acreditar que detém o controle do "relógio existencial". De repente, vê-se preso às ilusões que o abrilhantaram e o sugaram, esvaziando-o da essência do real propósito de existir.

Olhar para dentro e revisitar os valores é um exercício indispensável para quem busca emergir da ignorância, a fim de migrar para uma alçada superior àquela que a muitos convém.

Sair da conveniência do que encanta, reluz e doura é, sem dúvida, experimentar em completude o mérito de existir.
Que as candeias da tua consciência sejam mantidas acesas, a fim de que não tropeces nas distrações da vida.

Como bem afirmou Viktor Frankl em seu livro Em Busca de Sentido:
"O sentido não é encontrado em abstrações, mas nas responsabilidades concretas."

A travessia — o corte do cordão umbilical e o que permanece

O que esta existência — e a última — têm me ensinado é que, nos processos de cura e aprendizado, exige-se disciplina para não derramar a própria dor sobre o outro. Ainda que pareça insuportável carregá-la a sós, há um saber silencioso que se impõe: toda travessia tem um destino. E, por mais óbvio que soe quando dito de fora, tudo passa.

Há dezoito dias, retornei à casa da minha família para acompanhar um dos processos mais árduos desde que cheguei a este tempo: a despedida da minha matriarca. Foi ali que vivi, de modo definitivo, o corte do cordão umbilical — um processo iniciado há exatos quarenta e seis anos, no instante em que cheguei ao mundo e, por meio daquela mulher, me tornei criatura viva e consciente. O paradoxo se impôs com força: testemunhei o sepultamento de sua matéria enquanto algo em mim era convocado a nascer novamente.

Confesso: a dor foi tamanha que se assemelhou à picada de um marimbondo bravo — súbita, ardente, capaz de desorganizar o chão sob os pés. Naquele instante, quase vi meu mundo se partir. Como dizia minha avó, foi terrivelmente difícil reviver a despedida. A frase, outrora ensinamento, agora se fazia experiência viva, inscrita no corpo.

Doer, doeu, mas passou.
Hoje, oito dias depois daquele adeus, o que permanece é um vazio que dificilmente será preenchido. Não por escassez de tentativas ou de afetos ao redor, mas porque certas presenças são insubstituíveis. No caso dela, ninguém terá competência suficiente para ocupar o lugar que foi fundação, abrigo e origem.

Assim, aprendi que o luto não é apenas ausência: é herança. Carrega-se o vazio, sim, mas também aquilo que foi transmitido, ainda que em silêncio. E talvez amadurecer seja exatamente isso: seguir adiante sem derramar a dor sobre o outro, honrando quem partiu ao transformar a perda em consciência e a travessia em sentido.

Entre o medo e o ir — a hora da despedida

É na dor vivenciada ao longo da vida que aprendemos a nos reconstruir.
Na existência, muitas vezes somos atravessados por fases tão desafiadoras que chegamos a pensar que não resistiremos. Isso acontece porque, por vezes, esquecemos que o verdadeiro intuito do existir é justamente viver, e vivenciar a travessia e seus processos.

Nos últimos dias, experimentei uma das fases mais desafiadoras deste tempo: a despedida da minha matriarca, sobretudo pela incumbência que me foi atribuída, a de instruí-la no caminho de volta para casa, ensinando-a a livrar-se da bagagem do medo de seguir.

Foram dias tão complexos que confesso: até me esqueci de que outrora o fiz com maestria, quando o desígnio era menor e não requeria tanto sentimento envolvido. No entanto, estar vestida da própria pele — sendo eu agora a filha, e ela, a mãe — quase me fez trepidar. Quero dizer: cheguei a desejar sair da roda e transferir tanto o papel quanto a responsabilidade a outrem.

Porém, aquele momento que parecia interminável fundiu-se de mãos dadas ao crepúsculo, hora tão reverenciada por aquela mulher aguerrida durante os cultos realizados diariamente, desde que encontrou seu maior refúgio: a consciência do existir.

Finalizada a travessia dela, sentei-me na pedra posicionada aqui dentro de mim, à esquerda do peito, e chorei. Não pela sensação de dever cumprido, mas pela saudade imensa das lembranças de tudo o que vivemos — impressas em mim desde que este meu mundo é mundo.

A vida é essa efeméride que habita o tempo: frágil, breve, mas intensa o suficiente para nos atravessar.
É uma matéria que se molda às estações que cada um vive: ora floresce, ora cai em silêncio, ora amadurece para depois se desfazer no vento.

O que hoje é lembrança, ontem foi presença — carne, gesto, instante que respirava conosco.
E o que amanhã será apenas um vulto, talvez não passe de um eco dos sentimentos que deixamos escorrer pelos dedos, ressentidos por não termos aproveitado as oportunidades presentes que a existência, generosa e impermanente, nos ofereceu.

A vida é assim:
um convite que se renova,
um aviso que sussurra,
um tempo que não volta,
mas que insiste em ensinar.
Ensinar a amar.
Amar com profundidade.

—“De volta para minha casa.”

Não! O passado não foi sequer estação, quiçá abrigo. Lá, onde mora a tua memória hoje, é apenas lembrança do que restou do teu velho eu, deteriorado pela frustração de ter acreditado que tudo dura para sempre.

Mari Machado

Olhos enferrujados

Há quem pense e acredite piamente que o passado é roupa que se deve customizar: com remendos, bordados e até estilização em pérolas.

Não! O passado não foi sequer estação, quiçá abrigo. Lá, onde mora a tua memória hoje, é apenas lembrança do que restou do teu velho eu, deteriorado pela frustração de ter acreditado que tudo dura para sempre.

Das ruínas da tua carne — efêmera e cruel por te fazer acreditar na formosura material e na ferrugem do ouro que fez brilhar os teus olhos, hoje cansados de esperar —, iludidos com a beleza que te acariciava como quem te quisesse bem.

Tempo, senhor das descobertas que, durante um longo período, foram encobertas pelo teu ego, teu medo e a tua vilania — que até hoje insiste em acreditar e se perder nas ilusões da matéria.

Mari Machado

A vida, sendo viagem de experiências (maduras ou infantis), passa sempre.

Mari Machado

A hora do despertar


É natural ao ser humano relutar diante da experiência do luto, ainda que saiba, em sua consciência mais íntima, que tudo aqui é passageiro e nada é permanente. Há, porém, uma audácia silenciosa: a crença de que jamais irá partir, mesmo sabendo que cada um chega ao mundo com os dias contados.

A vida, sendo viagem de experiências (maduras ou infantis), passa sempre.

Ao desembarcar na estação da existência, o homem deixa para trás entes que sofrem com sua partida e, antes mesmo de chegar, muitos já anseiam pelo seu retorno à casa primeira.

Ao despertar do sono letárgico do período gestacional, o homem chora ao nascer: choro de socorro diante do novo. Contou cada fase para essa oportunidade, mas, ainda assim, sofre o medo de enfrentar o desconhecido: outra vida, outro tempo, outra história.

Assim como o nascimento, a morte pode ser dolorosa, sobretudo para aquele que se acostumou ao corpo material que lhe foi emprestado. Esqueceu-se das responsabilidades assumidas outrora, por livre escolha, ciente do livre-arbítrio de que desfrutaria nesta passagem.

Muitas vezes, o homem se permite a ilusão de ser seu próprio deus, entregando-se às coisas efêmeras e acreditando que detém o controle, sobretudo do seu próprio corpo e mente, jogando- se integralmente às trivialidades materiais. Porém, na hora do retorno à estação primeira, perde-se em descontentamento, arrependendo-se de ter lançado fatias da própria existência ao vento. E, como criança, o velho chora ao perceber que a única coisa que já não possui é tempo para recomeçar, reconstruir, reviver ou corrigir a rota.

Para que a vida não lhe soe como um fardo pesado, é necessário reconhecer, antes de tudo, seu próprio eu e as atribuições assumidas em tempos pretéritos. Pois todo aquele que escolhe retornar à vida jamais estará isento de, um dia, experimentar a morte.

Mari Machado