Coleção pessoal de marcelo_monteiro_4
" O LUTO COMO PURIFICAÇÃO AFETIVA À LUZ DO ESPIRITISMO.
“Determinamos o encarceramento nas próprias criações inferiores.” Tal advertência de Francisco Cândido Xavier, pela voz espiritual de Voltei através de Irmão Jacob, representa uma das mais profundas reflexões sobre o sofrimento humano. O luto, ante a ótica espírita, não constitui punição emocional nem expressão de fragilidade da alma encarnada. "
JÓIAS DEVOLVIDAS.
Do livro: Quem Tem Medo da Morte?
de Richard Simonetti.
“Jóias Devolvidas” é um dos contos mais conhecidos e emocionalmente penetrantes da literatura espírita contemporânea. A narrativa apresenta uma reflexão profunda sobre o apego humano, a transitoriedade da matéria e a verdadeira natureza dos vínculos afetivos sob a perspectiva da Doutrina Espírita.
O enredo gira em torno de uma mulher que perde prematuramente os filhos e mergulha numa dor devastadora. Revoltada contra Deus e incapaz de aceitar o sofrimento, ela procura um sábio homem espiritual em busca de explicações. Esperava consolo imediato, talvez alguma fórmula para anestesiar a própria angústia. Entretanto, recebe uma comparação inesperada.
O mentor lhe pergunta se ela possuía jóias valiosas guardadas em casa. A mulher responde que sim. Então ele questiona:
“Se alguém lhe emprestasse jóias preciosas durante alguns anos e depois viesse buscá-las, você acusaria essa pessoa de roubo?”
A mulher responde negativamente, afirmando que aquilo que é emprestado continua pertencendo ao verdadeiro dono.
É nesse instante que surge o núcleo filosófico do conto.
O sábio explica que os filhos não pertencem aos pais em sentido absoluto. São Espíritos imortais confiados temporariamente ao cuidado da família terrestre. Deus os concede por empréstimo sublime para que haja aprendizado, reencontro, reparação e amor. Quando regressam ao plano espiritual, as “jóias” são apenas devolvidas ao verdadeiro proprietário da Vida.
A alegoria é profundamente coerente com os princípios espíritas sobre reencarnação e sobrevivência da alma. Segundo O Evangelho segundo o Espiritismo, os laços familiares transcendem o túmulo, e a morte física não rompe os vínculos do afeto legítimo. O corpo perece, porém o Espírito continua sua jornada evolutiva.
O conto não banaliza a dor materna nem reduz o luto a um discurso frio de resignação. Pelo contrário. Richard Simonetti trabalha a dimensão psicológica da perda mostrando que o sofrimento nasce, muitas vezes, da ilusão de posse. O ser humano acostuma-se a dizer “meu filho”, “minha esposa”, “meu pai”, como se as almas fossem propriedades definitivas. O Espiritismo, entretanto, ensina que ninguém possui ninguém. Todos são companheiros temporários na travessia terrestre.
Há também um aspecto moral extremamente elevado na narrativa. A maternidade e a paternidade aparecem como missões espirituais e não como direitos absolutos. Os pais são administradores de consciências em formação, responsáveis por oferecer amor, orientação ética e amparo moral enquanto durar a experiência encarnatória.
Sob prisma psicológico, o conto toca numa das maiores angústias humanas: o medo da separação. A perda física parece insuportável porque a consciência materialista encara a morte como extinção. Já a visão espírita modifica radicalmente essa percepção. A ausência transforma-se em distância temporária. O túmulo deixa de representar destruição definitiva e passa a simbolizar apenas mudança de estado existencial.
A força do texto reside justamente na simplicidade simbólica da metáfora. As jóias representam aquilo que mais amamos. E quanto mais valiosas, menos realmente nos pertencem. O amor verdadeiro não aprisiona, não reivindica posse e não exige permanência eterna na matéria. Ama sabendo libertar.
O conto também dialoga profundamente com a questão 934 de O Livro dos Espíritos, quando se discute por que criaturas boas sofrem tanto na Terra. A resposta espírita demonstra que as provas dolorosas frequentemente possuem finalidade educativa, expiatória e evolutiva. Muitas vezes, reencontros familiares são breves porque certas almas necessitam apenas de pequeno contato regenerador antes de retornarem ao mundo espiritual.
Richard Simonetti consegue transformar uma reflexão doutrinária em experiência emocional. Não escreve apenas para instruir intelectualmente, mas para tocar regiões profundas da alma humana. Seu conto convida o leitor a substituir revolta por entendimento, desespero por esperança e posse por gratidão.
A verdadeira tragédia não é devolver as jóias ao Céu. A verdadeira tragédia seria jamais ter recebido seu brilho por um único instante sequer.
Fontes:
Quem Tem Medo da Morte?
O Livro dos Espíritos.
O Evangelho segundo o Espiritismo.
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REALIDADE DOS HOSPÍCIOS SEC.19.
A IMPRESSIONANTE E COMOVENTE HISTÓRIA DE Nellie Bly.
Como uma pioneira repórter do século 19 se infiltrou em um hospício feminino em Nova York.
Uma estranha no ninho
Como uma pioneira repórter do século 19 se infiltrou em um hospício feminino em Nova York para narrar os abusos sofridos pelas internas.
do banco para mudar um pouco a posição, mas eram sempre repreendidas e instruídas a sentarem-se eretas. Se falavam, eram repreendidas e mandadas calar a boca; se queriam andar um pouco a fim de tirar a rigidez do corpo, mandavam que se sentassem e ficassem quietas. O que, com a exceção da tortura, levaria mais rapidamente à loucura do que esse tratamento? Aqui as mulheres eram enviadas para serem curadas. Eu gostaria que os médicos especialistas que estão me condenando pelo que fiz, o que só provou a habilidade deles, escolhessem uma mulher perfeitamente saudável, a fizessem calar a boca e sentar-se das seis da manhã às oito da noite em bancos sem encosto, não permitindo que ela falasse ou se movesse durante todo esse tempo; que a deixassem sem ler nada e que não ficasse sabendo nada do mundo ou do que acontece e dessem a ela comida ruim e tratamento ríspido; e então vissem em quanto tempo ela ficaria louca. Dois meses seriam suficientes para transformá-la em uma ruína mental e física.
Bly passou dez dias no hospício até um advogado do jornal liberá-la, e sua denúncia não foi em vão. Diante da pressão popular e de um júri designado para investigar o caso, a prefeitura de Nova York passou a destinar 1 milhão de dólares a mais por ano para o tratamento dos loucos. A comida melhorou, agasalhos foram doados e médicos e enfermeiras passaram a ser mais atenciosos. No entanto, quando a reportagem foi publicada em livro, Bly voltou à ilha para escrever um novo capítulo e encontrou algumas das companheiras em estado ainda pior. Hoje, o hospício está desativado, o local foi transformado em um bairro residencial e a ilha mudou de nome para Roosevelt Island.
OBS. Somente para título de informação. Não possuo canal no YouTube então o interesse que nos move é tão somente mostrar em película a extraordinária vida dessa mulher que mudou a visão sobre os doentes mentais.
ALBERT SCHWEITZER E A GÊNESE DO HUMANITARISMO MODERNO.
Por: Marcelo Caetano Monteiro.
Poucos homens do século XX reuniram em si uma convergência tão singular entre erudição, espiritualidade, medicina, filosofia e ação humanitária quanto Albert Schweitzer. Sua trajetória não foi apenas a de um médico que tratava enfermos na África equatorial. Foi a de um pensador que procurou transformar a própria civilização pela ética do “respeito pela vida”.
Nascido em 14 de janeiro de 1875, em Kaysersberg, na Alsácia, Schweitzer cresceu em um ambiente profundamente religioso e intelectual. Filho de pastor luterano, revelou desde cedo uma extraordinária inclinação para a música, a filosofia e a teologia. Ainda jovem, tornou-se reconhecido intérprete de Johann Sebastian Bach, além de pesquisador respeitado no campo teológico e filosófico.
O aspecto mais impressionante de sua biografia, contudo, foi sua ruptura voluntária com uma vida acadêmica confortável. Em 1904, após ler um relato missionário sobre o sofrimento humano no Gabão, Schweitzer decidiu abandonar uma promissora carreira universitária para estudar medicina tropical. Essa decisão marcou um divisor histórico no pensamento humanitário contemporâneo.
Na época, o conceito moderno de organizações humanitárias internacionais ainda era embrionário. O próprio artigo do Instituto Humanitas Unisinos, descreve sua obra como parte da “pré história das ONGs e do trabalho humanitário”. Em outras palavras, Schweitzer antecipou em décadas a lógica humanitária que mais tarde seria institucionalizada por organismos internacionais voltados à assistência médica e social.
Em 1913, acompanhado de sua esposa Hélène Bresslau, enfermeira treinada, partiu para Lambaréné, no Gabão, então colônia francesa. Ali iniciou uma pequena estrutura hospitalar improvisada que se transformaria posteriormente no célebre Hôpital Albert Schweitzer. O hospital especializou-se no tratamento de doenças tropicais, lepra, infecções graves e enfermidades negligenciadas pela medicina europeia da época.
Sua filosofia central era chamada de “Reverência pela Vida”. Para Schweitzer, toda existência possuía dignidade intrínseca. Essa concepção ultrapassava o mero sentimentalismo religioso. Tratava-se de uma ética civilizacional profunda, segundo a qual o ser humano deveria reconhecer valor em toda manifestação da vida. Essa perspectiva influenciaria posteriormente movimentos ligados à bioética, à ecologia e ao humanismo contemporâneo.
Há algo de particularmente emblemático em sua figura. Schweitzer não era apenas um médico altruísta. Era também filósofo, musicólogo, organista, teólogo e pensador ético. Sua obra filosófica “Kulturphilosophie” discutia o declínio moral da civilização europeia moderna e defendia uma reconstrução espiritual da humanidade baseada na compaixão concreta.
Sua notoriedade internacional cresceu ao longo das décadas. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho humanitário e pela defesa da fraternidade entre os povos. O prêmio reconheceu não apenas sua atuação médica, mas sua visão ética universalista. Schweitzer utilizou inclusive o dinheiro do Nobel para ampliar o tratamento de pacientes com hanseníase em Lambaréné.
Outro aspecto frequentemente ignorado foi sua atuação contra armas nucleares. Após a Segunda Guerra Mundial, Schweitzer tornou-se voz internacional contra testes atômicos, alertando sobre os perigos da radiação e da destruição civilizatória. Sua autoridade moral influenciou debates internacionais sobre desarmamento e preservação da vida humana.
Naturalmente, sua figura também gerou controvérsias. Alguns críticos posteriores o acusaram de paternalismo colonial europeu, enquanto outros defenderam que sua obra ultrapassava os limites ideológicos de seu tempo. Ainda assim, mesmo entre debates contemporâneos, permanece praticamente incontestável a magnitude histórica de seu sacrifício pessoal e de sua contribuição à medicina humanitária.
Schweitzer morreu em 4 de setembro de 1965, em Lambaréné, precisamente no lugar onde havia escolhido servir a humanidade. Sua vida permanece como um dos exemplos mais contundentes de coerência moral entre pensamento e ação.
Enquanto muitos intelectuais limitaram-se a escrever tratados sobre ética, Albert Schweitzer decidiu transformar sua própria existência em um testemunho vivo de compaixão civilizatória.
_Fontes: Instituto Humanitas Unisinos, Nobel Prize Official Website Albert Schweitzer Speed Read Nobel Prize
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DANTE. O EXILADO QUE A MORTE NÃO RECONCILIOU.
Há episódios da história que parecem escritos por um dramaturgo medieval. O destino de Dante Alighieri é um deles. Poucos homens foram tão glorificados pela posteridade e, simultaneamente, tão rejeitados pela própria pátria. O criador da Divina Comédia transformou-se em símbolo da literatura italiana, mas morreu como peregrino político, carregando sobre si a amargura do desterro e a ferida de uma cidade incapaz de reconhecer a grandeza daquele que havia concebido uma das maiores arquiteturas poéticas da civilização ocidental.
Nascido em Florença por volta de 1265, Dante viveu em uma Itália fragmentada por disputas políticas, rivalidades familiares e conflitos entre facções. Pertencia ao partido dos guelfos brancos, grupo que se opunha à interferência política do papado nos assuntos florentinos. Quando os guelfos negros assumiram o poder com apoio pontifício, Dante foi acusado de corrupção e condenado ao exílio em 1302. A sentença era brutal. Caso retornasse à cidade, poderia ser queimado vivo.
A partir desse momento começou uma peregrinação dolorosa. Dante atravessou cortes italianas, experimentou humilhações materiais e conviveu com a condição do expatriado. Em uma de suas passagens mais célebres, escreveria sobre “o sabor salgado do pão alheio” e “o subir e descer das escadas dos outros”. Não era apenas uma metáfora poética. Era a descrição concreta de sua ruína social e emocional.
Foi nesse estado de exílio que amadureceu a Divina Comédia. A obra não nasceu do conforto, mas da expulsão. O inferno, o purgatório e o paraíso percorridos pelo poeta carregam marcas profundas de sofrimento político, desencanto humano e anseio espiritual. Muitos dos personagens condenados por Dante eram figuras reais de seu tempo, inclusive adversários florentinos. Sua literatura tornou-se simultaneamente transcendência estética e tribunal moral.
Em 1321, Dante morreu em Ravena, acolhido pela corte de Guido Novello da Polenta. Não retornou à cidade natal. Florença não revogou plenamente sua condenação enquanto viveu. A pátria que mais tarde transformaria sua língua em fundamento da identidade italiana não teve a dignidade de recebê-lo de volta quando ainda respirava.
O que ocorreu após sua morte possui contornos quase litúrgicos. Séculos depois, Florença passou a desejar os restos mortais daquele que antes repudiara. Em 1519, sob autorização do papa Leão X, uma delegação florentina dirigiu-se a Ravena para recuperar os ossos do poeta. A missão possuía forte simbolismo político e cultural. Seria uma espécie de reconciliação tardia entre a cidade e seu filho ilustre.
Mas os frades franciscanos de Ravena compreenderam o paradoxo moral daquela tentativa.
Antes da chegada da comitiva, removeram secretamente os restos mortais de Dante do sepulcro. Quando os enviados abriram o túmulo, encontraram apenas o vazio. O gesto dos franciscanos não foi simples obstinação regional. Havia nele uma dimensão ética silenciosa. Ravena recusava entregar à glória póstuma uma cidade que negara misericórdia ao homem vivo.
Durante séculos, os ossos permaneceram ocultos no convento franciscano. Aquela guarda secreta adquiriu caráter quase sacral. Não protegiam somente um cadáver. Protegiam a memória de uma injustiça histórica.
Em 1865, durante obras próximas ao túmulo, os restos foram reencontrados dentro de uma caixa de madeira contendo inscrição identificadora. O episódio provocou enorme repercussão cultural na Itália recém-unificada. Dante já havia sido elevado à condição de pai simbólico da língua italiana, e a redescoberta de seus ossos assumiu contornos nacionais.
Nem mesmo o século XX encerrou a peregrinação póstuma do poeta. Durante a Segunda Guerra Mundial, os restos mortais foram novamente escondidos para protegê-los dos bombardeios. Como em um ciclo histórico melancólico, Dante continuava exilado até mesmo na morte, deslocado de um lugar para outro por forças políticas e militares.
Hoje, Florença conserva um monumental cenotáfio em Basílica de Santa Croce dedicado ao poeta. Contudo, o túmulo está vazio. O verdadeiro corpo permanece em Ravena, guardado pela cidade que o acolheu quando a própria pátria lhe negara abrigo.
Existe nisso uma das ironias mais profundas da memória humana. Muitas sociedades perseguem seus gênios enquanto vivos e veneram-nos quando mortos. O reconhecimento tardio frequentemente possui menos virtude do que remorso. Dante converteu-se em patrimônio universal não por causa da benevolência de Florença, mas apesar de sua hostilidade.
Ravena compreendeu algo que a posteridade raramente admite. Há exílios que ultrapassam a política. Transformam-se em cicatrizes morais. E certas ausências permanecem como testemunho eterno da ingratidão dos homens diante daqueles que lhes ofereceram eternidade literária.
Fontes consultadas. Biblioteca Italiana. Sociedade Dante Alighieri. Arquivos históricos de Ravena. Enciclopédia Treccani. Museu Casa de Dante.
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“O beija-flor rompeu a corrente invisível que o mantinha cativo junto à mais formosa das flores. E, ao afastar-se, descobriu que certas belezas não aprisionam pelo perfume, mas pela ausência que deixam no espírito.”
“Enquanto todos viam apenas minhas falhas, meus filhos jamais souberam quantas dores eu enterrava para lhes oferecer um pouco de paz.”
“Passei anos acreditando que o amor bastava para esconder o cansaço de um pai que aprendia sozinho a não desmoronar diante dos próprios filhos.”
