Coleção pessoal de Hkawata
Todos dizem que a mentira afasta as pessoas uma das outras, mais olha que ironia, a verdade não as une !
Vivemos com os nossos defeitos como com os cheiros que temos: não os sentimos, eles só incomodam os outros.
Entre o que eu penso, o que quero dizer, o que digo e o que você ouve, o que você quer ouvir e o que você acha que entendeu, há um abismo.
Todo definitivo é falso, na medida em que tudo que existe se transforma, deixando de ser o que era. As palavras são servas da hipocrisia, e a escrita, seu arauto através dos tempos. A consciência de tudo é erro, pois a mente é uma casa de espelhos que reflete saídas onde há apenas becos sem volta. Viver é perder-se irrevogavelmente.
A metástase da carne tem início na alma. O vírus do câncer é quântico. Morte no multiverso, todas as réplicas tombando como peças de dominó.
Morremos em série, a nível cósmico. Apagados, obliterados, dizimados. O não-ser da mais infinita impossibilidade, nada pleno, oco perfeito.
Morremos molecularmente. No osso do átomo. Na estagnação do elétron. Deus cai na latrina e o Demônio toca a descarga. Morremos. Morremos.
Morremos e enquanto agonizamos a morfina do entretenimento nos distrai do estertor uníssono de células presas aos coágulos pastosos que somos.
A cultura da maldade, da imbecilidade e do vazio. A cultura da ausência de cultura. Não contra-cultura, mas a própria antimatéria da cultura.
Todo conhecimento convergindo para um fétido buraco-negro, ralo que suga mentes e amalgama cérebros perdendo-se no fomento do agora crônico.
Mas que dor seria legítima sem espectadores? Um ator não representa por detrás das cortinas. Toda calúnia há de ser lançada ao devido rosto.
Para que soro corrosivo da encenação grotesca carcoma a vil máscara do público, revelando a fealdade explícita por trás da maquiagem humana.
Sinto falta dos verdadeiros pessimistas. Não dos que reclamam da própria circunstância, mas daqueles que reconhecem que pouco se importam com ela.
Fiz desaparecer a minha individualidade para nada ter que defender; afundei-me no incógnito para não ter qualquer responsabilidade; foi no zero que procurei a minha liberdade.
Na arte da dúvida cultive o conhecimento e você chegará à sabedoria, mas só chegará. Para relacionar-se com ela, continue duvidando.
