Coleção pessoal de ginafoglio
Amor Mortal
Ouvi um raio —
tremeu
…a alma, os cílios.
Raio contundente,
frio,
escuro,
e, ao mesmo tempo, divino!
Um gostar de sentir calafrio,
ausências e inseguranças,
frio na barriga…
Isso é amor?
(pelo menos, para mim, é.)
Insuportável a harpa angelical
dos casais tão simples:
“Oi, amor!”
“Bom dia, amor!”
“Durma bem, amor!”
Penso que morro em vida.
Uma sombra… sussurros…
Arrepios…
Fico surdo,
estático,
só admirando aquela figura
magra e gélida.
Ela se despe —
vestida de ossos pontudos!
Como não desejar sua morte?
Felicidade
Felicidade
é saber
que todos são substituíveis —
eu,
você,
e até
os ditadores mais imundos.
“ Minha Mãe Maiúscula !”
Lembro, mãe —
das coxinhas quentinhas
voltando do Clube Guarani,
dos risos que se misturavam ao cheiro da tarde,
das letras que me ensinou,
me fazendo acreditar
que saber ler era tocar o infinito.
Lembro da “Caminho Suave”
do seu cuidado invisível,
das mãos que me amparavam
antes mesmo que o medo tivesse nome.
E a Maria Pia?
Conseguiu que ela me ajudasse numa época tão dura
Você já sabia!
Adolescentes são frágeis!
Lembro das roupas que você costurava —
cada ponto, um segredo de amor.
E das ceias de Natal, intermináveis,
repletas de fartura,
tempo suspenso.
Lembro de você no navio,
o enjoo vencendo o mar,
de Vancouver e daquele basement escuro,
onde sua coragem iluminava tudo.
E quando Danny ia nascer —
eu, sozinha, perdida, sem telefone —
você chegou de repente,
como só as mães sabem chegar:
no instante exato,
com o amor exato.
Lembro do céu estrelado do sítio,
das conversas que ainda brilham em mim,
das comidas feitas com mãos generosas,
das vezes em que bastava o seu olhar
para o mundo parecer em paz.
Sempre amor.
Sempre cuidado.
Sempre vida.
Amor que não se copia.
Amor de uma leonça!
Ode a CL
Antes que o mapa encurte,
antes que a próxima “viagem”
imponha um itinerário
que não ultrapasse
a rua paralela
à minha antessala…
Ode a Clarice
Me ensina
a perder-me nas esquinas invisíveis,
atravessar portas que não existem,
explorar mundos
que cabem apenas
no silêncio do meu passo
Cuneiforme
Falar,
falar,
murmurar…
Filosofar!
Justificar!
Nada!
Escrita,
Desde cuneiforme ,
A dor em símbolos !
Pode chorar,
pode esguelhar —
o amor perdido…
está perdido.
E o errante,
com sua ladainha,
( escrita ou falada)
percorre a história da humanidade
como se fosse sua!
O Homem Magro
A paixão cessou,
mas o homem magro
continua sentado
ao pé da cama —
seco e puro,
como o ar
que respiro.
Face 6
Para alargar horizontes,
precisa mesmo de uma lida
nas linhas clássicas da beleza
distorcida.
Escrita dura, indelicada,
treina tua alma.
Relaxa.
Deixa assim — aceita.
Não te rebele.
Guarda as lágrimas salgadas,
geladas,
e ora.
Para alargar horizontes
(sem dificuldade),
uma varinha…
um
mago inglês,
transformando a vida
num amontoado de dados —
todos com a face seis.
Good Girl
Se não correr,
se não fizer,
se não se formar,
se não casar,
se não enriquecer,
se não tiver filhos —
pelo menos dois,
se não for bem-sucedida,
se não me aplaudirem…
Good Girl!
A vida passou —
e levou a dúvida junto.
Amor Mortal
Ouvi um raio —
tremeu…
a alma, os cílios.
Raio contundente,
frio,
escuro…
e ao mesmo tempo, divino.
Um gostar de sentir calafrio,
ausências,
inseguranças,
frio na barriga.
Isso é amor?
(pelo menos, para mim, é).
Insuportável, a harpa angelical
dos casais tão simples!
— “Oi, amor!”
— “Bom dia, amor!”
— “Durma bem, amor!”
E eu penso:
morro em vida.
Uma sombra…
sussurros…
Ela — só ela.
Sinto arrepios,
fico surdo,
estático,
só admirando aquela
figura magra
e gélida.
Ela se despe —
vestida de ossos pontudos!
Como não desejar
sua morte?
Mudanca vida afora,
Num ilimitado de ruas
Escuras
Rústicas,
Perdi livros,
O livro de mão em mão ,nasce.
O mesmo acontece com a vida!
Medo: uma constante!
Alheia,
Estagnada!
Kelley Maria gasta a vida, contando as cabeças decepadas nas celas brasileiras.
Na última matança em Roraima,
Cabeças faziam jogo da velha,
Políticos classificaram como acidente,
As facções como dente por dente!
