Coleção pessoal de Gesiel_Modesto

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Tudo o que percebo é apenas um feixe entre a luz e a sombra que pare a terrível ilusão que chamamos de vida. Mas de tudo o que não é verdade, alcançamos algum significado quando descascamos a casca que nós mesmos construímos, para colher um fruto maduro que nasceu da plena inexistência da realidade.

O tempo passa de forma distinta na mente. Em mim, atravessaram-se milhares de sofrimentos em milhares de anos. Sofri para compreender, aceitar e moldar cuidadosamente todo o mármore que envolve minha alma.


Ninguém poderia ditar-me a melhor forma de ser senão eu mesmo, pois tive a infelicidade de sustentar-me até os limites do próprio limiar de minha vida.

Vivemos com o que temos; nascemos, alguns, com imposições duras que, infelizmente, perduram para a vida toda.

Sou um pássaro trancafiado desde o nascimento; e vinte anos após, libertaram-me por cuidado de outrem. Eis que pergunto, com desespero e fervor: como pode um pássaro que só conheceu uma realidade, onde suas asas foram inutilizadas, voar para o além — sem ou com direção —, e sentir a serenidade do pôr do sol no sublime horizonte infinito?
Como poderia atravessar o mar, se nunca lhe deram a resistência necessária para deixar o chão?

Forma que não há
cura lenta a queimadura
paz no fim do ser

Caminho pela superfície fingindo que o sol, em seu contato pífio, não me queima; pois há muito caminhei pelas sombras.

Aquele que sela suas janelas acabará malbaratando os raios do sol — uma luz que, projetada adiante, tenta prevenir as catástrofes ordinárias. O ser, quase imóvel sob o peso dessa renúncia lancinante, vê retardado seu próprio florescer. Ainda, os que detêm o saber, os floristas, tornam-se mais estrídulos que o próprio ceifador visível, cujo único labor é garantir que os campos permaneçam estéreis.

⁠O único caminho dos justos é a solidão, pois, no esforço de manter-se imaculado, há uma resistência viva que persiste na alma — mesmo após cada filetamento causado pelo repúdio dos homens e da própria existência.

⁠Aquele que, mesmo entre ruínas, contempla a vida com gentileza e reparte seu brilho aos que carecem de luz, é um ser elevado — um virtuoso solene, a própria expressão do que há de mais nobre no ser.

⁠Fui, por tempos,
o mais ingênuo dos poetas.
Traduzi minha alma em escritos,
ofertados a rostos que jamais souberam ler;
justamente por esconderem-se atrás de máscaras.

As palavras — essas que julguei importantes —,
definhavam-se à medida do correr do tempo.
Então, tornaram-se meras lembranças do que poderiam ser:
pontes de transformação,
não muros de adorno.

Foi à escuridão do meu quarto —
a única leal que me restou —
que compreendi:
não era a beleza que faltava aos versos,
mas o merecimento dos olhos.

Toda poesia é imperfeita,
como todo homem;
e é essa a essência da natureza.
Os dissimulados, na vã procura do eterno,
hão de pasmar-se aos espasmos da tênue verdade.

Agora, ao ausentar-me,
deixo um rastro de luz contida —
mínima, talvez,
mas real.

Aqueles que um dia lerem,
não mais embuçados
— com a alma aberta —,
sentirão o brilho de minha partícula viva,
explodindo no silêncio cósmico.

“Não fui lido,
mas fui real.”

⁠Expliquei-me aos que amava, mas não fui entendido. Então, expliquei-me a mim mesmo — e não me entendi. Olhei para o reflexo no espelho para ver quem eu era e, nos cacos quebrados, só enxergava fragmentos de uma alma ilegível. Olhei para a água do lago, e minha melancolia o perturbou: as ondas fugidias distorceram-me, reafirmando minha ausência no mundo. Então, expliquei-me à existência: ela me ignorou.

Como podem os ventos e a chuva tocar-me a pele? Como pode o sol, ao reluzir-me, criar sombra — se não sou nada e nem ninguém para nada e nem ninguém?

⁠O coração puro é a dor das almas sensíveis.

⁠A espontaneidade é a luz que atravessa a janela de uma alma feliz e de um coração independente.

⁠Quando me liberei das correntes que carregavam toneladas, percebi que, liberto, pulei e planei como se fosse vento. Olhei ao redor e percebi que minha vista havia mudado: agora, enxergava horizontes livres para caminhar. Caminhei lentamente e contemplei a paisagem—aquele pôr do sol, tão levemente quente ao meu rosto. Caminhei apressadamente, sentindo a necessidade de encontrar um caminho. Comecei a balançar meu corpo: estava em trote. E, quando vi, estava correndo disparadamente, até que me tornei um só com a vida. Não sentia o calor do sol, pois eu o era—tão fervorosamente majestoso e livre. Explodia luz que, ao tocar o mundo, tornava-se cor—cores vivas que pintariam a esplêndida arte da vida.

⁠Prefiro ser escravo do conhecimento do que das formas e tão somente dos desejos.

⁠Foi quando me deparei: a realidade cobriu-me naquele instante, como um véu que cobre objetos e os reduz a nada, senão simples formas. Os vultos me cercavam, e um silêncio ensurdecedor ecoou nos meus ouvidos. A existência, antes anestesiada pela minha tentativa inútil de esquecer-me ou até fugir dela, penetrou-me aos olhos: já não enxergava mais nada. O breu tomou conta de minha visão, e ali já havia entendido — e, certamente, foi o estopim da fatalidade que me poderia ocorrer. Não poderia fugir; como conseguiria, se já não me havia forças para correr, muito menos direção para guiar-me? E, se os tivesse, alcançando o topo da colina mais alta e mais distante de todas, como poderia fugir de mim mesmo? Como poderia fugir da angústia que tomou completamente meu corpo naquele instante? A única coisa que poderia fazer era olhar fixamente para o nada, assim como olho para mim no espelho pelas manhãs. Sem escapatória, era apenas uma alma passando frio, ao lado de tantas outras vestidas, combinadas e esquentadas pelo calor de suas vestimentas: seus corações, que palpitavam ferozmente ao contato dentre tantas outras parecidas, enquanto o meu já não tinha forças para viver. Meu coração estava num imensurável inverno congelante, sem previsão de essência: espera-se, somente, a morte por hipotermia.

⁠Prefiro a companhia da solidão; levaria-me à vastidão do templo das almas desgraçadas, consumidoras da boa-fé de outrem, mas que não provê sentimentalismo aos mais próximos, somente a cachorros que sofrerão derrota súbita: talvez seria sua forma de compensar esse pêndulo que rodeia o eterno e o vazio? O poder do não poder? A indiferença e a benevolência?

Aaah, eterno pesar da dúvida cantante, tão demasiada desafinada que me corroe a alma quando sua voz atravessa-me os ouvidos.

Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.

Basta Pensar em Sentir

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.