Coleção pessoal de Fabrizzio

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Prefiro o silêncio quebrado de Nietzsche no fim
à fala organizada de quem só pensa para tentar reduzir o que proponho por versos e atitudes coerentes com tais.


William Contraponto

A consciência dos ciclos da vida não elimina a perda,
mas nos ensina a atravessar, com lucidez, o que vem e o que se vai.


William Contraponto

Tento. Mas não acredito que seja bom em algo. E isso me foi ensinado.


William Contraponto

Não apenas desejo: tenho convicção.
Os que tentaram conter minhas conquistas descobriram a inutilidade do gesto.
Não fui eu quem lhes devolveu o veneno.
Foi o próprio fracasso de suas intenções.
O gosto amargo que sentem não vem de minhas mãos,
mas daquilo que escolheram me lançar.


William Contraponto

O amanhã não é linha reta,
carrega desvios, curvas abertas.
Uns vendem certezas já apodrecidas,
outros recolhem verdades dispersas.


William Contraponto

Não busca ouro, que é vaidade,
nem se alimenta de vãs coroas.
A mente livre é claridade,
semeia dúvidas silenciosas.


William Contraponto

Na tribuna, os discursos vazios,
palavras vestidas de falsa razão.
Por trás das cortinas, negócios sombrios,
a pátria leiloada em cada votação.


William Contraponto

Ser livre exige despir-se inteiro,
Aceitar a sombra que nos invade.
O medo é muro, frio carcereiro,
Que nega ao ser sua própria verdade.


William Contraponto

A natureza é o verbo nu,
que ensina o homem a existir,
sem pretensão de ser tabu,
nem medo algum de refletir.


William Contraponto

O que chamam alma, eu chamo história:
a voz simples do que se amou.
É a cicatriz guardando a memória
de cada luta que alguém lutou.


William Contraponto

O universo é só um pensamento,
máquina viva sem operador,
reflete em mim seu movimento,
sou engrenagem do seu motor.


William Contraponto

Corremos sem perceber,
até que a verdade aflora:
não escolhemos começar,
mas escolhemos como o tempo nos devora.


William Contraponto

Entre o delírio e a lógica
segue a mesma pulsação:
a lucidez é ferida,
e viver é insurreição.


William Contraponto

Pedido de Anistia
William Contraponto



Se Deus existe,
deve ser anistiado.
Pois, se é o que dizem seus seguidores,
só pode estar preso.


Vê tudo
e nada pode fazer.
Vê a fome e a guerra,
a miséria espalhada, o caos banalizado,
o choro da criança
e o desespero da mãe,
e permanece imóvel.


Se Deus existe,
que o libertem da cela invisível
onde o colocaram
com promessas e absolvições.


Se Deus existe como pregam,
ele vai resolver.
Dizem.
Sempre dizem.


Mas se Deus existe
e é livre,
então não está acorrentado ao mundo
nem às mãos dos homens.


Então Ele é a prisão.

O Enigma do Primeiro Passo
William Contraponto


O caminho desperta no primeiro passo,
abrindo o mundo sem se anunciar.
Do gesto nasce um tênue traço,
que à própria essência decide chamar.


Nenhuma voz secreta indica direção;
o ritmo surge ao se escutar.
Entre o peso do tempo e a indecisão,
a senda encontra modo de avançar.


Sem verbo fixo ou guia certeiro,
a trilha aprende a se configurar.
Há sempre vida no início ligeiro,
sutil convite para continuar.


Quando o silêncio cresce por inteiro,
um fundo sentido tenta despontar.
No intervalo se refaz o roteiro,
mínima música a respirar.


E se algo fica, é simples traço,
breve sinal a persistir.
Um sinal breve deixado no espaço,
prova de um instante a se cumprir.

É paz com o próprio legado, sim — mas sobretudo com o fato de ter vivido de modo autêntico, fiel ao que era.
E essa paz nasce do reconhecimento de que essa autenticidade alcançou e despertou algo nos outros.


William Contraponto

Considerações Reflexivas: O Desamparo Tem Causas Sociais, Mas Consequências Íntimas.


Por William Contraponto




O desamparo raramente nasce do coração que o sente, embora seja no coração que ele se instala. Há dores que o indivíduo carrega como se fossem exclusivamente suas, quando na verdade nascem na arquitetura invisível do mundo. Vivemos num tempo em que responsabilidades coletivas se transformam em culpas pessoais: o desempregado é visto como preguiçoso, o pobre como desorganizado, o ansioso como fraco, o exausto como alguém incapaz de administrar seus próprios recursos. Assim, problemas estruturais retornam ao sujeito como defeitos morais, enquanto o sistema lava as mãos e o indivíduo lava lágrimas. Uma sociedade que naturaliza desigualdades produz cicatrizes que não aparecem no noticiário, mas latejam no peito às três da manhã. As instituições falham para todos, porém é a pessoa isolada que sangra, porque o que nos atinge em massa nos desespera sozinhos. A solidão que tanto dói não é apenas íntima, ela é fabricada por portas fechadas, direitos negados, vidas reduzidas a números e expectativas esmagadas por um mundo que exige mais do que oferece. O sujeito desamparado não é um erro; é um resultado. Mas a consciência desse fato inaugura a resistência. Quando alguém percebe que sua angústia não é defeito pessoal e sim consequência de um cenário desequilibrado, a dor deixa de ser culpa para se transformar em compreensão e luta. Se o desamparo é social em sua origem, a superação também deve ser social. Ela se constrói no encontro, na solidariedade, no gesto que devolve humanidade ao outro. A cura do íntimo começa no coletivo, porque a dignidade de um só depende da justiça de todos.




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O Mito Enjaulado
William Contraponto


O chefe dos boçais atrás das grades
Deveria ser um grande alívio;
Mas eles inventam outras verdades
E seguem o mito em desvario.


A cela expõe o preço da arrogância,
Sem convencer o fiel cativo;
Ele nega a própria circunstância
E chama o cárcere de “motivo”.


A sentença pesa como ferro frio,
Mas há quem jure ser fingida;
Criam teorias em desafio,
Num culto à fraude repetida.


O país que sangra por transparência
Ainda escuta o coro nocivo;
Gritam por honra, mas com ausência
Do que sustenta o real vivo.


E enquanto a Justiça cumpre o fato,
Eles se agarram ao discurso antigo;
Transformam culpa em falso ato
E seguem marchando com o perigo.

William Contraponto e a Espiritualidade


William Contraponto é um autor ateu, de vertente existencialista, que traz em sua obra uma visão crítica e reflexiva do mundo. Foi médium na umbanda e no espiritismo, mas abandonou essas práticas ao perceber que a mediunidade, em sua experiência, se manifestava como um fenômeno condicionado — fruto de influências culturais, psicológicas e sociais, não de uma realidade sobrenatural. Essa vivência marcou profundamente sua filosofia, que questiona o sagrado e propõe uma busca lúcida pela liberdade de pensamento

William Contraponto: Lucidez Entre Versos e Palavras

A poesia de William Contraponto nasce da urgência de pensar, não como quem busca respostas, mas como quem se recusa a calar diante do absurdo. Seus versos não se rendem ao consolo nem à beleza fácil: são lâminas que cortam o véu das aparências, faróis acesos no nevoeiro da linguagem. Em sua obra, cada palavra é escolha ética, cada silêncio é crítica, cada poema é um gesto de lucidez.

Filho do questionamento e irmão da dúvida, Contraponto caminha entre ideias como quem atravessa um campo minado de verdades. Sua filosofia é existencialista, mas não resignada; socialista, mas não panfletária; ateia, mas jamais vazia. O sagrado é desfeito com ironia e o poder, enfrentado com clareza. Sua fé, se há alguma, é na consciência livre, na autonomia do pensamento e na dignidade de quem se ergue sem altar.

Poeta-filósofo (ou poeta-reflexivo, como prefere ser definido) por natureza, ele escreve para inquietar, não para entreter. Não há ornamento em sua linguagem, apenas densidade. Cada poema seu é uma fresta por onde o mundo se desnuda. E é ali — entre versos e palavras — que habita sua lucidez: uma lucidez que fere, mas ilumina; que não explica, mas revela; que não conforta, mas desperta.

William Contraponto não oferece abrigo. Oferece espelhos.