Coleção pessoal de drleonardoazevedo
Fragmentos de “O vazio de Ivan em mim”
(por Leonardo Azevedo)
3.
Carrego a lucidez como lâmina.
Ela me corta mais do que conforta.
Fragmentos de “O vazio de Ivan em mim”
(por Leonardo Azevedo)
2.
Minha dor não é a do ateu.
É a dor de quem foi expulso do paraíso da certeza.
Fragmentos de “O vazio de Ivan em mim”
(por Leonardo Azevedo)
1.
Não nego Deus.
Mas me recuso a aceitar um paraíso comprado com o choro de uma criança torturada.
O Vazio de Ivan em Mim
Não é que eu não queira crer.
Queria. Com a mesma força com que respiro, com a mesma urgência com que busco sentido quando o mundo me fere.
Mas há em mim — como havia em Ivan — um vazio que não se preenche com promessas, nem com orações que ignoram o grito dos que padecem.
Não nego Deus.
Mas me recuso a aceitar um paraíso onde o preço seja o choro inconsolável de uma criança torturada.
Se a matemática da salvação exige esse débito, então que me excluam da equação.
Devolvo o ingresso. Não me serve um céu comprado com sangue inocente.
Minha dor não é a do ateu. É a do exilado.
Não me falta fé — me falta reconciliação.
Entre o que vejo e o que dizem que há.
Entre a razão que me habita e o absurdo que me cerca.
Entre o amor que imagino ser divino e o horror que assola o mundo sem trégua.
Carrego a lucidez como lâmina.
Ela me corta todas as noites. Me acorda. Me sangra.
Mas prefiro essa dor do que o conforto mentiroso da inconsciência.
E, no entanto, por vezes, invejo os que crêem sem feridas.
Os que chamam de “mistério” o que eu ouso chamar de “injustiça”.
Os que abraçam um Deus com olhos fechados, enquanto eu — pobre de mim — insisto em fitá-lo de olhos abertos, sem saber se Ele me vê.
Talvez um dia eu compreenda.
Ou talvez minha travessia seja essa mesma: caminhar com o coração em ruínas e a mente em labaredas,
entre o silêncio de Deus e o clamor dos homens.
Mas sigo.
Não por esperança.
Nem por fé.
Sigo porque parar seria entregar-me à loucura.
E entre a insanidade e a ausência de sentido, escolho — por ora — a lucidez dolorosa de quem carrega o vazio como cruz e como bússola.
”Hoje é meu aniversário. Mas não é um dia de festa. É um lembrete do que perdi, do que já não celebro. Há dias em que a vida pesa mais do que passa. E tudo que consigo dizer é que é só mais um dia.”
”É um dia. Apenas um dia. Mas nele moram silêncios, memórias e um luto sem nome. Não há velas, nem brindes, apenas o tempo sussurrando que algo se perdeu e eu me encontrei ali.”
“Hoje não é um dia de celebração, mas de consciência. Percebo o tempo em sua nudez, os ganhos silenciados, as perdas em evidência. Não por revolta, mas por lucidez. Há dias que apenas são. E por serem, nos confrontam.”
“Um dia triste. Um dia para esquecer. Um dia para me lembrar de que despertei. Um dia em que percebo minhas perdas. Um dia em que não comemoro meus ganhos. Um dia de luto. Um dia sem glórias. Um dia de realidade. Um dia.”
“Entre o excesso de pensamento e o transbordar da emoção, a angústia se forma. Nem sempre nos fere, mas sempre nos inquieta. Saber lê-la é saber-se.”
”Pensar demais e sentir demais são caminhos distintos para a mesma angústia. O que muda é como lidamos com ela.”
”A angústia pode nascer da razão ou do afeto. Em ambos os casos, revela um desalinho interior. Reconhecer seus sinais e interpretá-los como uma bússola é o primeiro passo para reencontrar o centro perdido.”
“Não há sabedoria na intransigência. Não há conquistas duradouras por meio da força. Oprimir e escravizar apenas adiam a queda. Liberdade é compreender e aceitar a efemeridade das coisas e, ainda assim, persistir em busca de um sentido.”
”Não é pela imposição que se conquista o essencial. Toda forma de dominação é efêmera. A verdadeira liberdade nasce da aceitação do tempo e da busca de sentido no transitório.”
”A queda é destino de quem ergue impérios sobre grilhões. A liberdade, ao contrário, floresce na leveza de quem compreende o fim e ainda assim escolhe o amor.”
”Não há vitória real na força bruta. Toda opressão tem prazo. Só é livre quem aceita o fim das coisas e, mesmo assim, vive com propósito.”
“O casamento é o jardim cultivado após a primavera do namoro, onde a flor da paixão dá lugar à raiz profunda do amor que resiste às estações.”
“O casamento é o namoro aprimorado, onde a paixão cede lugar ao amor e as relações se sustentam na cumplicidade e na resiliência.”
“Nem toda loucura é ruína. Algumas são defesa. Outras, travessia. Há quem precise se despedaçar para sobreviver à rigidez do que é dito normal. E há quem se esconda atrás da sanidade como quem se fecha numa prisão segura, mas estéril.”
V. O retorno pelo labirinto
Toda ruptura traça um labirinto. E quem nele entra, nem sempre deseja fugir. Às vezes, é no se perder que o ser se reconhece. A sanidade, quando forçada como imposição, pode se tornar mais opressora que o próprio delírio. Já a loucura, quando acolhida como linguagem da alma ferida, torna-se caminho de reintegração, ainda que não linear.
Os que retornam do fundo sabem que não voltam iguais. Carregam nos olhos uma espécie de cansaço antigo, mas também uma quietude que só os que desceram até o próprio vazio conseguem sustentar. São os que aprenderam a caminhar sem mapa, a escutar sem forma, a esperar sem garantias.
Não há cura como promessa. Há encontros. Há tempo. Há escuta. O retorno não é para ser o que se era, mas para descobrir o que se pode ser, depois do caos, depois da noite, depois da queda. E isso, talvez, seja mais digno do que qualquer normalidade aparente.
A linha que separa loucura e sanidade não é reta. Ela pulsa, dança, atravessa o cotidiano com gestos que ora nos salvam, ora nos expõem. E não é preciso temê-la, mas respeitá-la. Porque quem um dia já esteve à margem, sabe o valor de cada gesto de acolhimento. Sabe que é possível viver à beira, sem cair. E que às vezes, o mais são entre todos, é aquele que aprendeu a conviver com suas sombras sem tentar apagá-las.
No fim, a verdadeira sanidade não é exata. É compassiva.
IV. A lucidez que enlouquece
Nem toda loucura é fuga. Algumas são excesso de lucidez. Quando se vê demais, sente-se demais. Quando se compreende além do que é possível suportar, a mente busca rotas que a consciência não escolhe. Há dores que não cabem na razão, e há verdades tão nuas que dilaceram.
A lucidez, quando absoluta, é um risco. Porque ver tudo sem véus é também ver o absurdo, a finitude, o vão das promessas humanas. E nem sempre se está pronto para permanecer são dentro desse deserto.
A loucura, por sua vez, aparece como véu restaurador. Ela recobre o intolerável, inventa símbolos, reinventa a lógica. Cria sistemas próprios onde o indivíduo pode ainda ser deus, vítima, redentor, qualquer coisa que impeça o colapso. É nesse sentido que a loucura pode ser também criação, não destruição. A reconstrução de um universo interno, com regras próprias, para que o ser não se desintegre.
E no entanto, mesmo no delírio, há beleza. Porque onde há linguagem, ainda que dissonante, há desejo de expressão. Onde há construção, ainda que simbólica, há instinto de permanência. E onde há dor, há humanidade.
Compreender esse ponto é recusar a dicotomia. É não separar em rótulos estanques o que, na verdade, se entrelaça em ondas. Todos os que pensam profundamente já roçaram a margem da loucura. Todos os que criam com intensidade já sentiram a vertigem do descontrole. O equilíbrio é uma dança. E a lucidez verdadeira não exclui o delírio, apenas o traduz.
