Coleção pessoal de Davi-Roballo
A dor é professora silenciosa: não ensina o que fazer, mas revela quem jamais ousou olhar para si mesmo. Cada passo em falso deixa impressões invisíveis no tecido do mundo, e cada lembrança esquecida é um grito contido que insiste em nos moldar.
O tempo observa em silêncio, indiferente às nossas urgências. Cada escolha que acreditamos decisiva é apenas um fio lançado sobre o abismo, e cada desejo não realizado ecoa como sombra de nós mesmos, lembrando que nada nos pertence, nem mesmo a própria esperança.
A verdade não se anuncia: sussurra entre as fissuras do cotidiano, onde olhos apressados jamais ousam olhar. E quem tenta agarrá-la, seguro de si, descobre que tudo o que se prende escapa, deixando apenas o eco do que nunca pôde ser dito.
O tempo não cura: apenas descasca. Cada estação remove uma pele, até que reste o osso nu daquilo que sempre fomos.
Toda areia da praia já foi rochedo altivo, que ousou enfrentar o mar.
Hoje, desfeito em grãos, é pisado por todos. E o mar permanece — MAR.
A solidão não é falta de companhia —
é excesso de lucidez num mundo que prefere o ruído dos muitos sons, enquanto silencia a própria voz.
A alma só cicatriza onde aceitou sangrar — e o que chamamos de cura é, quase sempre, uma forma elegante de conviver com a ferida.
A velhice é o primeiro encontro verdadeiro com o próprio rosto — não aquele que inventamos no espelho da juventude, mas o que sempre esteve ali, esperando. O envelhecimento é a mais cruel das terapias: obriga-nos a elaborar, enfim, a fantasia de nossa eternidade. O idoso não teme morrer — teme reconhecer que nunca nasceu completamente.
O ciúme é o espelho cruel da nossa própria incompletude — não tememos perder o outro, mas descobrir que jamais nos possuímos. Cada crise é uma sessão de análise selvagem onde o inconsciente confessa: não é dele que tenho medo, é de mim.
Somos o que o silêncio revela quando caem as máscaras — e representamos, quase sempre, apenas aquilo que aprendemos a performar para não assustar os outros com nossa verdade.
Colecionar é brincar de controlar o incontrolável: um teatro silencioso onde o eu fragmentado tenta organizar seus fantasmas em prateleiras.
A vida não pede que você a entenda — apenas que a escute nos intervalos do barulho. O sentido, se houver, talvez more nos sussurros.
Há dores que não gritam: se disfarçam em gentileza, se escondem no riso. A alma, como a pele, aprende a cicatrizar por camadas — mas nunca deixa de lembrar onde foi ferida.
Escrevo como quem desossa a própria alma diante do espelho —
e oferece cada osso como uma forma de renascimento.
Quanto mais se bebe das águas do conhecimento, mais insaciável se torna a sede — e mais deserto se faz o caminho. A filosofia, esse deleite sombrio que Nietzsche chamou de segundo prazer, não consola: fere. Pensar é filosofar, e filosofar é olhar o abismo até que ele revele, não verdades confortáveis, mas as ruínas da ilusão. A filosofia não oferece felicidade; ela é uma lâmina silenciosa que rasga o véu da ingenuidade humana, uma bomba lançada contra os alicerces da estupidez satisfeita. Quem pensa, sangra. E quem sangra por ver demais, aprende que há mais verdade na tristeza lúcida do que na alegria cega.
Assim como a Terra guarda em suas camadas geológicas a memória de eras passadas, os velhos carregam nas rugas a história do mundo que ajudaram a moldar.
Entre as maiores contradições da vida está o fato de que, para sobrevivermos à crueza da realidade, sejamos amparados pela mais frágil das emoções humanas: a esperança.
