Coleção pessoal de creusio_kizua
O toque das suas mãos e a densidade do seu abraço têm esse perigo doce de coisa que não pede licença. Sua voz beija minha malandragem de um jeito rude, sedutor, quase inevitável. Já não é prazer. É uma força suave me levando até você antes do pensamento chegar.
"O silêncio do outro pode ser apenas silêncio. Mas o barulho que nasce dentro de nós quase sempre tem biografia."
“O silêncio não começa como paz;
começa como o lugar onde a alma
para de mentir para si.”
E talvez seja aí
que a reconstrução comece:
não no vazio calmo,
mas no caos lúcido
de quem finalmente aceita
morrer por dentro
para se construir de novo.
De fora para dentro,
o observador desperta.
E quando desperta,
não se contenta mais com a superfície das coisas.
Ele começa a investigar a memória da própria autoconstrução,
questiona a base dos seus valores,
o edifício do moralismo,
as projeções de objetivo, sucesso e pertencimento.
Então o desconforto jorra,
às vezes agressivo,
às vezes brutal,
porque toda consciência que amadurece
precisa encontrar a sombra antes de encontrar a paz.
E a sombra aparece com suas facetas amedrontadoras:
medos herdados, desejos negados, culpas mal nomeadas,
ambições disfarçadas de virtude,
feridas vestidas de personalidade.
A partir daí, nasce uma cegueira ao antigo e uma sede de perguntas para a vida.
O olhar fica frio, não por falta de alma,
mas por excesso de lucidez.
A realidade perde a maquiagem.
O véu de Maya cai.
E aquilo que antes parecia destino
começa a parecer condicionamento.
Mas o observador não tenta apenas ressignificar tudo.
Ele entende que algumas ruínas não pedem reforma,
pedem demolição consciente.
Então ele cria o novo.
Não um novo aprovado pelas vitrines do todo social,
não um novo domesticado pela moral dos outros,
não um novo feito para caber no aplauso alheio.
Mas um novo mais próximo do eu real,
um eu que não foge da sombra,
dialoga com ela.
Um eu que aprende a transformar desconforto em linguagem,
queda em arquitetura,
solidão em escuta,
e criatividade em afinação profunda da existência.
Porque talvez amadurecer seja isso:
deixar de decorar a cela
e começar a desenhar a chave.
“nada ainda foi degustado, mas tudo já foi bebido na experiência do beber”.
Antes do ato, já existe a memória do ato. Antes do primeiro gole, o corpo já atravessou outros cafés, outras tardes, outras versões de si. O tempo deixa de ser linha reta ou escada a ser vencida, e se torna uma rede cheia de nós, lembranças e retornos. Afinal, o relógio mede o instante, mas não mede o impacto silencioso daquilo que nos transforma por dentro.
