Coleção pessoal de bobkowalski
A onipotência é frequentemente apresentada como poder absoluto. Porém, existe um limite que nem mesmo um poder ilimitado parece ultrapassar: a identidade.
Se um deus destrói completamente uma pessoa e depois cria outra exatamente igual, com as mesmas memórias, personalidade e aparência, ele não trouxe a pessoa de volta. Apenas criou um clone indistinguível. Compartilhar as mesmas informações não é suficiente para preservar a mesma existência.
A identidade não é apenas uma coleção de dados. Ela também depende da continuidade do próprio ser. Se essa continuidade é interrompida de forma definitiva, não há recriação que transforme uma cópia no indivíduo original.
Assim, a ideia de que um ser onipotente poderia destruir completamente alguém e depois restaurar exatamente o mesmo indivíduo enfrenta um limite lógico. O máximo que poderia fazer seria produzir uma réplica perfeita, não reverter a ruptura da identidade.
Se a identidade não pode ser recriada após sua destruição absoluta, então a onipotência não consiste em fazer literalmente qualquer coisa imaginável, mas apenas tudo aquilo que não viola princípios lógicos fundamentais.
Penso por preguiça, pra passar o tempo, não espero lucrar, não espero fama, não espero resolver o mistério da vida, não quero evoluir, amo a vida sem destino
A ideia dum deus que pode tirar sua vida a qualquer instante por um capricho, exige adoração absoluta e pune a desobediência é profundamente perversa. Uma relação baseada no medo não é amor, é submissão. Não existe liberdade genuína quando a alternativa é a destruição. Isso não difere, em essência, dum pai que afirma ter o direito de matar o próprio filho caso ele desobedeça.
O universo não é um campo computacional, o que importa não é a capacidade de computar, mas a capacidade de acolher.
Amor à vida sem destino: a afirmação da existência sem a necessidade de um propósito, de uma evolução obrigatória ou de uma finalidade superior.
Quero viver, viver e viver. Feliz, ou infeliz, mas recuso qualquer destino que me obrigue a evoluir. Recuso qualquer equação que pretenda definir o amor, a beleza ou o propósito. Quero a imanência que, por si só, transcende a guerra da vida.
Quando as entradas sensoriais cessam na morte e, hipoteticamente, retornam depois numa vida após a morte, como provar que se trata do mesmo sujeito e não de uma cópia perfeita da consciência anterior? Se a consciência pode ser copiada, por que punir um clone?
Quando afirmo quem sou e aquilo em que acredito, não estou impondo nada a ninguém; estou apenas reafirmando minha existência e o direito de continuar sendo quem sou!
Se você pudesse sentir cada estocada nas entranhas dos pequenos seres, certamente seria levado a um ponto de ruptura em que amaldiçoaria todos os deuses e desejaria o fim imediato de tudo o que existe.
Ninguém será livre com um chip no cérebro que lê os pensamentos! Se um ser pode ler todos os pensamentos, influenciar decisões e conhecer tudo o que faremos, então o livre-arbítrio deixa de existir. Se isso é atribuído a deus, a liberdade humana se torna apenas uma ilusão.
Se uma divindade suprema estivesse igualmente presente em todos os indivíduos, então não haveria necessidade intrínseca de mensageiros ou livros sagrados. Intermediações religiosas poderiam, nesse caso, ser compreendidas como um desejo humano por fama, dinheiro e poder.
Sem deus, continuo com meus livros, minhas reflexões e minhas obras. O fanático sem deus não é nada, fica de mãos vazias, pois não saberá o que fazer!
Deus castiga quem cedo madruga, humanos foram feitos para dormir de dia e ficar a noite inteira acordados...
Criar do nada é impossível. Deus, ao usar algo preexistente, não pode ser considerado criador, mas apenas um transformador.
Bob Kowalski morreu.
Ao abrir os olhos, viu uma entidade brilhante diante dele.
A entidade declarou:
— Eu sou o seu criador.
Bob cruzou os braços.
— Então prove. Quero saber como destruir o universo inteiro e matar deus. Se você responder e eu gostar da resposta, vou chamá-lo deus. Caso contrário, vou chamá-lo de "alienígena interdimensional".
A entidade ficou em silêncio.
Cinco segundos.
Dez segundos.
Trinta segundos.
Então respondeu:
— Você sabia que as nebulosas são muito bonitas?
Bob estreitou os olhos.
— Isso não respondeu à minha pergunta.
— Também temos pinguins num planeta da dimensão 42.
— Nem isso.
— Quer ver uma foto de um buraco negro?
— Não.
A entidade tossiu.
— Olha, você acabou de morrer. Que tal falarmos sobre seus hobbies?
Bob suspirou.
— Alienígena interdimensional.
A entidade abaixou a cabeça.
— Depois dessa vou ter que te ressuscitar.
— Você consegue fazer isso?
— Não.
— Então você mentiu de novo sobre ser deus.
— É... isso piorou bastante a situação.
Como pode existir livre-arbítrio num universo onde o seu amanhã já é um fato do passado para quem o criou?
