Coleção pessoal de ateodoro72
Talvez a sensação de descobrir ter sido manipulado com a ajuda da IA seja a mesma de descobrir ter sido assaltado com réplica de arma.
Mas a diferença entre os que são assaltados com réplica de arma e os que são manipulados com a ajuda da IA é que os primeiros não idolatram seus agressores.
Se algum dia os Asseclas Apaixonados despertarem e perceberem que foram manipulados pelos políticos-influencers com recursos terceirizados, talvez troquem a paixão pela revolta…
Talvez a maior violência nem seja a da arma — verdadeira ou réplica —, mas a da consciência ferida quando percebe que entregou a própria confiança a quem jamais mereceu.
Ser assaltado com uma réplica de arma é experimentar o medo real diante de um perigo fabricado.
O coração dispara, o corpo obedece, a vida parece ficar por um fio — ainda que o gatilho jamais pudesse cumprir a ameaça.
A dor vem depois, quando se descobre que tudo foi sustentado por uma encenação.
Mas, ao menos ali, a vítima reconhece o agressor como tal e qual.
Já quando a manipulação acontece com a ajuda da Inteligência Artificial, o enredo é muito mais sutil.
Não há correria, não há gritos, não há mãos ao alto.
Há algoritmos, narrativas calculadas, recortes convenientes da realidade.
Há “políticos-influencers” que terceirizam argumentos, fabricam proximidades e simulam verdades com a precisão de quem sabe exatamente onde tocar para provocar aplausos — ou indignação.
A diferença mais perturbadora talvez esteja nisso: quem é assaltado dificilmente defende o agressor.
Mas quem é manipulado, muitas vezes, transforma o manipulador em mito.
E confunde-se quase tudo…
Dependência com lealdade.
Repetição com convicção.
Engajamento com consciência.
Autoritarismo com autoridade.
Arrogância com bravura…
E até Discurso de Ódio com Liberdade de Expressão.
Os asseclas apaixonados não percebem que, ao terceirizarem o próprio juízo, tornam-se extensão da estratégia de quem os conduz.
E toda paixão cega tem prazo de validade: dura até o dia em que a realidade rompe o encanto.
Se esse despertar vier, pode ser doloroso.
Descobrir-se usado é como acordar no meio de um teatro vazio, percebendo que a plateia era figurante e o roteiro nunca foi seu.
Nesse instante, a paixão pode, sim, virar revolta.
Mas talvez haja um caminho mais nobre que a revolta: o da responsabilidade.
Não apenas contra quem manipulou, mas consigo mesmo — pela pressa em acreditar, pela comodidade de não questionar, pelo conforto de pertencer.
Porque, no fim, nenhuma tecnologia é mais poderosa do que a disposição humana em não pensar.
E nenhuma libertação é mais revolucionária do que reaprender a pensar por conta própria.
Basta chegar o Carnaval para as redes sociais desfilarem santidade, mas basta acabá-lo para o mundo virar um inferno.
Entre os que se valem da folia para se divertirem e os que se valem do nome de Deus para se esconder, aparecer e se promover, fico com os assumidos e previsíveis.
O calendário mal anuncia o Carnaval e as redes sociais se fartam de santos improvisados: perfis austeros, discursos moralistas, dedos em riste…
A fé, a virtude e os bons costumes desfilam com mais rigor que qualquer escola de samba instrumentalizada.
Mas é curioso como, ao soar da última batucada, esses mesmos altares virtuais se esvaziam — e o mundo, sem aviso, volta a parecer um inferno cotidiano.
Talvez o problema nunca tenha sido a folia, mas o julgamento dos que se acham mais dignos da Misericórdia de Deus do que os outros.
Porque há quem não goste do Carnaval — e isso é legítimo.
O que soa dissonante é a necessidade de condenar a alegria alheia, como se o gosto pessoal fosse mandamento divino.
A virtude que precisa julgar e humilhar para existir já nasce manca.
Se os “santos” que rejeitam a festa julgassem menos e evangelizassem mais, talvez a hipocrisia não tivesse tanto espaço para sambar.
Faltaria palco.
Afinal, moral que só aparece em datas específicas não é princípio — é só outra fantasia.
E essa, convenhamos, também acaba na Quarta-feira de Cinzas.
O gosto do medo: no hospital, onde quase tudo é pouco, o que sobra é o paladar da alma tentando resistir.
Talvez, se o medo tivesse gosto — doce ou salgado — ninguém se recuperasse dentro de uma unidade hospitalar.
Pois ele seria servido em pequenas doses, mas, com efeito, prolongado, impregnando até o paladar da alma.
Ali, onde quase tudo é pouco.
Pouco tempero na comida, pouca luz nas madrugadas intermináveis, pouca cor nos quartos e corredores que parecem sempre iguais…
Poucas palavras que confortam de verdade, pouca fé que não vacila, pouca esperança que não se cansa, pouca paciência para o tempo que insiste em se arrastar.
O que quase sempre sobra é muito medo.
Medo silencioso, aquele que não grita, mas pesa.
Medo que se senta ao lado da cama, observa os monitores e faz perguntas que quase ninguém se atreve a responder.
E ainda assim, é nesse cenário de escassez que alguns aprendem a respirar e resistir.
Porque, quando tudo falta, o pouco que resta — um gesto, um olhar, uma prece sussurrada — ganha um valor imenso.
Talvez seja assim que o medo não vence: não por desaparecer, mas por dividir espaço com aquilo que, mesmo raro, insiste em subsistir.
Às vezes, as almas carentes e iludidas precisam tropeçar nas coisas simples para descobrirem que não são tão multifacetadas quanto se imaginam.
É preciso que elas tropecem justamente no óbvio — nas coisas simples, pequenas e cotidianas — para que o espelho da realidade se imponha sem filtros.
Não é a queda em si que dói, mas a revelação silenciosa que vem com ela.
A de que a complexidade que julgavam habitar era, muitas vezes, apenas um disfarce para vazios existenciais não encarados.
O tropeço no simples desarma personagens muito cuidadosamente construídos.
Ele desmonta discursos sofisticados…
Desmonta a vaidade dos rótulos e expõe o que ficou negligenciado: a dificuldade de lidar com limites, frustrações e com a própria incompletude.
Descobrir-se menos multifacetado do que se imaginava não é fracasso — é início.
É o ponto exato onde fantasia cede lugar à consciência.
Porque só quando a ilusão cai é que a alma tem chance de crescer de verdade.
E, curiosamente, é na simplicidade da vida — tantas vezes desprezada — que mora a lição mais profunda sobre quem realmente somos.
Para ajudar a manter o aluguel das nossas cabeças em dia, só consumimos conteúdos sugeridos pelos inquilinos.
E para arrotar seletividade, demonizamos todas as mídias e tudo que eles demonizam.
Porque, para receber o aluguel da própria cabeça rigorosamente em dia, é preciso aceitarmos, sem constrangimento algum, a curadoria alheia do que vemos, lemos e ouvimos.
Consumir apenas o que nos é sugerido — não por confiança, mas por conveniência.
Assim, o pensamento não precisa se arriscar, a dúvida não incomoda e o esforço de confrontar ideias é cuidadosamente evitado.
Nesse arranjo confortável, o viés de confirmação vira feno diário: tudo que chega afirma e reafirma, e nada nos desafia.
A consciência, então, deixa de ser morada e passa a ser imóvel alugado, decorado conforme o gosto do inquilino.
O silêncio ensurdecedor da criticidade é celebrado como paz, e a repetição das mesmas narrativas é confundida com coerência.
O preço desse contrato raramente aparece na fatura mensal.
Ele se revela, pouco a pouco, na incapacidade de pensar fora do script, no medo do contraditório e na estranha aversão a qualquer verdade que exija revisão de crenças.
Afinal, quem terceiriza o que consome, cedo ou tarde, terceiriza também o que pensa — e ainda chama isso, ingênua ou descaradamente, de opinião própria.
Mas a pergunta que ainda não aprendeu a se calar é: o que será de nós quando o contrato de aluguel das nossas cabeças acabar e o inquilino levar toda a mobília embora?
Talvez não haja sofrimento maior que o das almas carentes, que mal aprenderam a buscar curas para as dores físicas.
Porque a dor do corpo grita, aponta, incha, sangra — e, ainda assim, muitos só aprendem a silenciá-la com remédios apressados, sem jamais perguntar de onde ela veio.
Mas a dor da alma… essa só sussurra.
E, quando não é ouvida, encontra um megafone no corpo.
Há quem passe a vida peregrinando por consultórios, comprimidos e diagnósticos, enquanto a verdadeira ferida permanece intocada: a ausência de sentido, de afeto, de pertencimento.
Não por descuido, mas por desconhecimento.
Nunca lhes ensinaram que pode haver vazios que não se preenchem com anestesia, mas com presença.
Que há cansaços que não se resolvem com repouso, mas com reconciliação interior.
Almas carentes não são fracas — são famintas.
E fome não se cura com distração, mas com alimento verdadeiro.
O problema é que muito poucos foram orientados a reconhecer essa fome.
Ensinaram-nos a tratar sintomas, não a investigar silêncios; a conter lágrimas, não a compreender suas origens.
Talvez o maior sofrimento seja esse: carregar uma dor que não tem nome — e, por isso, não receber cuidado.
Buscar alívio onde só há paliativo, enquanto a raiz implora por atenção.
Curar o corpo é necessário.
Mas aprender a escutar a própria alma — isso é urgente.
Porque quando a alma é negligenciada, o corpo acaba pagando a conta de um abandono que nunca foi dele.
Só tropecei no infortúnio de tentar ser normal — e tropecei feio — até descobrir que o novo normal é se esvaziar de si mesmo.
Passei anos aparando arestas, baixando o tom das minhas convicções, suavizando minhas inquietações, rindo do que não tinha graça e silenciando o que ainda queimava por dentro.
Tudo para caber…
Caber nas expectativas.
Caber nas rodas.
Caber nos moldes invisíveis que alguém decidiu chamar de “normalidade”.
Mas há um preço alto demais em caber.
Descobri, tarde o bastante para doer e cedo o bastante para salvar, que o tal “novo normal” não é sobre equilíbrio, nem sobre convivência, nem sobre maturidade.
É sobre esvaziamento.
Esvaziar a autenticidade para evitar conflito.
Esvaziar a coragem para não incomodar.
Esvaziar a própria essência para não parecer excessivo.
E quando a gente se esvazia de si, sobra o quê?
Um corpo funcional.
Um discurso ensaiado.
Uma presença aceitável.
Mas não sobra alma.
Ser normal, nesse tempo apressado e ruidoso, parece significar ser diluído — sem arestas, sem profundidade, sem identidade que incomode.
Só que viver diluído é viver pela metade.
E ninguém nasceu para ser metade de si mesmo.
Talvez o verdadeiro infortúnio não tenha sido tropeçar.
Talvez tenha sido acreditar que a queda era culpa da minha diferença — quando, na verdade, era o chão que estava torto.
Hoje sei: não há nada de anormal em preservar quem se é.
Anormal é abdicar da própria essência para ser aplaudido por quem jamais suportaria a sua verdade inteiramente nua e crua.
Se for para tropeçar de novo, que seja tentando ser inteiro.
Porque o mundo já tem gente demais vazias de si — e cada vez menos pessoas dispostas a sustentar a própria alma.
Quase todos se dispõem a palpitar nas arquibancadas, mas quase ninguém se atreve a encarar as arenas.
Na zona quente das arenas — entre soros e corredores — a realidade é outra.
Lá, quase ninguém se atreve a encará-la.
É curioso como a vida se enche de especialistas quando o risco é dos outros.
Das arquibancadas, tudo parece simples: a jogada errada é muito óbvia, a decisão quase sempre poderia ter sido melhor, a coragem sempre parece insuficiente.
A distância cria a doce ilusão de clareza.
Ali, protegidos pela segurança de não sermos responsáveis pelo resultado, opinamos com firmeza, julgamos com convicção e, muitas vezes, criticamos com dureza.
A arena, porém, é outro mundo.
Nela, o chão treme sob os pés da incerteza.
As decisões são tomadas sob pressão, o tempo é curto e o medo é real.
Quem está na arena sente o peso das escolhas, o calor da exposição e a possibilidade concreta do fracasso.
Não há replay para corrigir palavras ditas, passos dados ou oportunidades perdidas.
Há apenas a coragem de continuar, mesmo sob olhares atentos e, por vezes, impiedosos.
Opinar exige voz.
Agir exige vulnerabilidade.
É fácil apontar falhas quando não somos nós a pagar o preço.
Difícil é aceitar que errar faz parte do processo de quem tenta.
Na arena, o erro não é sinal de incapacidade, mas de movimento.
Quem entra em campo pode tropeçar, mas também pode transformar o jogo.
E quem permanece na arquibancada preserva a própria imagem — mas abdica da possibilidade de vitória.
Talvez a grande diferença entre uns e outros não esteja no talento, mas na disposição de enfrentar o desconforto.
Porque crescer dói.
Sonhar assusta.
Realizar expõe.
E só descobre seus próprios limites quem decide testá-los.
No fim, a plateia sempre terá algo a dizer.
Mas são os que suam na arena que escrevem a própria história.
Porque só nos lavando de suor e lágrimas, onde um pouco de tudo acontece, podemos sair de alma lavada.
É superlegítimo que quase todos estejam muito preocupados com a readaptação dos alunos…
Mas, e a readaptação dos professores, que viajaram, reaprenderam a dormir, acordar tarde, e até a achar que já estavam ricos?
Fala-se da rotina que volta, do despertador que deixa de ser opcional, do caderno que substitui o travesseiro e das responsabilidades que retomam seu lugar.
Mas muito pouco se fala da readaptação dos professores.
Aqueles que, por alguns dias, viajaram — ainda que para dentro de si mesmos.
Que reaprenderam a dormir sem o peso do planejamento do dia seguinte.
Que almoçaram sem pressa.
Que ousaram esquecer o som da campainha.
Que até se permitiram acreditar, entre uma conta paga e outra, que talvez a vida estivesse finalmente entrando nos eixos… que talvez já estivessem “ricos” — não só de dinheiro, mas também de tão merecido descanso.
E então fevereiro chega sem ao menos pedir licença, já metendo o pé na porta…
Voltam os horários, os diários, as metas, as cobranças invisíveis.
Volta à responsabilidade de formar, orientar, acolher — muitas vezes sem que haja quem os acolha também.
Porque ensinar não é apenas transmitir conteúdo; é repartir energia, paciência e presença.
E tudo isso também precisa ser reabastecido.
A readaptação do professor é deveras muito silenciosa.
Não tem cartilha oficial.
Não tem reunião específica.
Não tem protocolo de acolhimento.
Mas existe.
E é muito profunda.
Porque antes de ser educador, ele é humano.
E humanos também precisam de tempo para voltar — não só à sala de aula, mas ao ritmo acelerado de um mundo que muito raramente reconhece o peso da missão que carregam.
Talvez o ano letivo começasse melhor se, junto aos alunos, também perguntássemos aos professores:
“Você está pronto… ou precisa de mais um pouco de fôlego?”
Força na peruca — Feliz e abençoado ano letivo, mestres!
Quem sugere que a justiça se valha de outro crime para se cumprir, pode ter qualquer sede, menos de Justiça.
Tentar legitimar um crime, em detrimento de outro, revela muito mais sobre suas próprias carências do que sobre qualquer virtude moral.
Porque a justiça, quando precisa caminhar sobre as sandálias do delito, já não é justiça — é vingança disfarçada de princípio.
A verdadeira justiça não nasce do atalho, nem se sustenta no erro alheio.
Ela se constrói justamente no compromisso de não reproduzir aquilo que condena.
Do contrário, perde o direito de apontar o dedo, pois passa a caminhar no mesmo terreno que finge combater.
Há quem confunda sede de justiça com fome de punição.
Mas justiça não se alimenta de excessos, nem se satisfaz com a quebra das próprias regras.
Quando alguém aceita um crime como meio legítimo, o fim já se encontra corrompido.
No fundo, quem defende esse tipo de lógica não clama por justiça — clama por triunfo, por alívio emocional, por aplacar ressentimentos.
A justiça, ao contrário, exige sobriedade, limites e, sobretudo, integridade.
Porque só permanece justa aquela que se recusa a se tornar aquilo que combate.
Para
as nossas
velas machucadas, quase todos os ventos são tempestades.
Há um cansaço que não se vê de longe.
Um rasgo pequeno na vela, quase invisível aos olhos distraídos, mas que muda completamente a forma como o barco enfrenta o mar.
Quando estamos feridos — por perdas, frustrações, decepções ou silêncios que doeram demais — até a brisa mais suave parece ameaça.
Não é o vento que sempre é forte demais; às vezes, somos nós que ainda estamos frágeis demais para suportá-lo.
Velas machucadas não significam fraqueza.
Significam travessia.
Significam que já enfrentamos mares revoltos, que já insistimos em continuar mesmo quando o céu escureceu.
Mas também revelam haver remendos a serem feitos, pausas necessárias, portos onde é preciso ancorar antes de seguir viagem.
Quando quase todos os ventos parecem tempestade, talvez o chamado não seja para lutar contra o céu, mas para cuidar da vela.
Para reconhecer nossos limites sem medo e sem culpa.
Para entender que sensibilidade não é incapacidade — é sinal de que algo em nós pede atenção.
O mundo continuará soprando seus ventos: opiniões, mudanças, despedidas, desafios inesperados…
Nem sempre teremos controle sobre sua intensidade.
Mas podemos escolher reparar o que foi rasgado, fortalecer o tecido da nossa coragem e aprender, pouco a pouco, a distinguir brisa de tormenta.
Porque, quando a vela é cuidada, até o vento contrário pode se tornar direção.
Se a
Fé e a Esperança
desse colo ao Medo, jamais caberíamos no Abraço da Paz.
No colo, talvez ele crescesse em nós como uma criança mimada, exigindo atenção constante, dominando nossos pensamentos e guiando nossas escolhas.
O medo, quando alimentado, torna-se senhor dos nossos passos; limita sonhos, interrompe caminhos e nos convence de que é mais seguro não tentar nada.
Mas a fé não foi feita para sustentá-lo — foi feita para enfrentá-lo.
E a esperança não existe para justificar inseguranças — ela nasce justamente para nos lembrar que há luz mesmo quando os olhos ainda só veem sombra.
A paz não é a ausência de desafios, mas a presença de confiança.
Ela floresce quando, mesmo sentindo medo, escolhemos acreditar.
Quando decidimos seguir apesar das incertezas.
Quando entendemos que o medo pode até bater à porta, mas não precisa sentar-se à mesa.
Fé é dar um passo no escuro confiando que o chão surgirá.
Esperança é manter o coração aceso enquanto não amanhece.
Se fé e esperança acolhessem o medo como verdade absoluta, viveríamos encolhidos, presos a possibilidades que nunca ousamos experimentar.
Não caberíamos no abraço da paz porque estaríamos ocupados demais abraçando nossas próprias inseguranças.
A paz exige espaço — espaço interior que só existe quando soltamos aquilo que nos paralisa.
Que a fé nos fortaleça, que a esperança nos impulsione e que o medo encontre apenas o tempo necessário para nos alertar, mas nunca para nos dominar.
Assim, quando a paz nos envolver, estaremos inteiros — leves o suficiente para permanecer em seu abraço.
Muitos que afirmam que Homem não Chora, nunca se esconderam para chorar — num Corredor Hospitalar.
Talvez os “durões” nunca tenham precisado fugir para os corredores hospitalares, só para chorarem em silêncio…
Nunca tenham sentido o peso de uma notícia atravessando o peito, enquanto o mundo continua andando como se nada estivesse acontecendo.
O corredor de um hospital ensina lições que nenhum discurso pode alcançar.
Ali, onde os grandes também se esvaziam, se aliviam, o choro não é fraqueza — é sobrevivência.
É o lugar onde muitos homens escondem as lágrimas, não por vergonha, mas por amor: para poupar os seus, para sustentar quem precisa de força, mesmo quando a própria já está prestes a se esgotar.
“Homem não chora” — especialmente em público, dizem.
Mas chora na solidão, na madrugada, no banheiro trancado, no veículo, andando ou parado, no corredor frio onde esperança e medo disputam espaço.
Choram porque sentem.
Porque amam.
E, porque carregam responsabilidades que já não cabem nas palavras.
Talvez o verdadeiro sinal de maturidade emocional não seja conter as lágrimas, mas saber por que elas caem.
E, ainda assim, seguir em frente, de cabeça erguida, coração ferido, alma lavada e inteira…
Sempre cientes de que se esforçar para não chorar dói tanto quanto se esforçar para sorrir.
O maior problema dos que alugam o próprio juízo é seguir acreditando que ainda pensam com as próprias cabeças.
Há um silêncio curioso na mente de quem terceiriza o próprio juízo: o da ilusão de autonomia.
Acreditam pensar por conta própria, quando apenas repetem ideias decoradas, opiniões emprestadas, certezas embaladas para consumo rápido.
Alugar o juízo não exige contrato nem assinatura — basta abrir mão da dúvida, do desconforto de refletir e da coragem de discordar sem desrespeitar.
Em troca, recebe-se o conforto de pertencer, a sensação enganosa de clareza e um discurso pronto para qualquer ocasião.
O maior problema, porém, não é a dependência intelectual em si, mas a convicção de independência.
Pois, quem reconhece que não pensa, ainda pode reaprender.
Mas quem se julga livre enquanto ecoa vozes alheias, já não percebe as correntes que carrega.
Pensar de verdade cansa, isola e, às vezes, até dói.
Talvez por isso tantos prefiram alugar a própria cabeça — desde que possam continuar acreditando que ela ainda lhes pertence.
Num mundo onde quase tudo se polariza, são os asseclas que têm o líder que merecem, não todo um povo.
Pois, onde quase tudo se polariza, tornou-se muito comum culpar povos inteiros pelos desvarios de alguns.
É um erro bastante confortável, porém recheado de injustiça.
Povos são plurais, contraditórios, cheios de silêncios e consciências que não gritam.
Quem grita costuma ser minoria — mas faz barulho suficiente para parecer maioria.
Os asseclas, esses sim, escolhem.
Escolhem seguir sem questionar, repetir sem compreender, defender sem ponderar.
Não são conduzidos apenas pela falta de opção, mas pela abdicação do senso crítico.
O líder que os representa não surge do nada: ele se molda à conveniência dos que preferem terceirizar o próprio juízo em troca de pertencimento.
Já o povo… o povo trabalha, sofre, discorda em silêncio, resiste como pode.
Nem sempre tem voz, nem sempre tem palco.
Generalizá-lo é repetir a injustiça que a polarização produz: reduzir a complexidade humana a rótulos fáceis.
Por isso, quando um líder se revela pequeno, autoritário ou ruidoso demais, não é todo um povo que ele traduz — são apenas os que o seguem de olhos fechados.
A Responsabilidade não é coletiva por conveniência; é individual por escolha.
E é essa distinção que impede que a crítica vire preconceito, e que a lucidez se perca nos ruídos dos extremos.
Com tanta má-fé se valendo do nome de Deus — invocá-Lo publicamente, em breve, causará mais Dúvida que Devoção.
É tanta má-fé se valendo do nome d'Ele, que corre-se o risco de que a Sua invocação pública passe a soar como estratégia — e não mais como reverência.
Quando o Sagrado é usado para validar interesses, justificar abusos ou maquiar vaidades, ele deixa de apontar para o Alto e passa a servir ao ego humano.
A repetição vazia transforma a fé em ruídos.
Palavras que deveriam nascer do silêncio da consciência passam a ser gritadas em palanques, timelines e disputas morais.
E onde há excesso de exposição, quase sempre falta intimidade.
Deus, então, deixa de ser encontro e se torna argumento.
Não é Deus quem se ausenta — somos nós que O afastamos quando O reduzimos a slogan.
A dúvida não nasce da fé sincera, mas da incoerência visível entre o que se proclama e o que se vive.
Quando o discurso é piedoso, mas as atitudes são cruéis, a devoção se desgasta e a confiança se rompe.
Talvez o tempo esteja pedindo menos invocação e mais testemunho…
Menos menção pública e mais coerência privada.
Porque Deus nunca precisou ser defendido por quem não está disposto a ser transformado por Ele.
E a Fé verdadeira, quando existe, dispensa propaganda: ela se reconhece no Cuidado, na Justiça e no Amor que não precisa fazer alarde.
Nunca se viu tanto maluco metido a multifacetado, cutucando o cão com vara curta, só para arregimentar confusos — à custa de uma bravura que nunca tiveram.
É tanta gente vestindo personagens como quem troca de roupa, chamando isso de “multifacetado”, quando, na verdade, é só falta de norte.
Provocam, cutucam o cão com vara curta, não por coragem, mas por necessidade de palco.
O barulho que fazem não nasce da convicção, e sim da carência de aplauso.
Alimentam-se da confusão alheia, arregimentam os perdidos, os cansados, os que já não sabem distinguir firmeza de fanfarronice.
E chamam de bravura aquilo que sempre foi medo disfarçado.
A verdadeira coragem nunca precisou de espetáculo.
Ela é silenciosa, coerente e costuma incomodar sem precisar latir nem mugir.
Já a falsa ousadia vive de risco calculado, de provocação segura, de ataques feitos sempre à sombra de alguma plateia.
No fim, não constroem nada — apenas espalham ruído.
E ruído, por mais alto que seja, nunca foi prova de força ou poder.
A inquietação das almas carentes costuma ser muito mais barulhenta do que qualquer diagnóstico.
Há inquietações que gritam, mesmo quando não dizem nada com clareza.
São almas carentes tentando preencher vazios que nenhum laudo consegue medir.
Enquanto o diagnóstico procura nomear a dor, a carência apenas a expõe — sem filtro, sem pudor, sem silêncio.
Por isso, faz barulho: não para ser compreendida, mas para ser percebida.
A inquietação da alma não pede rótulos, pede presença.
Não exige explicações, clama por sentido.
Talvez por isso incomode tanto: porque revela que há dores que não são patológicas,
são existenciais.
E estas, por mais incômodas que sejam, só se aquietam quando alguém aprende a escutar —
não o ruído,
mas o vazio que o produz.
Que o Médico dos médicos tenha misericórdia de todas as almas carentes!
Amém!
Quando as demandas ignoradas viram costume, basta alguém fingir preocupação para despertar a paixão do povo.
Ano eleitoral costuma ser tratado como tempo de promessas, mas deveria ser, antes de tudo, tempo de vigília.
Quando demandas ignoradas viram costume, o povo se acostuma a sobreviver com a ausência desenfreada.
E, nesse cenário de carência prolongada, basta alguém fingir preocupação para parecer o grande salvador.
Não é a solução que encanta — é a encenação do cuidado que seduz corações cansados.
A paixão política, quase sempre, nasce menos da razão e mais da fome: fome de atenção, de escuta, de dignidade.
Quem nunca foi ouvido, tende a se apaixonar por quem ao menos finge ouvir.
E assim, o abandono repetido pavimenta o caminho da ilusão coletiva.
Por isso, ano eleitoral exige menos euforia e mais memória.
Menos discursos inflamados e mais perguntas incômodas.
Quem só demonstra zelo quando o calendário aperta, não descobriu o povo — apenas a sua utilidade.
Vigiar é lembrar.
Refletir é comparar.
E escolher com lucidez é o único antídoto contra a velha armadilha: confundir preocupação encenada com compromisso verdadeiro.
Seria muito difícil — ou até impossível — alugar a cabeça de todo um povo, ou parte dele, sem antes comprar algumas.
Porque nenhuma multidão é dominada de uma só vez.
Primeiro, conquistam-se as vozes mais potentes, as mentes mais influentes, os que falam com facilidade e pensam com preguiça.
Compra-se a opinião de alguns e, pouco a pouco, ela passa a parecer a verdade que muitos gostariam que fosse.
Ideias alugadas raramente chegam com contrato visível.
Elas se disfarçam de pertencimento, de urgência, de causa nobre ou de solução fácil.
E quando parte do povo passa a repetir convicções que nunca questionou, talvez já não perceba que deixou de ser dono dos próprios pensamentos.
Há quem venda a consciência por conveniência, há quem a entregue por medo, e há quem a troque pela confortável sensação de fazer parte do coro.
Mas toda mente que abdica do esforço de pensar por conta própria torna-se terreno fértil para quem deseja governar sem diálogo, conduzir sem explicar e dividir para melhor controlar.
Pensar exige coragem.
Questionar exige disposição para, às vezes, caminhar sozinho.
Afastar-se da famigerada mamada.
Por isso, manter a própria cabeça livre talvez seja um dos atos mais silenciosos — e mais revolucionários — que alguém pode praticar.
No fim, não são as ideias impostas que transformam uma sociedade, mas aquelas que nascem do encontro honesto entre consciência, reflexão e responsabilidade.
Porque quem preserva a própria mente, não apenas protege a si mesmo, mas ajuda a impedir que o pensamento coletivo seja transformado em propriedade de poucos.
