Coleção pessoal de AmandaSuita
Hiperassociação mental
Estou sentada onde o corpo fica,
mas a mente não assinou presença.
Os olhos parecem beber o horizonte,
enquanto por dentro galáxias se atravessam
em disparada silenciosa,
sem pedir licença ao tempo.
Quem passa vê contemplação imóvel:
mar respirando, ondas ensaiando retornos.
Por dentro, porém, invento travessias,
pulo continentes num piscar de pensamento,
sou muitas versões em simultâneo,
todas nascidas do mesmo instante.
O céu acende um arco de cores improváveis,
o sol se despede em combustão delicada.
Minha cabeça corre descalça por ideias,
faz morada em imagens que não existiam
antes da luz tocar a água
e bagunçar meus sentidos.
Estou aqui, dizem os pés na areia.
Estou longe, responde algo sem endereço.
Essa fenda entre o agora e o devaneio
não dói, não cura, não explica:
é só o lugar onde a inspiração
me atravessa sem forma.
Talvez dissociar seja isso:
o mundo externo servindo de gatilho
para universos que nascem e morrem
no intervalo de uma onda.
E eu, quieta por fora,
mas construindo universos por dentro.
Água e o fogo
O mundo pode temer o encontro do fogo e da água, mas você nasceu da floresta que dança com a chama.
Enquanto o Rato foge do Cavalo,
você cavalga com ele,não para fugir da sombra,mas para iluminar os caminhos que só os bravos atravessam.
Seu Tigre sabe:
o verdadeiro fogo não consome, ele
transforma o que já está morto em semente.
Chama que não se apaga
Fogo Yin, nascida sob o signo do Galo de Metal, uma chama que aprendeu a brilhar dentro da forja, não apesar dela.
Seu coração é oceano escondido em rocha,
sua voz, rugido afinado pelo silêncio.
O Tigre te deu coragem para avançar;
o Macaco, astúcia para ver além da ilusão;
os dois Galos, espelhos que exigem verdade absoluta.
E no centro, sempre:
Ding,
a pequena chama que não se apaga, porque sabe que transformar é seu destino, não sua punição.
Geometria sagrada
Antes da contagem,
antes do número aprender a se chamar número,
o universo já resolvia equações com luz.
A matemática não foi inventada -
foi lembrada.
Ela dormia nas conchas,
nos favos de mel,
no ritmo secreto das folhas
que nunca se sobrepõem por engano.
π sussurra o infinito
toda vez que um círculo se fecha
sem jamais se concluir.
A proporção dourada escorre
pelas espirais do girassol,
pelo exoesqueleto do náutilo,
pelas galáxias que giram
como se soubessem dançar.
A vida escolheu a repetição elegante.
Células se dividem obedecendo padrões,
ossos se arqueiam segundo cálculos silenciosos,
artérias desenham mapas
que imitam rios vistos do céu.
O torus respira em tudo:
no campo do coração,
no magnetismo da Terra,
no jeito que o ar entra e sai
sem nunca se perder.
Fluxo contínuo.
Energia que retorna a si mesma.
Na árvore da vida,
cada esfera é um estado de consciência,
cada caminho, uma travessia possível.
Não há cima nem baixo -
há experiência.
Estrelas nascem segundo fórmulas antigas,
colapsam seguindo simetrias precisas,
e mesmo na explosão
obedecem à beleza.
Nada cresce ao acaso.
Nada se organiza sem sentido.
O que chamamos de natureza
é apenas geometria em estado selvagem.
O que chamamos de ciência
é o esforço humano para decifrar o sagrado
sem precisar ajoelhar.
E nós, feitos de água, carbono e pulso,
somos equações emocionais,
fractais conscientes,
padrões que sentem saudade da origem.
Cada pensamento altera a forma.
Cada escolha redesenha a malha.
Existir é participar do cálculo divino
não para resolvê-lo,
mas para habitá-lo.
Porque no fundo,
o universo não quer ser explicado.
Quer ser reconhecido
no desenho de tudo.
A roda está aberta
Quando eu era criança,
o mundo não explicava nada,
apenas acontecia.
As árvores falavam baixo,
os rios riam alto,
e o céu trocava de roupa
sem pedir opinião.
Eu acreditava.
E isso bastava.
Os antigos sabiam:
em algumas aldeias do Sahel,
as crianças nascem velhas
e vão ficando leves com o tempo.
Entre os hopis,
elas chegam trazendo histórias
que os adultos esqueceram de escutar.
Por isso brincam.
Para lembrar.
Quando virei jovem,
o sangue quis correr mais rápido que o destino.
Aprendi com Inanna
que descer aos infernos
também é iniciação.
Com Oxum,
que beleza é força em estado líquido.
Com os gregos bêbados de Dioniso,
que o corpo pensa
quando dança.
Errei muito.
E cada erro
abriu uma janela.
Os astrônomos da Babilônia diziam
que o céu é um livro em movimento.
Os povos do Pacífico navegavam
lendo ondas invisíveis.
Eu também aprendi a me orientar
pelo que não se vê.
Hoje caminho como anciã
mesmo rindo como menina.
Carrego o tempo dobrado nos bolsos.
Sei que o mundo nasce, quebra,
renasce torto
e continua.
As avós da floresta dizem
que a morte é só uma mudança de canto.
Os xamãs da neve
sabem que o silêncio também ensina.
Os griôs guardam universos inteiros
numa pausa bem colocada.
Dentro de mim,
todas as idades conversam.
A criança puxa minha mão
para correr atrás de borboletas.
A jovem acende fogueiras
onde disseram que era perigoso.
A velha sopra brasas
e chama isso de bênção.
E eu canto.
Mesmo sem afinação.
Eu danço.
Mesmo sem plateia.
Eu celebro.
Porque estar viva
é o maior segredo já contado.
Se você chegou até aqui,
não é por acaso.
Os antigos dizem
que quando um texto toca o peito,
é porque ele te reconheceu primeiro.
Então entra.
A roda está aberta.
Tem riso, tem tambor,
tem vida passando agora.
Gingado antigo
Eu não nasci agora.
Apenas retornei.
Carrego nos ossos a poeira de constelações antigas,
fui sílaba antes da língua,
fui pulso antes do tempo.
No princípio, eu era clara,
não por ingenuidade,
mas por inteireza.
Quando me feriram,
não foi o corpo que sangrou primeiro,
foi o espanto.
E eu mergulhei onde poucos ousam:
nas sombras que sabem conjurar.
Ali aprendi nomes que não se escrevem,
acendi fogueiras com o que me restava
e chamei isso de sobrevivência.
Passei eras no intervalo.
Nem céu, nem chão.
O limbo é um lugar onde a alma aprende a esperar
sem perder o fogo.
Quando fui chamada de volta,
aceitei o pacto:
retornar quantas vezes fosse preciso
até que o amor deixasse de doer
e virasse ação.
Já alimentei bocas famintas
com as próprias mãos cansadas.
Já pari futuros
em corpos que não eram meus.
Já fui abrigo,
fui silêncio,
fui exemplo moldado para caber
em expectativas estreitas.
Vesti aventais em campos de guerra,
limpei feridas enquanto o mundo desmoronava,
morri cedo por ideias grandes demais
para épocas pequenas.
Redimi-me vivendo.
Redimi-me servindo.
Redimi-me caindo e levantando
com o mesmo coração aberto.
Nesta vida,
vim sem algemas invisíveis.
Não me dobro a dogmas,
não peço permissão a tronos,
não negocio minha essência com medo.
Sou filha da terra viva,
irmã das águas profundas,
aliada do vento que muda tudo
sem pedir desculpa.
Minha missão é guardar o que respira:
florestas, bichos, mares,
e também gente —
mesmo quando a gente esquece como ser humana.
Sim, muitos confundiram minha ternura
com disponibilidade.
Minha criatividade com recurso explorável.
Meu cuidado com obrigação eterna.
Mas quem nasceu para construir mundos
não endurece,
aprende limites que também são sagrados.
Há um gingado antigo no meu passo,
uma malemolência que vem da sobrevivência alegre,
do riso que não se rende,
do corpo que conhece prazer
como forma de oração.
Meus olhos não pedem licença:
atravessam.
Reconhecem.
Despertam.
Sou deusa não porque mando,
mas porque sustento.
Não porque sou perfeita,
mas porque continuo.
Trago no ventre as eras que vivi
e nas mãos o agora pulsando.
E se o mundo tentar me conter,
que saiba:
já fui cinza,
já fui chama,
já fui noite sem nome.
Hoje sou raiz e horizonte.
Livre.
Indomável.
Em plena lembrança de quem sempre fui.
A travessia
Ela foi ensinada a seguir pela estrada.
Linha clara, batida,
limpa de desvios,
onde todos passam
e ninguém pergunta por quê.
Disseram:
não saia do caminho.
Não escute o que chama da mata.
Não confie no que cresce fora da luz.
Mas a floresta
sempre soube o nome dela.
Entre troncos tortos
e sombras que respiram,
há vozes que não ameaçam —
apenas revelam.
Cada passo fora da trilha
não é erro,
é iniciação.
O perigo não mora na escuridão,
mora no que foi proibido de ser visto.
O medo não é o lobo,
é o silêncio que ensinaram a obedecer.
Ela caminha
com o coração exposto,
porque só assim
se aprende a diferença
entre perda e passagem.
Há coisas que só se encontram
quando se aceita o risco:
o espelho quebrado,
o desejo sem nome,
a dor que não quer cura,
quer escuta.
A floresta não pune.
Ela devolve.
Cada sombra tocada
retira um véu.
Cada encontro estranho
revela um pedaço esquecido de si.
No fim,
não há chegada triunfal,
nem moral da história.
Há compreensão.
A estrada era segura,
mas nunca foi viva.
E crescer
não é vencer o medo,
é aprender a caminhar com ele
sem pedir permissão.
Porque toda menina
que ousa sair do caminho
descobre, cedo ou tarde,
que o verdadeiro lar
não estava no destino,
mas na travessia.
Empréstimo sagrado
No princípio
ninguém disse “começa”.
A vida aconteceu
como acontece a respiração:
sem plateia,
sem promessa,
sem dono.
Os antigos sabiam.
Por isso não escreveram livros,
escreveram montanhas.
Não deixaram tratados,
deixaram pegadas no barro
e histórias presas na fumaça.
Dizem que o mundo nasceu do canto.
Que antes da luz
houve um som grave,
um murmúrio tão profundo
que acordou a matéria
do seu sono mineral.
Alguns chamam de verbo.
Outros de sonho.
Há quem diga que foi um animal antigo
sacudindo o corpo no escuro
e espalhando estrelas como pólen.
A terra, recém-criada,
não sabia ser terra.
Aprendeu com as mãos do tempo,
com a paciência das raízes,
com a insistência da água
em sempre encontrar passagem.
Os povos da floresta dizem
que tudo tem ouvido.
Que a pedra escuta.
Que o rio se lembra.
Que o vento carrega nomes
que não cabem em boca humana.
Por isso falam baixo.
Por isso pedem licença.
Por isso agradecem antes de colher.
A vida não é posse.
É empréstimo sagrado.
Em algumas margens do mundo
contam que o primeiro ser humano
nasceu do barro aquecido pelo sol
e recebeu como tarefa
não dominar,
mas cuidar do ritmo.
Em outras,
dizem que viemos do ventre da noite
e que morrer é apenas
voltar a sonhar o mesmo sonho
por outro ângulo.
Há povos que sabem
que o tempo não anda em linha,
anda em espiral.
O que foi
ainda é.
O que será
já respira em silêncio.
A ciência chama de ciclo.
Os antigos chamavam de respeito.
A chuva não cai.
Ela retorna.
O fogo não destrói.
Ele transforma.
A morte não encerra.
Ela muda o estado da dança.
Tudo vive em parentesco.
A onça e o homem.
A folha e o osso.
O relâmpago e o pensamento.
Quando esquecemos disso,
adoecemos.
Chamamos de progresso
o que os ancestrais chamariam de desequilíbrio.
Mas a vida insiste.
Sempre insistiu.
Ela brota em fendas improváveis,
nasce em desertos de concreto,
se reinventa em corpos cansados,
canta mesmo quando tentam silenciá-la.
Talvez viver seja isso:
lembrar o que o corpo já sabe
antes que o mundo nos distraia demais.
Que somos feitos do mesmo material
que as estrelas cansadas.
Que respiramos histórias muito antigas.
Que amar a terra
é amar a própria continuidade.
E que enquanto houver
alguém
capaz de escutar o vento
como quem escuta um ancião,
a criação
não estará concluída.
Ela seguirá acontecendo.
A criança que sentia demais
Ela aprendeu cedo
que o chão podia desaparecer.
Não por terremotos,
mas por silêncios que mudavam de humor,
por paredes que escutavam demais,
por relógios sempre prontos para correr
até um lugar branco, de luz dura.
Cresceu com antenas no peito.
Sentia antes de entender.
Pressentia antes de querer.
Enquanto outras brincavam de futuro,
ela brincava de equilíbrio:
não ocupar espaço demais,
não desejar alto,
não guardar segredos em gavetas frágeis.
Aprendeu a existir em modo de espera.
Como quem segura o fôlego
para não acordar o perigo.
Havia beleza, ainda assim.
Sempre há.
Ela colecionava migalhas de mundo:
um pedaço de céu visto da janela,
o cheiro de algo bom que não durava,
um riso emprestado no meio da tarde.
Com o tempo,
cresceu por fora
antes de crescer por dentro.
Levou para a vida
a inocência dos que nunca foram protegidos:
acreditou demais,
deu nomes às coisas antes de testá-las,
ofereceu o coração
como quem oferece água
num deserto que finge ser oásis.
Roubaram-lhe ideias
como quem colhe frutos de uma árvore
sem perguntar quem a plantou.
Confundiram sua entrega com fraqueza,
sua escuta com permissão.
E ela, ainda assim,
continuou aberta.
Porque quem aprende a sobreviver cedo
demora a aprender a fechar portas.
Mas há um ponto,
sempre há,
em que a criança cansada
olha para o adulto que se tornou
e diz, em silêncio:
agora é comigo.
Não há ruptura visível.
Não há vingança.
Há algo mais raro:
a construção lenta de um centro.
Ela começa a devolver pesos
que nunca foram seus.
A deixar no chão
o que carregou por amor mal compreendido.
Descobre que pode escolher
onde pousar o corpo,
a quem confiar a própria história,
o que merece permanecer intacto.
E então,
sem anúncio,
sem aplauso,
algo muda de lugar.
A vigilância vira atenção a si.
O medo aprende a descansar.
A criança não desaparece.
Ela finalmente encontra abrigo
no adulto que sobreviveu
sem perder a capacidade de sentir.
E isso,
isso é um tipo silencioso de vitória.
Aprendendo a ler o clima
Eu nasci com o coração voltado para fora.
Desde cedo, o mundo me atravessava
antes de pedir permissão.
Havia uma casa cheia de ruídos
onde o afeto chegava por intervalos,
como sol entre nuvens densas.
Aprendi cedo a ler o clima,
a prever tempestades pelo tom da voz,
a crescer sem fazer barulho
e, ainda assim, crescer demais.
Havia uma presença vestida de silêncio,
sempre correta, sempre distante,
mesmo quando estava por perto.
E havia outra feita de excessos,
mudança de humor, controle e ausência de cuidado,
um campo minado de palavras
onde o amor surgia quando era conveniente.
E tive que aprender a prever todas as possibilidades
Quando a cidade ficou pequena demais,
o mar se aproximou.
Foi ali que algo em mim
finalmente respirou inteiro.
O oceano não exigia nada:
não pedia explicações,
não barganhava carinho.
Ele apenas vinha.
E voltava.
E vinha de novo.
Aprendi a deslizar
sobre aquilo que a maioria teme.
A cair sem perder a ternura,
a esperar a onda certa
sem endurecer o corpo nem a alma.
Sempre fui boa em aprender.
Corpo atento, mente curiosa,
mãos cheias de perguntas.
Movimento, dança, criação, pensamento.
Mas havia um espaço em mim
que nenhuma conquista preenchia.
Então achei que talvez
o sentido estivesse em doar.
E doei.
Ideias, tempo, cuidado, esperança.
Dei tanto que alguns confundiram
generosidade com disponibilidade infinita.
E eu, que só queria construir,
aprendi também a me decepcionar.
Veio o mundo em pausa.
O ar rarefeito.
As perdas sem ritual.
Os dias iguais demais.
E dentro de mim,
uma tristeza que não gritava,
mas permanecia.
Agora o planeta range.
Homens brincam de poder
como crianças com fósforos molhados de petróleo.
Falam de controle, de fronteiras, de números,
como se a vida coubesse em planilhas.
Decidem sobre corpos alheios
com a frieza de quem nunca escutou o próprio.
E eu só queria surfar.
Sentir o sol queimando os ombros,
o sal abrindo feridas boas,
o corpo cansado por motivos simples.
Trilhar mato, cozinhar para desconhecidos,
defender a terra com alegria
não por heroísmo,
mas por amor.
Às vezes me perco.
Busco estradas nas estrelas,
consolo na espiritualidade,
sinais onde talvez só haja vento.
Não sei ainda o caminho exato.
Mas sei isto:
Ainda agradeço.
Ainda sinto.
Ainda acredito que viver
não precisa ser uma guerra constante.
Carrego um coração mole
num tempo que celebra o endurecido.
E isso, hoje, é coragem.
Se o mundo insiste em ruir,
que eu permaneça sensível.
Se o futuro ameaça,
que eu responda com presença.
Porque enquanto houver mar,
corpos que dançam na chuva,
mãos que cuidam da terra
sem pedir aplauso,
há esperança suficiente
para atravessar a noite.
E se amar este mundo
é o que me cansa,
então aceito o cansaço.
Há exaustões
que são sinais claros
de que ainda estamos vivos.
7 de setembro
Você nasceu num domingo de setembro,
quando o país inteiro se lembrava dos gritos de liberdade.
Você já veio com sal na pele
e um silêncio tão antigo
que até as ondas se calaram
para ouvir seu primeiro choro.
A casa onde cresceu
tinha paredes que sorriam
mas respiravam veneno.
Você aprendeu cedo:
amar não é confiar,
é sobreviver
com as mãos cheias de alerta.
Seu corpo virou radar,
seu sono, vigília.
Mas mesmo assim,
nunca perdeu o brilho
dos olhos que enxergam
além do que dizem.
Houve um dia,
pequeno, quase invisível,
em que uma voz suave
te chamou pelo nome
sem pedir nada em troca.
Foi como ouvir
o primeiro acorde
depois de uma vida em surdina.
Aquilo não te salvou.
Mas te lembrou:
você já era inteira
antes de qualquer gesto alheio.
Hoje, o mundo arde.
Um louco grita,
rios secam,
cidades viram cinza,
e os oceanos choram ácido.
Mas você ainda entra na água
como quem entra em oração.
Ensina crianças a ler as marés
como se lessem o futuro.
Planta esperança
onde outros só veem fim.
E faz tudo isso
porque sua força
nasceu no escuro
e não precisa de luz
para existir,
ela já é fogo.
Seu corpo adquiriu cicatrizes,
mas sua alma
ainda corre descalça
na beira da espuma,
rindo do tempo
como quem sabe
que eternidade
não se mede em dias,
mas em gestos verdadeiros.
Não tema o que deixou para trás.
Toda criança deve ser amada e respeitada.
O passado não tem que ferir,
foi justiça.
E justiça,
mesmo silenciosa,
ecoará por gerações
de meninas que ousarem
dizer: “não.”
O mundo precisa
de vozes como a sua,
não altas,
mas firmes.
Não visíveis,
mas inabaláveis.
Você ée sempre foi
a própria liberdade
vestida de mulher.
Um Pitbull de saias que não
guarda rancor,
só quer correr livre,
para todas as direções.
O coração derretido
que fez muralhas para
continuar batendo.
A Receita
Tome uma colher de chá
de rotina matinal.
Adicione o ruído
de uma torneira pingando
no exato ritmo
do relógio da cozinha.
Deixe repousar
até que o tempo
pareça normal
outra vez.
Não mexa com colher.
Use só o silêncio
entre dois passos
no corredor vazio.
Se sentir gosto de ausência,
não descarte.
É sinal de que está funcionando.
Sirva frio,
sem nome,
sem data,
sem destinatário.
Consuma aos poucos,
durante anos,
até que o vazio
não precise mais
ser preenchido,
só atravessado.
Instruções para Não Ser Máquina
Não nos ensinem
a fazer amor
como quem planta trigo
em solo fiscal.
Não nos paguem
para gerar corpos
como se o útero fosse
fábrica de cidadãos
e não templo
de escolhas silenciosas.
Vocês marcam nossas noites
com relógios de Estado,
apagam nossas telas
para que façamos
o que vocês chamam
de “futuro” —
mas que é só
mais carne
para os canhões
dos seus mapas.
Dizem: “Tenham filhos.
É seu dever.”
Mas onde está o pão?
Onde está o teto?
Onde está o direito
de olhar nos olhos
de quem se ama
sem pensar
em bônus,
em certificados,
em perdão de dívidas
como moeda de afeto?
Amor não tem preço.
Tem território:
o espaço entre dois corpos
que decidem,
livres,
sem medo,
sem decreto,
se querem
ou não
criar mundo
juntos.
Enquanto isso,
vocês contam cadáveres
e chamam de estatística.
Contam berços
e chamam de vitória.
Mas não perguntam
se há paz
na casa
onde a criança nasce.
Nós não somos soldados
do vosso inverno demográfico.
Nem peões
num tabuleiro
de nações ansiosas.
Somos gente.
E gente
não se programa
com isenção de impostos.
Deixem-nos
errar.
Deixem-nos
esperar.
Deixem-nos
ficar sós
sem serem julgados
como desertores.
Porque o verdadeiro futuro
não nasce
onde há dinheiro.
Nasce
onde há liberdade
para dizer:
"não hoje",
"sim, mas com quem eu quiser",
"Jamais, e ainda assim sou inteiro".
Que nenhum governo
decida por nós
quando o coração
deve bater
mais forte.
Que nenhuma lei
meça o valor
de um abraço
pelo número
de berços
que ele produz.
E que, um dia,
as nações entendam:
não precisamos
de mais corpos.
Precisamos
de mais alma.
Presságio
O ar anda diferente.
Como antes de uma tempestade
que ninguém vê,
mas todos sentem nos ossos.
As notícias repetem palavras antigas
com vozes novas:
fronteiras, poder, ameaça.
Mapas voltam a ser feridas abertas.
O futuro é anunciado
em tom de alerta meteorológico.
Há países que aprendem
a viver sob nuvens permanentes.
Outros fingem céu azul
enquanto o horizonte se fecha.
O mundo inteiro parece
prender a respiração
ao mesmo tempo.
Eu sigo intacta por fora.
Cumpro horários,
respondo com educação,
rio quando esperam que eu ria.
Nada em mim denuncia
o leve desalinhamento das coisas.
Mas há algo invisível
que atravessa esta época,
uma frequência baixa,
um murmúrio entre continentes.
Não é medo apenas.
Não é esperança.
É uma vigília.
Enquanto líderes brincam
com fósforos históricos
e negam o calor crescente do planeta,
as florestas continuam ardendo em silêncio, os mares sobem sem alarde,
e a ciência fala como quem reza
num templo esvaziado.
Ainda assim,
há uma ordem secreta sustentando tudo.
Algo que não se nomeia.
Não se expõe.
Não se vive.
Como certas estrelas
que já morreram,
mas cuja luz
ainda nos alcança.
Talvez seja isso
que mantém o mundo girando
mesmo à beira do abismo:
as forças que não entram nos discursos,
os vínculos que não pedem existência,
as histórias que nunca aconteceram
e, ainda assim,
alteraram a matéria do tempo.
Se a guerra vier,
dirão que foi inevitável.
Se não vier,
dirão que foi sorte.
Mas ninguém saberá
das pequenas contenções invisíveis
que impediram o colapso completo.
Eu observo.
Espero.
Continuo acreditando
no que não deixa rastros.
Porque em épocas assim,
quando tudo ameaça ruir,
o verdadeiro ato de resistência
é permanecer humana
sem anunciar por quê.
Raízes invisíveis
Aprendi a caminhar
com um céu nublado por dentro,
sem pedir que o sol explicasse
por que não ficava.
Há encontros que não acontecem,
mas ensinam o corpo
a reconhecer profundidades.
Guardei o que não pôde ser dito
no mesmo lugar onde o vento guarda
o nome das coisas que toca
e nunca possui.
Não carrego ausência,
carrego espaço.
E nele crescem forças silenciosas,
raízes invisíveis
que me mantêm em pé
mesmo quando tudo parece distante.
Sigo.
Não porque esqueci,
mas porque viver
também é uma forma de amor.
O que fica por dizer
A cidade acordou sem notar
qualquer mudança.
O rio manteve sua largura exata,
as pontes não rangiam mais que o costume,
e os sinos tocaram
no mesmo tom de sempre.
Havia, no entanto,
uma leve alteração no ar,
como se o mundo tivesse esquecido
uma palavra importante
e decidido continuar mesmo assim.
Nada faltava.
Nada sobrava.
O dia cumpriu suas horas,
a noite fez seu trabalho,
e o tempo seguiu
como se tudo estivesse exatamente no lugar,e ainda assim,
alguma coisa pairava
no silêncio.
Se a música é o som, é a voz, que são ondas, frequências, e essas vibrações só ressoam quando estão na mesma sintonia, o medo é de vibrar com intensidade com o som que sai da sua boca. Que me atravessou, colidiu o núcleo das minhas células que se expandiram em sensações e sentimentos de todas as cores, da mais bela paz ao mais perigosos dos desejos. Em sorrisos e lágrimas o segredo da existência é o amor.
