Coleção pessoal de AlvaroAzevedo
Somente só
Jogo o baralho, sem naipe, sem número… o jogo do nada absoluto…
Jogo a incerteza na frente! Ao túmulo… todavia, não contava com um certo moribundo…
Jogo então a certeza irrefutável! De que tal moribundo ajoelhado, é certo do incerto em seu estado...
Para Lucas Tenório
Que fazes aqui? Mestre dos cânticos perdidos… porque parou? Esteve aqui todo este tempo?
Olhei por ti a cada momento... e espelhava a mão da sua euforia…
Por que andas só velho amigo?
Onde está teu rumo? Teu destino?
Não ouço mais teu suplício, nem teu cantar, nem teu sorriso…
Porque se escondeste? Temes ao que? E quem? Onde está Tenório, que em tempos de lei, seguia e redigia o bem?
Para onde foi a glória, a revolta de se revoltar… para onde foi a poesia, e a poetisa em seu altar?
Onde Tenório? Onde tu se escondes? Mesmo te vendo, não te recordo, nem te comento… e o soneto que fizeste a tanto tempo?
Onde estão as palavras e versos, a métrica, a fôrma, o inverso? E o desafio Tenório?
Onde está o sufrágio do tempo? A cadeia que liga o homem ao tormento? Ao sentimento...
Não deixes se levar pela chuva… não encontre na enchente a penumbra…
Reescreva a alvorada Tenório! Refaça seus versos! Me mostre seu credo! Seu paradigma, seu paradoxo…
Então mestre dos cânticos… te peço de volta o som do silêncio… o absoluto após tanto tempo! Te peço somente, escreva novamente…
Canto do sábia
Meras palavras
conjugadas,
erradas!
Trazidas e levadas…
perpetuadas!
Palavras arremessadas,
amordaçadas!
Sintaxe amedrontada!
Fonte sem fim!
Enclausurada...
Desenfreadas sentenças…
breves desavenças…
Martírio da doença,
palavras destroçadas!
Por fim reescritas,
retomadas!
Mais um leque!
Mais uma alvorada!
Ditas então,
como métricas sábias!
As novas sentenças
emolduradas…
Que se venha então
o encanto!
Canto dos sabiás...
Por hora, me encontro são! Mas dessa minha sanidade, não tiro o absoluto… tiro o movimento, a oscilação, a incerteza! Então por hora me encontro incerto, porém certo de que tudo pode acontecer...
Métrica assimétrica
Sobre a demasia das palavras transcritas de minha mente, percebo o quão falho é, ser humano!
E dessa falha eu retiro as tentativas, o desespero, e o alvoroço de ser escritor.
Continuo a escrever em versos simples, não moldados pela fôrma nominal.
Não gramaticalmente puros! Mas em essência de esplendor, se fazem mais que os que dizem demais!
Então prefiro assim, do meu jeito, sem muito requinte ou trejeito... Nem muita rima, porém muito proveito!
E faço do imperfeito, do disléxico, a beleza, “irredutível”! No mais, somente bela!
Logo então eu termino mal feito, não muito bem entendido, mas termino escrito! E pra mim já basta...
Logo... ser livre não existe! Aqueles que se dizem libertos, são os próprios prisioneiros da liberdade...
Liberdade não é uma conquista, é uma essência! Não se pode, de forma concreta, alcançar a abstração da liberdade, assim como também não se pode, de forma abstrata, ser livre.
Todos adoram falar sobre penalizações, leis, julgamentos! Mas seria eloquente, se os mesmos que vos falam, agissem com tal concordância!
Pobre burro… não conseguia mais mover-se, estava exausto! Quanta carga já havia trazido e levado? Seu montador, dono do chicote, desceu então da montaria! Olhou para o pobre burro, e perguntou-lhe:
-Porque parou? Ainda não chegamos! Temos muito pela frente, seu trabalho é andar! E fazer da carga sua vontade!
Mas o burro não obedecia… como poderia? Cansado e faminto a dias… Seu montador então desistiu!
-Se não tens capacidade para completar a caminhada, não tens então porque continuar vivo!
De longe ouviu-se o som do sacrifício. O chicote e a carga, agora eram somente lembranças da insistência do animal! Mas assim foi, e melhor foi...
Então que se vá a última melodia com o vento!
Que se mostre imparcial a cada momento!
Porém que seja firme, e em bom tom, para que se tenha entendimento...
No fim eu me preocupo! Não por mim, pois em mim não há mais quase nada! Me preocupo com quem eu amo, por que eles são o que sobrou de mim!
Sou tão louco como Nietzsche! Tão pessimista quanto Schopenhauer, empírico tanto quanto Locke foi um dia! Mas acima de tudo sou humano, como todos foram, e como todos serão
O homem fez de seu deus sua bengala... seu suporte, seu motivo, sua ação! O que é o homem então? Um fantoche do medo? Ou um prisioneiro da necessidade?
Carta para um ser humano
Respira a dor, ser humano! Prova tua incontestável virtude perante teus atos!
Mostra que tua calma e paz, se fazem verdadeiras na prática!
Dizer a mentira é fácil! Mentir sobre a realidade é um fato!
Fato esse que todos julgam correto.
Mentir sobre a mentira, girando no eixo de si mesmo. Enganando a si mesmo, roubando de si mesmo, matando a si mesmo.
Então respira! Agora contigo está a ferida. E como arde não é?
Como dói a falta de controle da vida, e como atinge graus tão altos!
Como é ruim não conseguir se mover! Dizer o quão fácil é estar e ser, mas no fim não conseguir exercer.
Então ser humano? Prova tua benevolência! Mostra o quanto és corajoso perante a insuficiência do bem, que mesmo fraco, distorce o mal e se torna fatal.
Mas é real! O fato da fraqueza dos falsos fortes, físicos pela lógica! Porém abstratos pelo sentido!
Não sentido de ser, pois esse não existe… existe apenas o sentir, que reflete concretamente na forma de ir e vir.
Fazer ou não fazer! As prioridades da humanidade!
Sempre mais por menos, sem se importar com igualdade.
Sem sentir o medo para com suas consequências, gerando cada vez mais causas, de desavenças, onde está a eloquência?
Onde estão os que respiram o ar puro de viver? Onde está a lógica de aprisionar a vida em si mesmo até o momento de morrer?
Onde está o sentido, esse falso e idolatrado de ser! Ser feliz!
Ser amado! Mas nunca ser odiado!
Pobre ser humano... tão frágil
E por último, onde está você? Que a todo momento vive em busca do prazer?
Momentâneo ou não, seja qual for, a busca pelo futuro interminável se reflete em terror.
O medo de estar imperfeito a semelhança geral! De não ser aceito como ser pensante, pelo padrão social.
Apenas como coadjuvante, que segue o caminho do caos.
Então a todos os seres humanos que respiram neste momento, peço um segundo de atenção!
Enquanto respiram tenham em mente que o mundo gira, a vida começa e termina e a morte predomina.
Troca de favores
Os últimos trapos, sobras de um único retalho. Costurados, costurados, fio a fio, ponto a ponto.
Por conveniência talvez, ou por descaso… substituídos! afinal, não se precisa mais de retalhos!
“O tecido é novo, o tempo é favorável, então sigamos em frente! Costurando agora linho, seda, lã… fazendo um bom trabalho!
E aquelas velhas mãos cheias de calos… porque fazê las sofrer? Coloquemos logo uma galoneira!
Que além de economizar tempo, ganhamos mais!”
Então que sigam! E deixem para trás os tais trapos de renda e cetim. Ainda há quem os queira!
Disso tenho certeza! E as mãos cansadas, também tem salvação!
Pois mesmo acabadas, sempre costuraram! E sempre costurarão!
