Cobra
O amor incondicional é aquele que não impõe condições, que não mede esforços e não cobra retornos. É o cuidado silencioso, o colo que acolhe sem julgamentos, o abraço que conforta mesmo quando as palavras faltam. Ele permanece firme, mesmo diante das falhas, e se revela na simplicidade de gestos que aquecem a alma. É o amor que cuida, protege e se doa, apenas por existir.
“É na ausência, e apenas nela, que a consciência nos cobra o que o conforto silenciou. Pois é fácil calar-se quando tudo ao redor nos embala em omissão.”
”Trair a si mesmo é contrair uma dívida impagável. A consciência cobra juros diários dos que se omitem diante do próprio princípio.”
Envelhecer é caro.
É um corpo que cobra pedágios a cada passo,
um tempo que arranca juros da carne e da memória.
É dolorido.
A pele se rasga em silêncios,
os ossos gritam,
a mente tropeça nos próprios vazios.
É triste.
Nada de auréolas douradas,
nenhum encanto escondido.
Tentam pintar flores sobre a ferrugem,
inventar poesia no apodrecer,
mas a verdade é dura:
a velhice é o desastre que ninguém quer nomear.
E o humano, com sua mania de suavizar tormentas,
cria palavras doces para açucarar o fel.
Mas no fundo, todos sabem:
o peso dos anos não tem romance,
tem custo, dor e solidão.
“Quem muito cobra satisfação, esconde informação.”
As pancadas em satisfação, na maioria das vezes, escondem muita coisa não dita.
Existe uma fissura ali… uma ferida aberta chamada desconfiança.
E sabe por quê?
Porque o castigo de quem trai…
é nunca mais confiar em ninguém.
Quem trai o outro, no fundo, traiu a si mesmo primeiro.
E a consciência sabe.
Ela lembra.
Ela acusa no silêncio.
Essa fissura vira medo, e o medo vira controle.
A pessoa começa a vigiar o mundo inteiro —
mas o que ela tenta mesmo é vigiar o próprio erro.
No fundo, ela sabe:
a falha não foi com o outro.
Foi com ela mesma.
E é por isso que vive inquieta.
Porque a consciência não esquece o que o ego tenta esconder.
— Purificação
Existem lobos em pele de cordeiro, uma certa vez, deixei um lobo e uma cobra entrar na minha casa como se fossem ovelhas, quando tirei o estrago já tinha sido feito, até hoje sofro as sequelas...
Serpenteia-me
Juvenil Gonçalves
Tu serpenteias meu peito em espirais,
como cobra de cipó nas rendas do mato,
enroscando teu ser nas fibras vitais
do meu íntimo bosque, denso e insensato.
Teu gesto é lasso, é laço, é nó, é enredo,
é perfume de seiva, é canto de galho,
é murmúrio que roça o sono e o medo,
e enlaça minh’alma num doce agasalho.
Teus olhos, duas luas em pleno enlevo,
teu toque, vertigem de liana e vento,
teu beijo, raiz que adentra o meu enlevo,
e brota em mim jardins de encantamento.
Assim me vences: sutil, doce, voraz,
teu corpo é serpentina a me habitar,
e eu, rendido, sou tronco, flor e paz,
nas voltas do teu seio a me enlaçar.
Toda escolha implica numa renúncia, como na bifurcação em que o caminho escolhido nos cobra abandonar o outro. Escolher a paz, por exemplo, pode exigir abrir-se mão de coisas importantes, mas que se fizeram menores ao se mostrarem incompatíveis com ela.
Deus não te cobra que tua vida aconteça na igreja, mas que a igreja aconteça na tua vida, pois é nesta última que habitas, e onde todas as virtudes que vais buscar na primeira se transformam em ações em prol dos que te cercam, que é o que Deus espera de ti como justificativa para tua própria existência.
Blefar para extrair vantagem, se não existe embasamento para o que se cobra, não passa de esperteza burra, com toda certeza. Mas quando, porém, o mérito se mostra presente e legitimado por competência, abrir mão da contrapartida apenas vermifica o ser humano por sujeitá-lo a condição que menospreza seu real valor, e revela estupidez pela renúncia a um direito inalienável de crescimento, sem o que nenhuma dignidade conseguirá subsistir.
