Boas Vindas para um Amiga
Sou como um riacho humilde que, entre pedras e barreiras, traça seu curso sinuoso; nunca estanco, apenas me desvio, impelido por uma força invisível que me arrasta para o mar infinito, um destino maior que me orienta e transcende meu próprio ser.
Num canto repousa um violão silenciado, ansiando por mãos que o façam lembrar do que é ser música. Eu, a poucos metros dele, também espero: que alguém me toque com a mesma delicadeza que se dedica a um som prestes a nascer.
A tempestade que se forma no fundo de um copo de uísque, após algumas doses, não é efeito da embriaguez, é o desbloqueio silencioso de lembranças mal enterradas, de amores antigos e mal resolvidos. Não necessariamente são meus, mas ainda assim doem como se fossem.
O tempo é um mestre tardio, só entrega respostas quando já não há perguntas, cura quando a dor já foi assimilada e oferece lições quando já não há mais como aplicá-las. Sua sabedoria chega sempre depois da necessidade.
O amor, em sua natureza mais crua, é um paradoxo temporal e emocional, sua verdadeira dimensão só se revela na experiência da perda. Enquanto presente, é banalizado pela rotina, negligenciado pela falsa segurança da permanência. Somente na ausência é que suas camadas mais profundas se tornam perceptíveis, como uma arquitetura invisível que só se desenha no vazio.
Poesia espelhada ao contrário do poema Negra, de Carlos Drummond de Andrade. Um exercício...
Branco
O sinhô branco tem tudo
o sinhô branco manda em todos:
__ Negros, vão carpir arar
aguar
extrair carregar estocar no celeiro
empacotar
subir paredes
rachar lenha transportar
limpar os sinhozinhos
fêmeas para servi-lo
parir.
O sinhô branco manda em tudo
tudo que seja tudo tudo mesmo
até o minuto final de vida de seus escravos
(único tempo que têm para se libertar)
enquanto o sinhô branco desde sempre
libertado está!
Agosto/ 2022
Falso positivo
Minha união
parecia ser tão positiva e firme...
Até perceber, um dia, ser aparência,
o seu revés:
-- a necessidade de ser o que não era; ser o seu contrário.
O positivo
do não-ser.
Tarde suspensa - choros e céus abertos
Olho o horizonte com céu aberto.
Parece um espaço mágico sobre a Terra.
Enxergo pedacinhos encantados de vários céus:
__ Azul, azul com traços de água a vapor.
Nuvens voam pelo espaço entre o meu eu e o ser ao lado,
Um choro forte emana de profundezas ancestrais,
Mas não serve de consolo.
Vejo nuvens ora pesadas, ora leves como o nada,
Ora como poeiras cósmicas ou de estradas.
Escuro total, breu emana sem limite demarcando meus vazios.
Ouço o Sol nascente, a pino ou poente,
Agora a indicar limites consistentes.
Água...
Água voadora entre hemisférios a umedecer e fecundar a vida.
Água:
...Vaporizada
...Líquida
...Gelada
...Pesada ou leve como pétalas
...Ou em flocos levados pelo vento
...Sadia
...Contaminada
...Rebelde, como tempestades e tormentas.
Pedacinhos encantados por vários céus...
Meu céu interno aproveita o tempo e se manifesta:
...Vibra
...Chora lágrimas em vapor, profundas ou em cascatas!
Digo adeus e bato a porta.
Sono profundo, por hoje, basta!
junho/ 2021
Saudade e um vazio
Um livro qualquer da estante...
Pego-o
Aquele vazio de não me acostumar
Bate em mim
Forte.
Uma data simples, comum: outubro de 2019,
Marcou aquele fim de ano.
Penetra-me
Sem machucar!
Finca o pé sem estreitar visões
Sem deixar sinal
É só um passado... quase distante,
Vindo de livros
Um passado que está onde deve ficar,
Pois lembranças nada são que memórias
_______> Vêm e vão _______>
Passam
Nada mais são!
11/09/2024
Tentações humanas
(Inspiração adolescente)
Da escuridão gélida da noite,
Sem conter um ar de vida em cores,
O feroz ser das multidões longínquas
Fez-se mais uma vez presente!
Conseguias derrubar montanhas onipotentes,
Destruir mil vidas encarniçadas.
Enquanto outras, ainda mais desgraçadas,
Se debruçavam no mundo tristemente...
Em cada face amiga que surgia,
Mais um tremor entre o céu e a terra se fazia,
Mais uma vez plantar seu ódio conseguias!
Tu, o que queres?
O que desejas?
Nenhuma resposta!
Mas algo era certo: era o diabo que surgia!
Agosto/1968
Sem nome
(inspiração adolescente)
Iluminou-se um caminho.
Fez-se em chamas o Universo.
Estrelas entreolharam-se
Mas simplesmente não se viram...
-- e nem podiam.
Voltaram-se todas para o mesmo caminho...
Num pequeno fim de mundo
Encontram e iluminaram um tesouro,
Tesouro que transmitia amor...
Era um pequeno mundo sem fim,
Onde um menino surgiu, abençoando a Humanidade!
Dezembro/ 1969
O velho
(versão II)
Quis depor dentro de mim, mas impossível
Não cabia dentro de mim um juiz,
Mas um dia coube o meu eu, tão orgulhoso!
Os meus defeitos continuaram sãos por muito tempo
As minhas mãos, aniquiladas pelo perdão que nunca veio
O bolor tomou conta de toda a minha pele.
Envelheci...
Mais caduco era antes com aqueles risos falsos
Hoje, orgulho-me de não ser nada e falar claro.
Muitas vezes sou criança e todos correm atrás de mim
Falo do mundo, xingo, brigo com os gatos!
Mas que importa? Sou um velho sincero como tantos.
Às vezes paro numa época da vida
Lembro-me dos filhos, colho flores
Procuro a namorada que antes me acariciava...
Sinto seus beijos e suas mãos em meus cabelos.
Sou um velho rabugento e espero passar o tempo
Aguardo a morte e vejo minha eterna namorado me acenando
Ralho com os mortos, pois é mais perto deles que me encontro agora.
abril/ 1971
*Chuva e fantasia*
Chove fininho lá fora.
Cada gotícula, um mundo!💦
Fora de mim, chuva constante.
Dentro, o Sol resplandece,💥
Segue seu rumo.
Zênite a pino,
Reluz.💥
Clareia.
Sigo meu curso!
junho/ 2021
BEIRA
(inspiração adolescente)
Com licença!
Aqui não é lugar pra mim.
Eu sou um revoltado...
-- Ora quero amor.
-- Ora a solidão.
Com licença!
Aqui não é lugar pra mim.
Eu sou um neurótico.
-- Ora não sei por onde vou.
-- Ora encontro só caminhos.
Mas com licença!
Aqui não é lugar pra mim.
Bem, eu sou um quase louco.
-- Ora não reconheço imagens.
-- Ora, há hora em que há menos ainda.
Com licença, eu me vou!
Aqui não é lugar pra mim.
-- Ora nem para ti.
-- Ora nem para nós todos!
Nós somos... quase.
Só isso!
Um pouco de nada com um toque de cor!
Set/ 1970
ZOO ? !
(inspiração quase adolescente)
Zodíaco, um aquário...
Lendas mitos e, no fundo, um saber.
Zodíaco, um peixes...
Do mar, do mistério, do homem nu.
Um áries...
Fogo e brasão, representação de gente histérica!
Do taurus... fugidio, rico e que acelera a vida.
Do gêmeos com câncer...
Leva o espírito, mata a matéria compadecido e passivo...
Zodíaco, astrologia leonina...
Marca o marco, ponto largo; o universo gira.
Ah, virgem!
Vida santa, martiriza a flor
Protege seus restos com o poder da vontade.
Signo libra e escorpião...
Vem do amor, marca a música, é imortalidade.
Num quase findar, sagitário...
Arredio, constrangido, que a vida leva.
Que marca o mundo...
Capricórnio...
fim de tudo.
Quase vida.
É terra, da teimosia e das cores negras que não existem.
Todos, tudo unido num poço fundo...
Mistérios que se compadecem da alma humana.
Set/1970
DESPEDIDA
É na partida triste
Que se encontra um todo,
Um todo a querer ficar
Para vagar, vagar...
Com os anjos do além-mar.
E depois ter beijos doces da morte,
Deixar ser levada pelo anjo
Lá para o fundo do oceano ativo,
Dentro do desconhecido.
Deixar ser levada pelo vento,
Pela brisa suave da noite rubra.
Deixar a vida tola... e ser tua!
15/11/1970 (retorno da Praia Ocean)
PENSAMENTO SOLTO
Eu estou passando.
Outros estão nascendo.
Um dia só um retrato, talvez, venha a revelar algo de nós.
Mas tudo isso será recordação
E recordação é coisa falha como falha é a vida.
Abril/ 1971.
Poema livre
(Inspiração adolescente)
Página aberta de um livro
Fechou-se...
Capítulo algum,
Não mais existe...
Nada!
Foi de compreensão que sucedeu,
Foi de paz,
Espírito consagrado...
Amor!
Foi e sempre será por nós,
Pelo bem-estar espiritual.
Não virás a mim
Casa minha
Refúgio santo!
Tu somente,
Ninguém mais.
Gélidas vidas?
Nada mais
Só paz &
Amor!
Mas, por quê?
__ Pelo amor, respondem
Mas que amor?
Ninguém explica!
Nosso olhar reflete a alma,
Alma pura de amor
Consagração real de felicidade.
Nossas mãos encontram-se sempre,
Num juramento eterno.
Amar sempre,
Seguir em frente...
Amando-nos sempre...
Sempre!
(1969)
O AMOR E O TEMPO
(ao reencontro de um amor verdadeiro, apesar do tempo e das distâncias)
O amor chega.
Instala-se
Feito água forte sem pegadas.
Cativado,
Permanece,
Impávido!
Anos e mais anos-luz se passam
E o amor permanece como semente
Numa sucessão de infindas fases e de lamentos.
São colheitas de vários e gestados frutos
Diuturnamente expelidos dos contatos.
Opa, o amor vai além disso,
das comunicações e dos tratos feitos
Pois o amor, enfim cativo, mas nunca escravo,
É eternamente oferecido em pensamento!
São contatos que não precisam ser presentes
Posto que o amor não necessita de presença física,
É gratuito,
E atua fora do espaço-tempo.
É grão, é sêmen, princípio, causa
Efeito das origens e dos finais dos tempos.
Ai o amor...
Translúcido e transparente,
Permanece, para todo o sempre, sendo
Oferecido de coração a coração e em pensamento!
(2024)
Despertar
Um dia, deixei hibernando o amor que me servia
De guia, encantamentos e prazeres.
Hoje, desperta pelas águas mansas do futuro,
Compadeço-me por ter dormido tanto
Sem abrir meus olhos à verdade!
Entorpecida pelo dia a dia que me sugava e consumia,
Inativa, busquei viver por meio
De mil afazeres e enganos violentos.
Hoje, desperta pelas águas mansas do futuro,
Agradeço a oportunidade do reencontro e do resgate!
2024
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