Aviao sem Asa Fogueira sem Brasa sou eu assim sem
GOTEIRAS DA INFÂNCIA
(No chão que a saudade regou)
Quando criança, eu achava que a chuva era o choro de Deus. Hoje, compreendo que aquela visão pueril não trazia goteiras de melancolia, mas sim o orvalho que preparava o solo fértil; essa lembrança desenhava, o tempo todo, o meu chão para que a vida pudesse, enfim, brotar e florescer. Mesmo que, no decorrer desse caminho, alguma flor murche, ela não morre, pois Deus sempre me estende um regador.
Lu Lena / 2026
O MALABARISMO
(A arte de não soltar o céu)
Com uma mão eu toco o céu e a outra eu toco o chão,
e assim vou seguindo fazendo esse malabarismo chamado vida.
Suspensa pelo fio da esperança
e ancorada pela corda da realidade.
Lu Lena / 2026
Dizem que cada átomo no nosso corpo alguma vez foi parte de uma estrela, talvez eu não vá embora, talvez eu vá para casa.
Eu já fui mais leve. Antes de compreender o peso das coisas. Antes de sentir tão profundamente o mundo. Antes de perceber que crescer também é perder partes de si. E nem sempre o que se perde volta a nascer.
As lágrimas noturnas derramadas quando eu estive sozinho no espaço, foram suficientes para carregar aprendizados e levantar a cabeça para mudar a estratégia. Porque, a minha motivação sempre tem sido a minha mãe.
Na solidão eu mastigo a dor, bebo a tristeza e viro Pauleremonopsicofilosofante: filho da ALFONSINA que não afunda.
Pragmático no citoplasma, aforístico na parede: eu, pensador lusófono e estudante da dor, mastigo tristeza com paciência, filho da Alfonsina, porque solidão é o deserto onde protoplasto vira periderme.
É impossível ser possível eu não quer em acreditar no Paulino Ngoio Macaia, meu irmão, irmão de sangue, meu menor, irmão maior da Alfonsina Ngoio Macaia, minha irmã, irmã de sangue, irmã maior da Francisca Gomes Ngoio Macaia, minha irmã, irmã de sangue minha cassula, nossa cassula, chara do meu pai, da minha mãe, da minha avó( mãe do meu pai) e de dois irmãos do meu pai. Meus irmãos: Paulino, Alfonsina e Francisca. Vocês nunca saíram jamais no meu coração e jamais serão apagados na minha mente. Amo-vos muito muito muito e mais.
Tenho anjos dentro do peito que rezam baixo para eu não desistir quando a noite pesa na costela. Mas demônios dentro da minha cabeça gritam tabela de culpa, lembram cada pão atona que comi sozinho e ainda assim sigo inteiro.
Falho a facada e o pão chora lágrimas de felicidade, mas o seu rosto está implorando para eu não procurar outra forma de eu cortar ele ao meio, feliz é ele por eu falhar a facada, mas a faca atingiu a mesa de madeira tão resistente que partiu a faca e está triste e preocupado sobre como fazer o seu interro.
Não sei um pouco de kimbundu, mas sim eu sei um pouco de uma língua parecida, o fiote, uma língua de um dos municípios de Cabinda e em Cabinda, todos conhecem.
