Walace Miguel
NU
Da forma que veio ao mundo, das formas de andar no mundo, olhar cheio e desnudo, o arrepio na pele obriga a língua cavar profundo.
Profanos seres que julgam como viemos ao mundo, como estamos no tempo, como nos devoramos agora, quando incontáveis ao tempo, quando o amor sussurra saudade de fora pra dentro, mas o que é infinito é minúsculo a vontade que esmurra o peito de dentro pra fora.
Sou pele, pelo, cor, sei de cor, em cada dedo, pra cada nó, segredos de nada, do lado de algo que nos faz companhia na estrada fechada de um passo só.
Sem vestes, sem pudor, sou perfeição, sou testes, aluno e mestre, sou parte sua, nuanças de sombra nua, sou teu servo, teu escravo, teu senhor.
Me traga um trago amargo do estrago que deixou um olhar vago, doce amargo, poema de Saramago, criação sem plágio, embriagando em saliva, em cais de sol e sais, meu refúgio pra naufrágio.
Frágil, quebradiço, fez de mim cortiço, sem cortina sem janela nem parede com chão de ouro maciço, fez de mim presença, sumiço, nus como viemos ao mundo, esse verso é sobre isso.
FERRUGEM
Observai a beleza inconsistente do novo mundo, como olhos que derretem sob a luz que não pertence ao sol.
Rogai amor aos que sentem ódio por nunca terem conhecido um abraço caloroso na madrugada fria.
Observai, homem santo, teus pecados mais secretos diluídos no manto do teu pensamento, de tecido puído e fétido, usando falsas palavras como antídoto para frases nunca ditas a ouvidos mutilados.
Lembrai-vos, a esperança reina no coração dos homens de honra, e a bondade continua oculta, porém tão vivida quanto a fúria dos oceanos quando quer retomar o que é seu por direito.
Alma de ferro, felicitai-vos por não enferrujardes tuas vértebras e veias; sorri ainda que a lágrima de teus olhos envelheça tua carcaça, ainda que as lembranças sejam apenas horas que nem sequer existem.
Festejai, alma de ferro, pois o sol se foi, a escuridão veio e somente a proteção de Deus pode nos manter inteiros até a manhã obscura e incerta do dia seguinte.
