Almir Zarfeg
CONTO DE NATAL
Mínimo na expressão, como o olhar do menino que acaba de nascer. Máximo no conteúdo, como a coroação de Marcus Aurelius Sampaio. Vida longa ao pequeno grande imperador!
Carnaval
Vamos encher a cara de alegrias e
Amores, sempre obedientes à
Lei: viver cada emoção na folia!
Vamos que vamos, colombina,
À diversão com a fantasia que nos
Liga e mistura e diverte e rima!
Vai e vem, pelo amor de Momo!
Aqui tem sedução, bom humor e
Lição: minha dona, seu homo!
Vai muito bem nosso Carnaval:
Assim e assado nós na avenida!
L&P: sou seu bem, és meu mal!
Piegas
Não aceite a parte que lhe cabe
Nas boas e velhas maneiras
Indisponha-se, não se entregue!
Nunca perca o brilho diante
Do espelho (é você mesma!) ou
Das cantadas assaz reticentes...
Aspire fundo a manhã fresca!
Agite-se para que, no fundo da
Alma, não lhe reste senão a doce
Ilusão dos lirismos vindouros...
Adie, sempre que preciso for,
O ósculo mil vezes repetido...
Desprograme o passeio na
Floresta, desfaça a mesa posta
Despersonalize a cantiga de
Amigo papai mamãe e o amor!
Salve salve, Castro Alves!
eu de 14-bis para homenageá-lo singelamente
sentindo o climão com estes narizes pouco sutis
repetindo os rasantes de cor: liberal, doravante!
desenhando as pegadas nas mentes altaneiras:
“é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar”!
meu poeta maior, vivo da silva e extravagante!
quero expô-lo romântico tardio, mas não óbvio
e dizê-lo – redivivo – repetida e publicamente!
POETA
Quem se sente o próprio cavaleiro do
Apocalipse: Paulo Mendes Campos
Quem divide o mundo em cronópios
E famas, mas prefere viver nas nuvens
Quem, não sendo godo nem mago, dá
Um duro na academia do professor Platão
Quem compartilha a fossa de Werther
Mas queria estar no lugar de Albert
Quem, não sendo mapa-múndi, traz
Minas e Bahia de cor e salteado
Quem não tem medo de fantasmas
Mas vive arrastando palavras no caos
Quem, em vez de calos nas mãos,
Tem um cavalo solto na imaginação
Quem recebe a pecha de sonhador
Com ceticismo e senso de humor
Quem sabe que o poema é a pior
Forma de expressão, com exceção das outras
ABRIL
Abril a boca para mentir, se vangloriar
Ou, bem pior, inventar fábulas, falácias
Pois era bicho-homem ou homo erectus
Cheio de segundas intenções (mas para
Que tantas se o meio-fio é dura lex?)
Abril o coração (um tipo de frase feita
Porque o tiro costuma sair pela culatra)
Oferecendo o outono a tantos e quantos
Não lhe opusessem qualquer emoção
Abriu-se como uma flor, a saber, como
Uma folha dessas que caem no poema –
Como uma mentira que, arrependida,
Se entrega ao algoz no dia da rendição!
